A próxima vez

Donald Vega volta a Porto Alegre para mostrar que tocar jazz é um constante aperfeiçoamento

Para ser lido ao som de Medo de Amar/Wave com Donald Vega, Ron Carter e Russell Malone

Foto: Márcio Pinheiro

Talvez só no banquinho do piano que Donald Vega, um nicaraguense de 45 anos, tenha sentado mais do que nos bancos escolares. Vivendo nos Estados Unidos desde os 15 anos, Vega começou pela Colburn School of Performing Arts, passando pelo The World Stage, pela Universidade do Sul da Califórnia, pela Manhattan School of Music e pela Juilliard School. A base ele já trazia de casa, uma família em que o avô de Vega obrigava os filhos a terem conhecimento de pelo menos cinco instrumentos cada um. A mãe de Donald, pianista e violinista, lhe deu as primeiras noções. O resto ele aperfeiçoou nos Estados Unidos com professores como os bateristas Billy Higgins e Lewis Nash e o pianista Kenny Barron. A pós-graduação foi fora das escolas, agora com o contrabaixista Ron Carter, com quem toca há oito anos e com quem esteve em Porto Alegre há cinco meses. Agora, Vega volta para uma única apresentação. E foi no palco do Instituto Ling, onde ele vai tocar nesta quinta-feira (às 20h, com ingressos entre R$ 25 e R$ 50), ao lado do contrabaixista Philip Kuehn e do baterista Alvester Garnett, que Vega conversou comigo e com Roger Lerina sobre o repertório do show, seus gostos, suas influências e também seus medos.

Na primeira parte, ele explicou que montou o repertório para esta temporada brasileira (antes daqui Vega se apresentou em Joinville) fazendo uma mescla de seus três álbuns-solos: Tomorrows, de 2008, Spiritual Nature, de 2012, e o mais recente, With Respect to Monty, dedicado ao também pianista Monty Alexander. Além disso, o pianista pode incluir uma homenagem à filha Isabel (Butterfly Waltz), algo de música brasileira (se sabe que ele é íntimo de Medo de Amar e Wave, de Vinícius e Tom Jobim, respectivamente) e ainda standards de mestres que sempre o inspiraram, como Erroll Garner, Herbie Hancock, Chick Corea, Oscar Peterson e os dois maiores: Bud Powell e McCoy Tyner. O primeiro, obviamente, ele só conheceu através dos discos. Do segundo, dínamo do quarteto de John Coltrane, Vega esteve cotado para substituir numa apresentação, o que, infelizmente, acabou não se confirmando.

Peça que Donald Vega tocou em seu ensaio no Instituto Ling
(Vídeo de Jéssica Barcellos Salgado-Martins)

Sobre os medos, Vega no momento tem dois. Um mais imediato, que tem a ver com uma peça musical que vem estudando alucinadamente para se apresentar ao lado de uma orquestra quando retornar a Nova York. O outro medo é mais antigo e tem a ver com suas raízes. Vivendo fora dos Estados Unidos há três décadas, Vega pouco tem contato com a Nicarágua natal. Sua mãe veio com ele para os Estados Unidos, onde Vega casou-se com uma americana e com ela teve um casal de filhos de oito e seis anos. Interessado que os filhos vejam o avô e o local onde nasceu, Vega aconselhou-se com o pai se a situação permitiria uma visita. “Por aqui as coisas estão calmas mas geralmente depois das seis ocorrem uns tiroteios”, explicou o velho. Na mesma hora, Veja abandonou seu projeto de viagem familiar. “Fico arrasado em ver no que se transformou o local em que passei minha infância. É muito triste”.

Vega espantou a tristeza e a desilusão com as seguidas temporadas, turnês e gravações como integrante do The Golden Striker Trio, o grupo de Ron Carter que conta também com o guitarrista Russell Malone. Em Ron Carter, ele chegou depois de um detalhado e demorado (quase um ano) processo de observação, em que o contrabaixista pediu a opinião de outros músicos com quem Vega já havia estudado/trabalhado e também prestando atenção na maneira como o músico se portava em ação, no palco. Na primeira vez que ensaiaram juntos, na casa de Ron Carter, o contrabaixista encerrou a primeira música com uma observação que ficou para sempre na memória. “Muito bom. Mas senhor Vega tenho certeza que da próxima vez você fará melhor”. A “próxima vez” vem se repetindo até hoje.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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