Meu amigo Wee Willie Walker

Luciano Leães estreia na AmaJazz lembrando sua ligação com o grande músico que morreu no dia 19

Para ser lido ao som de After A While com  Wee Willie Walker & The Anthony Paule Soul Orchestra 

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

É impossível dimensionar o tamanho e o valor da herança que Wee Willie Walker – morto enquanto dormia em seu apartamento em Minnesota, no dia 19, aos 77 anos – carregava na sua voz. Como muitos artistas, Willie não obteve o reconhecimento merecido em vida. Porém, se a academia e os especialistas não reconheceram o seu talento, era unanimidade entre músicos, produtores e críticos que Willie pertencia ao mesmo panteão de medalhões como Sam Cooke, Al Green, Otis Redding, etc. Quem presenciou suas performances ao vivo sabe disso.

Nascido no Mississippi, o cantor cresceu em Memphis no mesmo background de blues, soul e música gospel de colegas que obtiveram mais sucesso como os já mencionados Sam Cooke, Otis Redding e Al Green. Em 1959, mudou-se para Minneapolis. Lá começou cantando em grupos de gospel, mas acabou enveredando para o blues, soul e R&B tornando-o um dos precursores do gênero numa cena que revelaria nomes como Prince e Terry Lewis. Em 1968, Willie gravou nove singles pela Goldwax Records de Memphis, subordinada da célebre Chess Records. Algumas destas gravações, embora desconhecidas do grande público, são gemas fundamentais da soul music. You Name It, I’ve Had ItFrom Warm to Cool to ColdLucky Loser e I Don’t Want to Take a Chance, estão entre estas gravações.

Em sua última turnê pelo Brasil, em março, tocamos dois destes clássicos lado a lado. Foi emocionante ver Willie já mais experiente cantando aquelas canções que outrora foram registradas por ele em uma época onde tudo era dúvida. Sua risada fácil era tão sincera que refletia sua alma. Willie nunca a economizava, era sua marca registrada. Assim como o seu humor e carisma, que contagiavam a todos, no palco ou fora dele. Nos shows em que tive o prazer de fazer ao seu lado em diversas cidades do Brasil e dos Estados Unidos, vi sempre um homem autêntico que não mudava de personalidade  nos melhores momentos nem também naqueles não tão bons assim.

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

Pelo Clube do Blues RS, projeto que promove shows de blues no Estado, Willie se apresentou três vezes em Porto Alegre, fez shows também em Veranópolis, Passo Fundo e Santa Maria. Willie sempre gostou muito daqui, passeou pelo Brique da Redenção, comeu churrascos e não dispensava o seu bom e velho conhaque nos shows. Fiquei impressionado com a quantidade de mensagens que recebi de admiradores do trabalho dele daqui do estado.

A vida musical de Willie foi cheia de altos e baixos. Ele assumia, sem receio, que nem sempre fez as melhores escolhas do ponto de vista artístico. Willie contava que quando gravou Lucky Loser, recebeu um telefonema de um influente DJ de rádio dos anos 50 e 60, o caça-talentos John R., que queria conhecer a nova música. Com medo do que poderia acontecer, simplesmente descartou a oportunidade. Ao desligar o telefone, percebeu o erro.

Longe da música, ele trabalhou anos como mecânico para sustentar sua mulher e filhos. Às vezes se apresentava nos fins de semana na comunidade negra em lugares como o Nacirema, em Minneapolis, e o Road Buddies BBQ, em St. Paul.

Por volta de 2002, Walker se aposentou de seu emprego da época e se juntou aos Butanes. Desde então retomou sua carreira e se apresentou regularmente no circuito mundial de blues, soul e R&B. Foi também indicado nove vezes ao Blues Music Awards e fez diversas gravações, deixando registros memoráveis como no álbum Soul Connection (Raphael Wressnig e Igor Prado, 2016) e If Nothing Ever Changes (Wee Willie Walker, 2015). Seus próximos compromissos seriam um festival no Chile como headliner ainda nesta semana e uma apresentação na California com a Anthony Paule Soul Orchestra. Segundo sua mulher Judy, “He was just that kind of person, always wanting to do for other people, If he could make someone happy, he’d go for it — even if he had to break the rules”. Quem conviveu com ele sabe que não há exagero algum neste depoimento.

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