Em Frisco com Donato

Antonio Carlos Miguel recupera algumas das andanças de João Donato pela Califórnia dos anos 60

Para ser lido ao som de João Donato em Sambou, Sambou

(Há cerca de dez anos, por insistência do casal Ivone & João Donato e de um amigo de adolescência deste, o saudoso Everardo Castro, comecei a pesquisar e entrevistar gente para um livro sobre o pianista, compositor, arranjador, trombonista e cantor acreano.  Projeto que vem andando aos trancos e barrancos e aguarda uma editora interessada em bancar os dois, três meses de dedicação integral para o texto final. Não é exatamente uma biografia, mesmo que inclua muitos dados biográficos e visitas a lugares por onde Donato passou. Entre eles, Los Angeles, São Francisco e Nova York, as cidades que o abrigaram nos 13 anos nos Estados Unidos, entre 1959 e 1972. No extinto blog que mantive no G1, entre setembro de 2012 e dezembro de 2017, registrei impressões de Frisco. Era junho de 2013, o Brasil fervia nos protestos dos vinte centavos (e não vai ter Copa…), que não foram entendidos por Dilma e PT e acabaram sendo usados pela direita. Deu no que deu, o pesadelo BolsoIgnaro, após sucessivos golpes brancos (da farsa do impeachment à da facada). Bem, melhor voltar à música…)

Arte: Daniel Kondo
Arte: Daniel Kondo

Os compromissos em Los Angeles para conhecer a mítica São Francisco, cidade que sempre esteve na vanguarda (e em meus sonhos). Para ficar em alguns exemplos, foi um dos berços da literatura beatnik (a livraria City Lights, de Lawrence Ferlinghetti, continua lá, assim como seu criador e poeta), dos movimentos hippie e gay e é onde o politizado roqueiro Jello Biafra mantém o selo independente Alternative Tentacles. E, em outro motivo forte para essa viagem, foi por mais de uma década um dos endereços de João Donato nos EUA, entre 1959 e 1972.

Dois dias em Frisco já foram suficientes para confirmar o quanto essa cidade tem de especial. Mas, felizmente, ainda teremos mais três para ficar rodando, sem roteiro fixo, em parte, atrás de algumas pegadas de Donato, tentando achar lugares onde ele tocou, viveu e frequentou.

Em 1959, mesmo com o início da bossa nova da qual foi um dos inventores, o pianista e então acordeonista não tinha espaço no Brasil para sua música, inovadora e estranha para os padrões da época. Assim, aceitou o convite do violonista Nanai, seu companheiro anos antes no conjunto vocal Os Namorados, para participar de um grupo que faria uma temporada num cassino em Lake Tahoe, em Nevada. Esse trabalho não durou muito (o grupo era tradicional demais para nosso genial e doidão personagem) e, meses depois, Donato acabou contratado pelo percussionista Mongo Santamaria, passando dois anos em Nova York. Até, em 1961, fazer uma temporada em Frisco, no clube Blackhawk (um dos shows foi registrado no disco ao vivo de Mongo At the Blackhawck, selo Fantasy, 1962), onde conheceu Patricia, com quem se casou e teve sua primeira filha, Jodel.

O Blackhawk fechou há décadas, assim como El Matador (outro lugar onde ele costumava tocar), mas pude conhecer The Trident, um simples restaurante de frutos do mar na charmosa Sausalito, aonde chegamos após duas horas de bicicleta, cruzando a Golden Gate Bridge – como sempre, encoberta pelas nuvens formadas pela evaporação das frias águas do Pacífico, mesmo num dia de muito sol e céu azul. Avançando nas águas da Baía de São Francisco, com uma vista maravilhosa, ainda hoje o Trident tem música ao vivo, nas noites de sexta e sábado, mas agora nas mãos de artistas desconhecidos, semi-amadores. No fim dos anos 60, a programação era outra e entre os frequentadores assíduos estava a local Janis Joplin e, sempre que apareciam por Frisco, os então jovens Rolling Stones.

Em junho de 1966, vivendo numa house-boat em Sausalito, Donato assinou um contrato para nova temporada em The Trident. Ele tinha acabado de perder seu baixista e seu baterista para o guitarrista brasileiro Bola Sete e apelou para Cal Tjader, que lhe indicou o baixista Ernest Diridone e o baterista Bobby Ramirez. Após uma semana, o dono do lugar pediu que Donato adicionasse ao trio um músico de jazz mais conhecido, para reforçar o público. Chet Baker aceitou o convite mas, após algumas semanas, perdeu seus dentes nas mãos de alguns traficantes de drogas, em episódio que está registrado nas biografias do trompetista junkie. Felizmente, outro craque, o saxofonista Bud Shank estava disponível e pode se juntar ao trio.

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