Sopro do espírito e da esperança

Ed Motta escreve sobre o trompetista Barrosinho, a voz avant-garde da banda Black Rio que criou um espírito de improvisação e composição que pareciam ser raras peças de museu

Para ser lido ao som de Barrosinho em Maracatamba

Foto: @LiberdadeSoberania

O saxofonista dos saxofonistas John Coltrane, quando deu luz ao épico A Love Supreme, em 1964, iniciava no jazz um novo conceito, tanto nos improvisos que apresentavam uma liberdade única quanto nas composições, que para o idioma jazzístico tiveram a mesma importância dos experimentos progressistas de Stravinsky na música clássica.

No mesmo período, vários expoentes do mesmo instrumento e contemporâneos de Coltrane, como Clifford Jordan, Sam Rivers e Charlie Rouse, não perseguiam a técnica enquanto foco central e sim como uma ferramenta para construir e desconstruir se necessário. Esse foi o ponto de partida musical e filosófico de uma veia importante do jazz pouco conhecida, o post-bop. Nela cabia o afro-jazz engajado do selo independente dos anos 70 nova-iorquino Strata-East – com Stanley Cowell, Charles Tolliver, Shamek Farrah, Bill Lee (o pai do cineasta Spike Lee, quer dizer… O Spike é que…). Na mesma corrente também atuavam o selo californiano Black Jazz – com Doug Carn, Henry Franklyn e Rudolph Johnson – e o Tribe, formado por músicos de Detroit – como Wendell Harrison e Phil Ranelin –, que participavam das gravações dos hits da Motown e se organizaram para um selo que não “sugerisse” a enésima rearmonização de Stella by Starlight, mas um trabalho de assinatura, assim como vinha desenvolvendo o mentor espiritual dessa geração, Coltrane. Isso sem falar em John Handy, Randy Weston, Arthur Blythe, Anthony Braxton, Sonelius Smith e milhares de outros.

Na música brasileira, esse senso de improvisação e composição aparece, entre outros nomes, nos discos do nosso spiritual jazzy Vitor Assis Brasil, passando por Nivaldo Ornellas, no final antológico de Beijo Partido, do disco Minas, de Milton Nascimento – que tem uma das joias do compositor, a instrumental-vocal Leila, com Edison Machado dando uma leitura moderna que Elvin Jones, baterista do quarteto de Coltrane, também daria –, até os paulistanos do Pé Ante Pé, em 1982, com um dos mais interessantes LPs de jazz lançados aqui, o não disponível em CD Imagens do Inconsciente.

A partir desse momento entramos na era “Eletric Band” ou “Plastic Band” ou até “Elastic Band”, onde o tecnicismo é a maior virtude e a influência asséptica da Berkley School of Music – que cada vez mais se mostrou indispensável – e os vários cursinhos que os americanos inventaram para transformar tudo e todos em jazzistas de canudinho na mão, prontos para integrar a última banda de Chick Corea, se tornaram fundamentais para a estética atual do jazz. É óbvio que o talento se beneficia da técnica, de Moacir Santos a Charles Mingus, só para citar dois gênios que podem realmente endossar esse famoso jargão universitário, mas o que se tem ouvido nos últimos anos é uma euforia olímpica onde o grande trunfo é uma ginástica musical de vencedores e perdedores.

Fui ao cinema assistir a um documentário que me deu angústia imaginar que, para as “cabeças incríveis”’ (seriam os antigos formadores de opinião?), a única saída de inventividade na música eram dois toca-discos, um DJ arranhando os discos às vezes interessante, percussivo, original, mas… Calma, minha gente… A saída mesmo foi a livraria em frente, onde, completamente atordoado, tenho a felicidade de deparar de cara com a cura: o CD O Sopro do Espírito, do trompetista Barrosinho.

Disco do Barrosinho na mão é dever de casa, aula de comportamento, conceito e o verdadeiro lifestyle do jazz. José Carlos Barroso, a voz avant-garde da banda Black Rio traz de volta um espírito de improvisação e composição que pareciam ser no mundo de hoje raras peças de museu, mas ufa! Finalmente. A mão do compositor aqui transborda coerência e sabedoria, da primeira à última faixa não tem assunto jogado fora.

Unção, o tema abre-alas do CD, com a tinta polirrítmica com que Barrosinho criou o Maracatamba – simbiose de samba, soul-jazz, afro 6/8 – e uma clave latina sutil que o baterista Jacutinga e os percussionistas Darcy da Seringa e Dom Gravata pincelam no disco inteiro, me deixou de coração na boca logo. E o improviso do trompete já vem rasgando a emoção e imprimindo a carteira do fã-clube do mestre sem esquecer do solo melódico a la Lennie Tristano do pianista Tomas Improta.

A seguinte, Cidade de Palha, parece que foi moldada para o estilo funky-brasileiro do baixista Carlos Pontual, que também tem grande momento no tema 6/8 Rio de Jauleira. Os dias de chuva de qualquer um que tenha um coração no peito nunca mais serão os mesmos depois da balada Espírito Santo, um tema com o ambiente das composições do pós-hard-bop que Wayne Shorter adoraria tocar junto, com certeza, e eu já devo ter ouvido essa joia do CD tantas vezes que o tema toca na minha jukebox mental involuntariamente, senhoras e senhores.

A sétima faixa do disco é, por coincidência ou não, um compasso 7/8 e esse tipo de sincronismo ou detalhe moldam a música genial de Barrosinho. Rosemary, que, com clima Black Rio-Duke Ellington, pode tanto extasiar os nossos ouvidos contemplativos quanto freqüentar os pubs londrinos ávidos e atentos por novos Rare-Grooves. A complexidade rítmica dos Maracatambas é motivo de estudo para se entender a evolução da música afro-brasileira. Com influência da música européia, a híbrida Amay, com o dueto violão e trompete de Gabriel Improta e Barrosinho, emociona pela versatilidade inteligente da harmonia e da melodia presentes nas composições do CD. Fazendo um paralelo da importância do maestro Moacir Santos na música brasileira, assim como Gil Evans e Charles Mingus tiveram nos EUA, Barrosinho anda por outros trilhos, mas é John Coltrane puro, só que infelizmente com menos oportunidades de realização de uma obra tão importante. Coisas das quais o país do futebol deveria se envergonhar….

Quando se fala hoje em sentimento musical, o estereótipo de campanha publicitária com Joe Cocker cantando Unchain my Heart num bar enfumaçado tem sido a adequação mais próxima de um evento em que a música não é a única expressão artística com dívidas com o sentimento. Barrosinho solando maravilhas no trompete conta, a cada inflexão, sua história e a falta que o sentimento vem fazendo nesses tempos em nossas vidas, e registra, sem sombra de dúvida, um dos melhores discos de jazz dos últimos tempos no mundo. Repito: mundo. O brasileiro tem sempre a mania de que beltrano é o melhor do Brasil porque parece que só podemos botar no altar, nas salas e cafés elegantes as fotos em preto e branco de mestres como Monk, Miles, Gillespie, Coltrane… Vamos fazer uma do Barrosinho porque ele pode e merece. O sopro do espírito é o sopro da esperança de que a música não morreu e tem um professor que pede passagem.

Este texto foi cedido pelo autor. Publicado originalmente em 31 de outubro de 2001 no Jornal do Brasil

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