Duas estrelas no céu de Manhattan

Eduardo Osório Rodrigues lembra uma noite de novembro de 1956 quando Billie Holiday e Helen Merrill se encontraram

Para ser lido ao som de Helen Merrill e Billie Holiday em You Go To My Head

Arte: Gilmar Fraga

Na sala de estar de um apartamento da parte alta de Manhattan, com vista para o Rio Hudson, em Nova York, deu-se o seguinte (a cena é antológica): de um lado do piano Billie Holiday duas doses acima dos demais convidados; do outro, petrificada com a presença da diva, a novata Helen Merrill. Uma cantora branca de olhos fundos e voz de travesseiro em evidência na época.

Hum. Vem coisa boa aí. E não é que veio mesmo.

Entre elas, o anfitrião de nariz aquilino, com as mãos sobre o instrumento de 88 teclas e sete oitavas. Seu nome: Leonard Feather, historiador, produtor e grande crítico britânico de jazz. Feather tinha o hábito, saudável, diga-se, de gravar esses encontros com músicos. E este não foi diferente. Ouve-se de tudo ali: do tilintar das pedras de gelo nos copos ao murmurinho de timbres que se espraiam pelo ambiente, sobretudo o som da voz roufenha de sua ilustre convidada.

No Brasil, seria como se Zuza Homem de Mello estivesse em casa, abraçado ao seu rabecão, esperando o sinal para a execução de um clássico da música brasileira interpretado por Elis Regina e Maysa ou, se quiserem, Elizeth Cardoso e Sylvia Telles, duplas que me ocorrem agora e que vibravam – mais ou menos – no mesmo diapasão de Billie e Helen.

Sentados ao redor do trio jazzístico, a anfitriã, amigos do casal Feather e estrelas de outra grandeza do mesmo céu frequentado pelas cantoras: o saloon-singer Bobby Short e o clarinetista Tony Scott, bebendo, comendo e testemunhando uma noite histórica, digna de registro em disco, o que de fato ocorreria anos depois.

Apesar de estar no auge como cantora aos 41 anos, Billie fazia mal para o fígado que mataria sua dona três anos depois, ferido mortalmente por uma cirrose hepática. Em 1959, o órgão se despediu daquele corpo – e ela de nós. Mas aquela noite estava propícia para seus excessos. Billie, que provocava desejo e nunca renunciava, calibrou várias vezes seu copo, brincou, riu, mastigou como sempre as palavras, deu conselhos à pupila e até cantou. E como cantou. E como cantaram!

You Go to My Head, uma das músicas do repertório improvisado para uma plateia adulta e atenta, foi acompanhada ao piano por Feather. Helen Merrill fez a segunda voz e a parte final teve bis. Em 2015, a cantora revelou detalhes desse dueto vocal para o autor do blogue JazzWax, Marc Myers.

“Billie queria me mostrar como terminar uma música. Ela disse: Helen, você sempre deixa as músicas suspensas no final. E ela estava certa. Mas esse era o meu estilo. Billie, é claro, terminava todas as suas músicas da mesma maneira. Em You Go to My Head, cada uma de nós seguiu uma linha, ultrapassando a outra, o que é complicado. Quando chegamos ao fim, Billie mostrou como fazia o encerramento e queria que eu a seguisse para que entendesse. Por isso, fizemos o final novamente. Eu imitei o estilo dela e nós terminamos”.

A gravação foi descoberta somente em 2007 (51 anos depois) quando as fitas doadas por Leonard Feather para a Universidade de Idaho estavam sendo preparadas para virar arquivos digitais. Nove anos depois, em 2016, o selo Poll Winners Records, especializado no relançamento de discos classificados com cinco estrelas pela Down Beat, lançou o CD duplo Billie Holiday The Complete Carnegie Hall Performances, que continha essa joia.

O vídeo com o áudio dessa apresentação informal está no YouTube. Tem 7 minutos, tempo mais do que suficiente para Bille e Helen flutuarem com suas vozes antagônicas pela composição de Fred Coots e Haven Gillespie. You Go to My Head é um clássico da música norte-americana composto em 1938 e cantado, com graça e charme, até hoje. Mas nunca como naquela noite. Dessas noites que só costumam acontecer uma vez na vida para amigos de amigos que tinham cantoras desse nível quase como irmãs. Depois de ser abençoado por essa interpretação, capaz de arrepiar o mais sórdido filisteu, o que um ser humano que esteve perto do céu poderia querer, senão a morte em vida. A morte em paz.

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