Voz e violão

Em Vento Sul – com lançamento previsto para esta semana de outubro – Yamandú canta em todas as faixas de um álbum pela primeira vez

Para ser lido ao som de Yamandú Costa e Bebê Kramer em Vento Sul

Arte: Daniel Kondo

Yamandú Costa não é o compositor gaúcho mais gravado por outros intérpretes – o título ainda deve pertencer a Lupicínio Rodrigues, seguido por Antonio Villeroy. Também não é o de maior apelo popular – posto ainda mantido por Teixeirinha – e tampouco o de maior prestígio entre a crítica especializada – cargo ainda em poder de Elis Regina. E, muito provavelmente, Yamandú Costa também não seja o músico que melhor encarne a alma e a imagem do gaúcho, ficando atrás do amigo e parceiro Renato Borghetti. Mas são imensas as probabilidades de Yamandú Costa, 40 anos em janeiro próximo, já ser – e o tempo cada vez mais confirma isso – o músico gaúcho de maior alcance internacional.

Com uma carreira longa e consolidada, Yamandú é figura fácil em festivais e concertos na Europa, nos Estados Unidos e no Japão – ano passado, só para Europa, foram 15 viagens. Yamandú é também presença constante em gravações ao lado de músicos de todas as latitudes. “Yamandú é um dos maiores instrumentistas do mundo, um virtuose completo”, elogia o maestro Tiago Flores, regente da Orquestra da Ulbra e que já dividiu vários trabalhos com o violonista nos últimos 14 anos.

Agora, a primeira novidade: Yamandú, a mulher Elodie e os dois filhos, Horácio e Benício, de seis e oito anos, estão de mudança para Portugal. É bem provável que ainda neste ano, na primeira semana de dezembro, eles já estejam instalados em Lisboa, cidade onde Yamandú pensa dar um melhor estilo de vida à família e também ficar mais próximo dos compromissos profissionais. Só no ano passado foram 15 concertos em solo europeu. Como não deve ser fácil ficar cruzando o Atlântico tantas vezes, Yamandú resolveu morar pelo lado de lá.

A outra novidade é o lançamento de um disco em que aparece cantando. Com Vento Sul – com lançamento previsto para a primeira semana de outubro – será a primeira vez que o músico coloca a voz em todas as faixas de um álbum. Nesse inédito trabalho de voz e violão, Yamandú interpreta composições com melodias suas e letras em sua maioria do poeta e letrista Paulo César Pinheiro (veja a seguir). As exceções são outras duas composições, uma feita com Vinícius Brum (veja também a seguir) e a outra com Erik Navarro.

Yamandú conta que se reaproximou da canção em 2014, quando machucou o punho num acidente em casa, provocando o cancelamento de vários shows. “Aproveitei o período para entrar nesse universo, para mim então desconhecido”, explica. “Também estou com um disco pronto com o acordeonista Bebê Kramer, que deve sair até o final do ano. E para 2020 já tenho previsto o lançamento de um disco de música caribenha, em que pretendo homenagear toda essa cultura do Caribe”. Recentemente, Yamandú esteve no Japão, onde fez um duo com Edmar Castañeda, músico colombiano que mora em Nova York há muitos anos. “Ele toca harpa. É um virtuose. Desenvolvemos um trabalho em conjunto e isso é o que mais gosto na vida: produzir e fazer coisas novas”.

Quando não está tocando, compondo ou gravando, Yamandú se dedica a prazeres mais prosaicos. “Gosto de jogar sinuca. É o hobby que tenho e que cada vez mais me serve como uma terapia”. Yamandú também gosta de caminhar. “Me agrada muito. Além de ser um bom exercício é a melhor maneira que conheço para compreender uma nova cidade”. E já indica qual pode ser um dos próximos desafios. “Estou até pensando em fazer a caminhada de Santiago de Compostela com a minha mulher”.

Yamandú diz que ter a possibilidade de conhecer o mundo e de viajar levando sua música é uma das coisas mais fantásticas. E de seguir compondo. “Tem tanta coisa para fazer. Eu agora ando louco para compor uma outra peça para violão e orquestra. É uma linguagem que eu me identifico muito e que tem uma grande profundidade musical. É possível encontrar na obra dos compositores toda a história da música. O maestro Tiago Flores acrescenta: “Yamandú é um músico dedicado e aplicado. Agora, mais maduro, conseguiu ficar ainda melhor, abandonando o som ‘sujo”, cheio de notas dos primeiros anos e conseguindo extrair o que de melhor o violão tem a oferecer”. Yamandú está sempre à procura de melhores resultados. “Eu estou sempre em busca da excelência”. E finaliza: “A carreira de um músico nunca tem um ponto de chegada. A gente está sempre tentando melhorar, sempre tentando aprender”.

