Tudo para todos

Olivio Petit escreve sobre o seu fascínio ao revisitar o Rio de sua infância registrado no filme Sambalanço, de Fabiano Maciel

Para ouvir ao som de Orlandivo em Tudo Joia

Neste fim de semana, eu visitei o Rio da minha infância, assistindo ao filme Sambalanço, de Fabiano Maciel, na abertura do Festival Mimo, no Cine Odeon. Fabiano é gaúcho de Porto Alegre, morou anos no Rio e hoje vive em São Paulo e dirigiu um documentário que mostra o Rio de Janeiro que fez o Brasil ser reconhecido em todo o planeta. Lá estão o bom humor, Copacabana, as mulheres bonitas e a música.

É impressionante notar como a produção musical da Cidade Maravilhosa nos anos 50, 60 e 70 era vigorosa e talentosa. Tinha a música da elite. A música para ouvir. De harmonia sofisticada e letras elaboradas. Para ser cantada ao pé do ouvido. Aquela que ainda é o nosso maior cartão de visitas: a Bossa Nova. Mas também tinha, ao mesmo tempo, o ritmo que fazia a alegria da rapaziada. Para o público interno. Com uma pegada forte, que tornava impossível ficar parado ao ouvi-la: o Sambalanço.

Exportação e consumo interno de alto nível, tipo assim: tudo para todos!

Mas o que era o Sambalanço?

Logo no início o filme se coloca ao lado da plateia. O importante jornalista, pesquisador e roteirista do filme Tarik de Souza pergunta ao internacionalmente famoso arranjador Eumir Deodato, qual seria a definição de Sambalanço. O pianista responde impressionado: “O que é Sambalanço?”

Pronto! Estamos todos confortáveis na poltrona para apreciar uma avalanche de imagens de época, resultado de uma pesquisa rigorosa e profunda, que nos apresenta desde um travelling assustador de moto entre bondes e lotações, passa por uma aula de como dançar samba numa tv alemã, pela rigidez comunista de um balé da Checoslováquia dançando militarmente o que eles entendiam ser a Bossa Nova, por interpretações magistrais de Miltinho, Monsueto e Elza Soares, e atravessa as portas das boites da zona Sul e das festas de debutantes dos clubes de subúrbios cariocas.

Além disso o filme resgata a genialidade dos injustamente esquecidos Orlandivo, Ed Lincon e Durval Ferreira, a história do humorista Paulo Silvino como cantor e compositor e a gravadora Musidisc do criativo Nilo Sergio. Tudo isso ilustrado com capas de discos, imagens de salões lotados por casais a rodopiar, enfim… um trabalho muito próximo à perfeição.

A pérola maior, no meu entendimento a mais carioca de todas, vem quando Orlandivo caminha por uma calçada conversando com Ronaldo Brasil e acena para um grupo de amigos tomando chope de bermuda e sem camisa, no balcão de um bar. E logo alguém grita lá de dentro: “É tudo mentira!”.]É muito Rio de Janeiro para um senhorzinho refestelado na cadeira do único cinema que restou da Cinelândia de décadas atrás…

O filme é uma co-produção da TeleNews, do amigo dos tempos de TV Globo Leonardo Dourado e da TV Zero, do velho companheiro de aventuras universitárias Roberto Berlliner.

Querem mais?

Então selecionei 3 pérolas recolhidas no pré-filme:

  • O documentário levou 16 anos para acontecer, do primeiro pensamento, à exibição de ontem. Essa tenacidade, ou como chamaram a atenção o Tarik e o Leo, resiliência, ou ainda, como diriam os menos nobres, teimosia, é fruto da direção do Fabiano, que sabia bem onde queria chegar e chegou.
  • O Robertinho foi muito questionado recentemente pelo filme Bruna Surfistinha, meio que um fruto proibido e condenado pelo desejo latente do novo poder. Quando perguntei a ele qual o cenário do cinema brasileiro daqui para frente, ele respondeu: “Vamos voltar ao Cinema Novo, acho. Esses caras vão nos rejuvenescer!”.
  • Durante a apresentação da equipe do filme, um jovem pediu a palavra para demonstrar exatamente o que é trabalhar com arte no Brasil. “Eu comecei nesse filme como estagiário de produção na Telenews e estou terminando como produtor executivo na TV Zero, 16 anos depois”.

Isso é o cinema nacional, senhores adeptos do neoliberalismo opressor.

Vocês passarão.

O cinema… passarinho!

PS: Depois disso tudo, a namorada perguntou, com aquela feminilidade que não tem hora para acabar: “E agora? Vamos onde?”. E partimos para celebrar a Maravilhosa no Little Club do Beco das Garrafas, onde, no palco em que Elis Regina estreou no Rio, agora se apresenta o quarteto Rio Bossa Groove, do também colega da ECO, Heitor Pitombo. Ôooo sorte!

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