O senhor Embaixador

João Carlos Rodrigues lembra o percussionista, ator, artista plástico e figurinha fácil no bas-fond de Copacabana nos anos 60, autor de um dos discos mais originais da música brasileira

 Para ser lido ao som de Tribo Massahy estrelando Embaixador

Na época pouca gente percebeu, mas hoje quem estuda música brasileira, sabe. Houve uma tendência que não se institucionalizou em movimento, ficaram discos esparsos, mas que tem uma unidade na inspiração e produziu coisa boa, em geral pouco conhecida. Não é bossa nova, nem samba-jazz, nem samba, nem a chamada MPB. Não tem nome, mas podemos chamar de afro-sambas, em homenagem ao famoso disco de Baden Powell e Vinicius de Moraes, que não foi o primeiro, mas continua sendo o mais famoso. É a fusão dos ritmos africanos do candomblé e congadas com o jazz e/ou o samba. Tivemos a Orquestra Afro-brasileira do maestro Abigail Moura na virada dos anos 1950/60. Tivemos o já citado Afro-sambas de Baden e Vinicius em 1966. Tivemos o Coisas do maestro Moacir Santos, pela mesma época. Tivemos ainda o Krishnanda do Pedro Sorongo Santos em 1968. Temos hoje a Orquestra Rumpilez. E tivemos essa raridade aí: Tribo Massahy estrelando Embaixador, de 1972, um dos discos mais interessantes da leva.

Embaixador (Sebastião Rosa de Oliveira) foi um percussionista, ator, artista plástico e figurinha fácil no bas-fond de Copacabana nos anos 60. Conheci-o de vista quando eu era adolescente. Era figura da noite de Copacabana, algo como leão-de-chácara de uma boate. Também trabalhou como ator em alguns filmes, além de ser percussionista, mas não era muito levado a sério pelos dominantes do pedaço. Tinha uns dois metros de altura e a voz meio Anderson Silva, não combinava com o resto do corpo.

Produzido e lançado de modo independente, o disco é uma pequena obra-prima da música afro-brasileira moderna. Não é à toa que o vinil original esteja por volta de R$ 7 mil reais. E a maioria dos brasileiros nem nunca ouviu falar mas o disco repercutiu com intensidades diferentes na obra de Jorge Ben, Paulo Moura, Naná Vasconcelos e outros menos votados – os baianos não, o instrumental deles sempre foi mais fraco diante do texto, com todo respeito.

Tribo Massahy estrelando Embaixador foi gravado em apenas um dia com músicos que trabalharam sob pseudônimo sem ganhar um tostão. Mas é, repito, muitíssimo bom. Escute e verás. Dura 24 minutos então ponha para tocar e continue viajando na internet ou fazendo outra coisa. Você não vai se arrepender. Como ficou mais de 40 anos sem ninguém falar nele? Devem ser as tchurmas que enxovalham nosso país… Foi redescoberto por pesquisadores estrangeiros, sem preconceitos, ainda bem. Axé!

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