***

Os dias de Yamandú têm sido conturbados. Mas ele não se queixa. Trabalho, gravações, ensaios, turnês, shows, viagens… tudo se acumula na agenda do músico. Em outubro ele deverá ficar o mês inteiro longe da família, com turnê por vários países da Europa.

Porém, como parte da família – a mãe e o irmão – continuará vivendo no Rio Grande do Sul, Yamandú garante não se afastar muito de suas raízes afetivas e musicais. “Pelo menos em períodos de férias e nas festas de Natal e de Ano Novo eu devo passar em Porto Alegre. É importante manter este vínculo, principalmente para meus filhos”.

Yamandú também promete ficar atento aos movimentos da música instrumental feita no Brasil. Reconhece que está ocorrendo um período de transformação e que as mídias digitais estão realmente mudando a cara do mercado. Porém, Yamandú sente que os novos artistas estão tendo a possibilidade de mostrar mais seus trabalhos e de ficarem mais próximos do público. “Para quem tem criatividade, sempre existe um lugar”.

O músico saúda a geração que aprendeu música através do YouTube. “Atualmente é tudo muito ágil. Você toca e já é ouvido imediatamente. A maneira de tocar, o jeito que você se comporta diante do violão, são importantes. E hoje todos têm acesso. Ficou mais fácil ser compreendido”.

Fazendo um balanço dos anos dedicados à música, Yamandú diz que só tem a agradecer. “O resumo que faço das minhas duas décadas de carreira é de muita entrega. Cada vez mais a gente vai aprendendo com o tempo. Eu sou um músico em constante formação. Então meu sonho realmente é conseguir me expressar cada vez melhor através da minha musicalidade e do meu instrumento e que as pessoas tenham acesso a isso e sintam que é de verdade que é uma entrega total”.

***

Quem não acompanhava de maneira tão próxima os festivais nativistas só ouviria falar pela primeira vez em Yamandú Costa em 1997. Na época, aos 17 anos, ele foi convidado por Baden Powell para abrir o show do violonista em Porto Alegre. Ainda que tenha tido seu nome grafado erradamente – a produção colocou Diamandu – o jovem chamou a atenção pela sua forma vigorosa e ousada de tocar violão e foi elogiado pelo compositor de Berimbau, que o convidou para voltar ao palco e interpretar mais duas músicas ao seu lado.

Agora, quem não sabe quem é Yamandú – nome que se pronuncia como “Djamandú e que em tupi-guarani significa “Senhor das Águas” – definitivamente está afastado do mundo musical. Já aos 21 anos, com CD lançado ao lado de Lucio Yanel e como vencedor do Prêmio Visa, Yamandú despontava como um dos maiores fenômenos da música instrumental brasileira. Em 2001, o Visa, um dos primeiros reconhecimentos de alcance nacional, colocou Yamandú entre os 24 selecionados iniciais, superando um total de 365 inscritos em todo o Brasil.

Músico formado desde criança nas escolas das Califórnias, Coxilhas e de outros festivais regionalistas, Yamandú sempre se mostrou interessado em abrir novos horizontes, porém sem esquecer suas raízes. “A raiz para mim é fundamental. Nunca abandono a minha formação, que é a música do pampa, onde fui criado”, me disse ele em uma entrevista há 18 anos.

Se as raízes nativistas são as bases, as principais influências vêm de Baden Powell, e Raphael Rabello – não por acaso dois dos principais parceiros de Paulo César Pinheiro. Nascido em Passo Fundo, filho do multi-instrumentista Algacir Costa, Yamandú começou a tocar violão aos sete anos e, dois anos depois, já se apresentava ao lado do pai em festivais. Quando no início do século mudou-se para o Rio de Janeiro, Yamandú passou a ampliar as referências com nomes como João Pernambuco, Dilermando Reis, além de temas dos folclores uruguaios e argentinos e de parceiros contemporâneos como o guitarrista Armandinho (ex-Cor do Som) e os já falecidos Dominguinhos (acordeom) e Paulo Moura (sax e clarinete).

Autodidata, Yamandú deixa a impressão de que nada que foi feito para o violão brasileiro lhe passou despercebido. Baden Powell é a influência inicial (“O disco que mais me marcou era dele, aquele que tinha o Choro para MetrônomoGarota de Ipanema e Samba em Prelúdio acompanhado por orquestra”). Utilizando um modelo de sete cordas, Yamandú se caracteriza por uma forma de tocar forte e incisiva. Sua maneira nervosa de tocar se espalha também pela sua postura no palco. Yamandú se mexe bastante, perde litros de suor e faz caretas. E não raramente chega a arrebentar diversas cordas durante um único concerto.

