Som com assinatura

Marcos Abreu lembra Jan Erik Kongshaug, o homem que ao lado de Manfred Eicher construiu a sonoridade rica e silenciosamente maravilhosa da ECM

Para ser lido ao som de Jan Erik Kongshaug em A Little Kiss

Foto: Divulgação/Facebook

Você vai ser transportado. O som dos discos da ECM vai transportá-lo. Esse som que está me levando a escrever esse texto. Vou falar sobre uma estética. Aquela criada por Manfred Eicher e Jan Erik Kongshaug, que construiram esse som rico e silenciosamente maravilhoso da ECM Records. Jan Erik Kongshaug tornou-se um dos engenheiros de som mais conhecidos do mundo, devido à  cooperação com o produtor Manfred Eicher, que ajudou a redefinir o jazz desde o início dos anos 70. Ele não gostava de ser notado, mas fez muita diferença. Sua presença silenciosa poderá ser ouvida em algumas das gravações de jazz mais importantes do nosso tempo.

Kongshaug morreu de uma doença pulmonar crônica no último dia 5. Nascido em 4 de julho de 1944, em Trondheim, na Noruega, filho dos músicos John Kongshaug e Bjorg Alice Teigen, Kongshaug produziu e gravou centenas de álbuns de 1970 até o final de sua vida e foi decisivo na criação do “som ECM”, que contava com precisão, fidelidade e grandes quantidades de reverber, para criar um espaço, uma sensação de grandiosidade dos espaços sem perder o intimismo.

As técnicas que Kongshaug desenvolveu deixaram marcas importantes em obras de Pat Metheny, Ralph Towner, Keith Jarrett, Chick Corea, Gary Burton, Dino Saluzzi, Meredith Monk, Arvo Part entre tantos outros.

Apesar da distinção sonora dos álbuns que fizeram juntos, Kongshaug sempre se adaptou aos pontos fortes e idiossincrasias dos músicos que gravou. Às vezes, ele colocava os microfones longe dos instrumentos, para captar mais som da sala, em outras ele simplesmente usava reverber artificial para criar a sensação de espaço. Também combinava a reverberação natural e artificial, ou  vários artificiais, com efeitos diferentes, em uma única faixa. Era um criador de ambientes. “Ele mudava o som conforme fosse necessário. Quando gravavamos, os discos solo de Chick Corea, o disco de Paul Bley, Open to Love, e Facing You, de Keith Jarrett, todos os três pianistas gravados no mesmo piano, mas todos com sons muito diferentes, resultados das posições dos microfone, da forma de capturar som” disse Eicher.

Kongshaug estudou engenharia elétrica e se mudou para Oslo em 1967, quando começa a trabalhar como técnico de som e músico (era guitarrista) no Arne Bendiksen Studio.  Ele não tinha muita ideia do que significa gravar músicas, nem mesmo sabia fazer o trabalho de um técnico de estúdio. Nada parecido com o que se pode fazer hoje. Mas onde se aprendia muito mais sobre as técnicas de captar e processar o som. Não como hoje, em que muitos acreditam que tudo se conserta com um plug-in qualquer dentro do computador. Na verdade se trabalhava com o som. Eram técnicos de som. Não técnicos de informática.

No estúdio, Kongshaug desempenhava um papel duplo, de músico guitarrista de estúdio e de técnico de som. Pouco tempo depois o Bendiksen, que era um estúdio de música pop, recebe novos equipamentos, inimagináveis para um estúdio de jazz da época. Um gravador de oito canais e um novo console inglês da marca Neve,  uma mesa de mixagem que ainda hoje é considerada como das melhores em sonoridade. É nesse período que a primeira gravação para Eicher acontece com o álbum Afric Pepperbird, um dos primeiros álbuns da ECM. No estúdio, Jan Garbarek e seu quarteto, Terje Rypdal, Arild Andersen e Jon Christensen. Eicher já havia tentado gravar Garbarek em um museu. Como os resultados foram fracos, ele se aproximou de Kongshaug e esta gravação foi o início de uma longa parceria, que resultou em mais de 600 gravações.

Mesmo que alguns estúdios possuissem salas grandes, e alguns até salas de reverberação (a exemplo do Capitol em Los Angeles) apenas as gravações de orquestra utilizavam esses longos tempos de reverberação, e dificilmente em instrumentos solo, como piano e saxofone por exemplo. A maioria dos discos instrumentais vinha com um som “seco” quase direto, se aproveitando da capacidade e da qualidade dos microfones ‘modernos” de captar com fidelidade todos os sons.

Nessa primeira gravação, os microfones estão próximos aos músicos e seus instrumentos. Há no saxofone, em primeiro plano, um reverber artificial, de uma EMT de placa, que acabara de chegar ao estúdio. Alguns albuns desse período são os de Ralph Towner (Solstice), Chick Corea e Gary Burton (Crystal Silence) e Terje Rypdal (Odyssey).

