Um conto de Natal

Para ser lido ao som de Chet Baker em Silent Night

Recebi do conselheiro-mor Roberto Muggiati o seguinte email:

“Márcio
Um presentinho de Natal, você monta o texto, tem tudo aí, já estou me puxando a orelha por fugir da tradução para o recreio.
Abra primeiro o AMAJAZZXMAS, é o texto principal.
Qualquer dúvida estou aqui.
Tudo de bom!
Muggiati”

No que respondi:

“Ótimo, meu amigo, verei depois.
Ergo um brinde em homenagem à nossa amizade.
Márcio”

E só então me dei conta:

“Estamos iguais ao Jack Kerouac, conversas na noite de Natal.
Que o papai Noel te seja generoso.
Márcio”

A referência, para quem conhece Muggiati, é óbvia. E é ele mesmo quem conta, recordando uma história de seis décadas:

“Em 5 de dezembro de 1959, publiquei no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil um artigo de página inteira intitulado “Jack Kerouac e as crianças do bop”. Resolvi mandar um recorte para Kerouac, endereçado à sua editora. Três semanas depois, para minha surpresa, recebi um cartão datilografado e assinado pelo autor de On the Road. No ano seguinte, botei o pé na estrada e o cartão ficou esquecido dentro de algum livro – acho que Mexico City Blues. Há pouco tempo, remexendo em velhos papeis topei com o cartão amarelecido do velho Jack. E despertei para alguns detalhes que na época não me chamaram atenção especial. A solidão de Kerouac, por exemplo. Em 1959 ele estava no auge da fama. Choviam os convites: para dar conferências, publicar novos livros, artigos e reportagens em revistas, entrevistas à televisão, discos de jazz-poetry e por aí afora. Os mass media tinham descoberto os beats e o seu papa, Kerouac. Com o dinheiro dos direitos autorais, ele comprou uma casa em Northport – em Long Island, perto de Nova York – uma casa cinzenta, com um quintal que dava para um campo de futebol, onde se instalou com a mãe. A eterna mãe, que logo impôs um acordo ao seu Ti Jean: ela cuidaria da casa se ele concordasse em ficar seis meses por ano longe da estrada, só para escrever. O que me comoveu no cartão de Kerouac é que ele foi postado às 6h30 da tarde, na véspera de Natal. Será que Jack não tinha coisa melhor a fazer naquele dia – logo ele, tãocatólico – do que mandar um cartão para um obscuro correspondente do outro lado do continente?”

Assim, eu também, grato e recompensado, agradeço a Roberto Muggiati pela lembrança e pela parceria dele na AmaJazz. Seus textos melhoram e dão um significado ainda maior a este site. Sua amizade, me orgulha e me envaidece. E como diria nosso Kerouac: “Salud, hombre!”  

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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