Cinco perguntas para Yamandú

Quais são os projetos em que você está envolvido atualmente?
Yamandú Costa –
 A dinâmica da vida artística mudou muito nos últimos anos devido a toda transformação digital. Está todo mundo tentando entender exatamente como é que funciona isso. E eu não fiquei de fora. Eu procurei me adaptar. Aumentei a minha casa, construí um estúdio para que pudesse conseguir fazer esses conteúdos e acompanhar a nova tendência digital. Então tenho vários projetos. Nunca é um só. Também estou sempre alimentando os meus canais, gravando vídeos no meu estúdio para que semanalmente eu possa postar e ficar cada vez mais próximo dos ouvintes.

Como surgiu a parceria com o poeta e letrista Paulo César Pinheiro?
Yamandú Costa –
 Nasceu há bastante tempo, durante um churrasco, quando eu mostrei a ele uma música minha e ele me disse: “Olha, gaúcho, tem algumas coisas que você tocou aqui hoje aqui em casa que tem palavra. Se você quiser, eu descubro quais são”. E isso foi um convite irrecusável. Tem também o fato de o Paulo César Pinheiro, além dele ser um grande poeta, ter entrado na minha vida em um momento em que eu estava passando por um processo de recuperação. Eu tinha lesionado a mão depois de ter sofrido uma queda na minha casa, quebrando um osso do pulso. Tive que ficar três meses parado, cancelando vários concertos. Foi um momento bem delicado da minha vida porque colocou em xeque o que sempre foi o mais importante para mim, que é a música, a minha relação com o violão. E foi nesse momento que o poeta me acolheu. Me acolheu para fazer essas canções, para conversar.

Como foi essa acolhida?
Yamandú Costa –
 Foi algo psicologicamente muito importante para mim. Nessa época tive o apoio dele. Essa perseverança, esse ensinamento de que tudo vai dar certo. E através dessas canções eu aprendi muito. São letras filosóficas com uma clarividência muito especial. Então você podia fazer uma música completa. Aquilo tem uma história, aquilo conta uma história. Enfim, um enredo. Isso é uma coisa fantástica. É uma transformação que eu nunca tinha vivido.

Por que a opção de se instalar com toda a família em Portugal?
Yamandú Costa –
 Para mim estava ficando muito cansativo ter que ficar cruzando o oceano o tempo inteiro. Ano passado, por exemplo, foram quinze idas e quinze voltas. Fora as viagens para a Ásia e para os Estados Unidos. Então começa a ficar bastante difícil sabe. E além da questão prática, Portugal está vivendo um momento realmente muito interessante. Eles estão recebendo muito bem as pessoas que têm intenção de levar a família. Vale lembrar que eu também tenho a cidadania europeia e a minha mulher é francesa, assim meus filhos também têm cidadania europeia. Sem dúvida para eles será uma experiência muito interessante. E eu vou poder realmente trabalhar mais e explorar mais as possibilidades que eu tenho lá no Velho Continente. É um lugar bastante central onde eu vou conseguir ter uma mobilidade muito maior.

Como como foi ser homenageado musicalmente por Gilberto Gil (o músico baiano compôs a faixa Yamandú em Ok, Ok, Ok, seu disco mais recente)?
É um prêmio à minha carreira. É uma constatação de que o caminho que eu escolhi foi um caminho digno, que tem verdade nas coisas que eu sempre acreditei. Então quando vem assim uma homenagem como essa vindo do Gil a única coisa que posso fazer é agradecer e prometer que farei uma música a ele.

Yamandú por seus parceiros

Paulo César Pinheiro

Yamandú e Paulo César Pinheiro se conheceram desde que o músico gaúcho se mudou para o Rio de Janeiro, no começo do século. A aproximação foi natural para dois artistas que sempre veneraram a tradição do choro. “Eu ajudei o Yamandú a se enturmar em muitas rodas. Paralelamente a isso, ele sempre frequentou muito a nossa casa, ficando íntimo de mim e da Luciana. Assim, as parcerias musicais foram surgindo naturalmente”.

Paulo César vê no novo parceiro muitos pontos em comum com outros dois violonistas com quem também trabalhou: Baden Powell e Raphael Rabello. Os três integram uma linha evolutiva do violão brasileiro, que, segundo Paulo César, começa com Jaime Florence, o Meira. “Baden e Raphael foram alunos do Meira. Yamandú embora não tenha sido pode também ser considerado um discípulo”. Para Paulo César esta é a escola dos chorões, onde todos influenciam todos e que são responsáveis por algumas das mais belas composições do mundo.