Até 1974, Kongshaug está fixo no Arne Bendiksen Studio. No outono de 1975, muda-se para o Talent Studio, em Oslo, e torna-se um técnico freelancer muito procurado, e sem uma base fixa. Trabalhou para Eicher e outros em Trondheim, Oslo e Nova York. Kongshaug com isso ganhou um nome internacional. Por um tempo se muda para Nova York, chegando a trabalhar no clássico estúdio Power Station. Desse período é o disco Rejoicing, de Pat Metheny, com Billy Higgins e Charlie Haden.

Quando volta para Oslo, o Talent está fechando e Kongshaug então monta o primeiro Rainbow Studio, em 1984, no que era o Grünerløkka Folkets Hus, uma antiga área industrial. O Rainbow era um estúdio bonito, grande para aqueles tempos (cerca de 150 metros quadrados), uma sala de som brilhante e com muita madeira. Enfim, uma sala viva.

Este será o lugar em que Manfred Eicher, que sempre assistia às gravações, passará muito tempo durante todos esses anos. A ECM então passa a ser o principal cliente do Rainbow. Suas sessões ocupam de 50 a 60% do tempo. Sobrando pouco tempo para outros. Mesmo assim Kongshaug grava outros gêneros, folk, clássico, pop, para outros selos, como o Blue Note, Geffen e clientes independentes de diferentes países.

O som que saiu do Rainbow Studio, ficou conhecido como “The Kongshaug Effect”, uma homenagem ao homem por trás do som. O nome de Kongshaug começa a aparecer então em muitos álbuns.

Mas há um segundo ponto. A ECM é justamente elogiada por seu som “natural”, quando, na verdade não é. Ele é o resultado de muito processamento e que, de alguma forma, acabou sendo usado em muitas gravações atuais. Realmente uma estética. Mas vamos combinar que o som dos instrumentos acústicos gravados nos discos da ECM pode ser bem agradável, mas de natural ou verdadeiro, ele tem pouco. É só ir a um concerto e escutar um piano de verdade. Um Steinway D, igual ao utilizado em muitas das gravações da ECM.

O que acontece é que se perdeu com o tempo a referencia do verdadeiro/falso. Hoje muito pouca gente tem noção do que é um som acústico de verdade, de um instrumento. Na maioria dos lugares só se escuta o som muito processado. E as vezes muito mal processado (e alto).

Em 2004, após uma série de brigas judiciais por causa de ruídos externos, de um restaurante vazando som para dentro do estúdio, Kongshaug decide se mudar e contruir um novo estudio em outro lugar. Ele constrói então uma sala mais seca, com menos reverberação e com uma técnica maior. Nesse novo Rainbow o console de mixagem é um Harrison GLW Series Twelve de 104 canais, analógico, não digital. É um console analógico controlado digitalmente.

O som de uma gravação da ECM é instantaneamente identificável. Espaçoso, mas íntimo, levando seu ouvido direto para a música, como se você estivesse sentado em uma sala cheia de música, sentindo o ar vibrar quando um baterista toca forte, ou o som de um trompete, saindo como uma suave coluna de ar através da campana e dos alto-falantes.

Assim como Rudy Van Gelder deixou a sua digital em dezenas de álbuns de Coltrane, Miles Davis, Wayne Shorter, Herbie Hancock para os selos Blue Note, Prestige e Impulse, Eicher montou seu próprio mundo de sons no jazz, um legado único e pessoal.

Para Kongshaug, “Assim que a música toca no microfone, meu papel é obter o melhor som possível, o mais natural e direto que os músicos podem nos oferecer. Nosso trabalho é receber o melhor que ele está dando e devolvê-lo com a maior transparência possível”.

Ao longo dos anos, Eicher e Kongshaug desenvolveram um processo de gravação muito eficiente. As sessões de gravação da ECM duram de um a três dias, para gravar os músicos e dois a três para a mixagem. Normalmente, os músicos podiam começar a gravar uma hora após a chegada. Kongshaug diz “Manfred está sempre presente nas sessões e participa ativamente de todas as gravações. Não acho que Manfred esteja tecnicamente interessado no que se faz ou como se grava. Mas ele sabe exatamente o que quer ouvir e me pede para executar. Começo a mixagem a partir do momento em que começamos a gravar. É uma mixagem muito fácil”.

Há então quem afirme que há uma assinatura “som ECM”, mas o ouvinte mais exigente pode facilmente distinguir a singularidade de cada gravação. Ainda mais se escutar de uma forma contínua, pular de uma gravação para a seguinte, vai conseguir ouvir as dinâmicas de cada música, bem como a clareza e o foco dos músicos, integrados. Artistas como Pat Metheny, Keith Jarrett, Jan Garbarek, Chick Corea, Charlie Haden, Don Cherry, Charles Lloyd, Bobo Stenson, Arild Andersen, Jon Christensen e Palle Danielsson, são apenas alguns das dezenas de músicos que têm gravações na ECM e se beneficiaram das técnicas de Jan Erik Kongshaug.

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