Paulo César destaca ainda que que a obra de Yamandú é o resultado de duas estradas que ele soube trilhar muito bem: a da música nativista, de suas raízes, e a do choro, que é a música do Brasil. Com Yamandú primeiro surgiu o instrumentista, depois o compositor e agora o intérprete. “Para mim não foi surpresa”, explica Paulo César. “Yamandú mais cedo ou mais tarde iria começar a cantar, até porque só ele conseguiria dar a intepretação necessária às suas composições”. Paulo César elogia a voz do violonista – “forte e afinada” – e a qualidade das composições. “Vento Sul é um disco completo”.

A parceria dos dois músicos pode ter demorado a acontecer, diante de uma amizade de quase duas décadas? Não, diz Paulo César. Houve um período natural para que tudo pudesse surgir. E quando começou não parou mais. “Além das músicas dos discos, há uma dezena que foi temporariamente deixada de lado. E também já tenho guardado umas sete ou oito gravações para que eu venha a colocar letra. Temos material para mais uns três discos”.

Vinícius Brum

“Creio que além do seu virtuosismo e da sua genialidade, o que o destaca é o fato de que preserva a singularidade regional de sua origem, sem que para isso precise levantar bandeiras ou fechar portas. Ao contrário, é através dessa singularidade que ele abre todas as portas e janelas, e faz com que a luz infinita de sua música ilumine as salas de concerto e a alma do público que o aplaude sempre, e cada vez mais, efusivamente”, destaca o parceiro Vinícius Brum, amigo que se aproximou de Yamandú através dos pais do compositor. “Conheço o Yamandú desde quando ele era criança, nos anos 80 e 90. Participei de vários festivais em que pude conviver com os pais dele, o Algacir e a Clary, que eram integrantes do grupo Os Fronteiriços, de destacada participação naqueles eventos. Depois, quando ele já tocava, por volta dos seus treze ou quatorze anos, dividimos o palco por inúmeras vezes até que ele foi morar no centro do país. Quando venci a 27ª. Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, em parceria com o Luiz Carlos Borges e o Mauro Ferreira, ele estava no palco conosco”.

Histórias do Violão

Vinicius Brum explica sua parceria com Yamandú Costa: “O Yamandú mostrou-me uma ideia melódica que tinha a intenção de colocar o violão dando um testemunho do que havia visto em sua trajetória na vida dos homens. Os primeiros versos já estavam esboçados: ‘o violão pediu que eu falasse por ele…’. A partir disso desenvolvi a letra da canção”. Ficou assim:

O violão pediu
Que eu falasse por ele
Contasse as histórias
Das noites passadas
Que a gente sonhava
Na mesa do bar
De lábios que se procuravam
E mãos de carinho pra dar
E mil arrepios pela pele
Nas almas de vinho
Querendo se amar…
O violão chorou
E eu chorando com ele
Segui recordando
Moinhos, quixotes
Histórias de fogo
E de escuridão
As cruzes nos campos abertos
E lenços cansados de adeus
Fraqueza, ganância, miséria,
As guerras dos homens
Em nome de Deus…
O violão pediu
Que eu cantasse com ele
Cantigas do tempo
Que é velho, que é novo
Que nunca se alcança
Está sempre a passar
Os filhos que foram embora
Os pais que ainda virão
Num mundo que morre e renasce
Que sonha na boca
Do meu violão

Discografia

Dois Tempos (com Lúcio Yanel) – 2000
Yamandu – 2001
Yamandu ao Vivo – 2003
El Negro Del Blanco (com Paulo Moura) – 2004
Brasileirinho – 2005
Tokyo Session – 2006
Ida e Volta – 2007
Lida – 2007
Yamandu + Dominguinhos – 2007
Mafuá – 2008
Luz da Aurora (com Hamilton de Holanda) – 2009
Lado B (com Dominguinhos) – 2010
Yamandu Costa e Rogério Caetano – 2012
Continente (com Guto Wirtti e Arthur Bonilla) – 2013
Bailongo (com Guto Wirtti) – 2014
Tocata à Amizade – 2014
Concerto de Fronteira (com a Orquestra do Estado de Mato Grosso) – 2015
Quebranto (com Alessandro Penezzi) – 2017
Recanto – 2017
Borghetti & Yamandu – 2017
Yamandu Costa e Ricardo Herz – 2018 

(Texto publicado originalmente no Jornal do Comércio, de Porto Alegre.)

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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