O meu Vinicius

Roberto Muggiati lembra seus dois encontros com o maior poeta brasileiro entre feijoadas e belas mulheres

Para ser lido ao som de Vinicius de Moraes e Baden Powell em Afro Sambas

Arte: Daniel Kondo

Conheci Vinicius, ou melhor, trombei com ele, na noite da estreia brasileira de Sarah Vaughan: 6 de agosto de 1959, uma segunda-feira. Foi na boate Fred’s, que ficava em cima de um posto de gasolina na Avenida Atlântica, esquina da Princesa Isabel. O tout Rio marcou presença, a mesa principal presidida pelo capitão da mídia mais poderoso da época, Samuel Wainer, com sua Danuza. Decorando a mesa, os “pombinhos” recém-casados João e Astrud Gilberto. Vinícius e um batalhão de jornalistas, do qual eu fazia parte, disputávamos a atenção da diva no seu camarim. Eu, repórter curitibano, com quase 22 anos; ele, colunista famoso, com quase 46 – ambos librianos de 6 e 19 de outubro. Claro, não fui páreo para o Poetinha, que já se projetava como o letrista maior da bossa nova. Aquela noite foi “o último baile da Ilha Fiscal” do Rio de Janeiro como Capital da República. Em menos de um ano, a cidade passaria à condição de capital de um factoide, o Estado da Guanabara.

Meu segundo encontro com Vinícius foi bem mais prolongado e próximo. No dia 1º de julho de 1964, quarta-feira, um trio de amigos deixou Londres com a missão precípua de visitor o Poetinha em Paris: Fernando Sabino, adido cultural do Brasil em Londres; o jornalista Narceu de Almeida, ao volante do seu Morris Mini-Minor; e eu, radialista da BBC. Narceu e eu éramos meros coadjuvantes: o grande amigo de Vinicius era Sabino. Num dia esplendoroso de verão, deixamos para trás a verdejante paisagem inglesa, atravessamos de ferry o Canal da Mancha e, por entre infindáveis campos de girassóis, chegamos a Paris. Não lembro como – sem celular – descobrimos o local exato onde encontrar o poetinha. Embora já passasse das nove da noite, raios dourados de sol ainda banhavam a copa dos castanheiros. E lá estava outro trio, no La Feijoada, em seu primeiro endereço parisiense, num cais da Île de Saint Louis. Um trio bem mais carismático: Odete Lara, Baden Powell e Vinícius.

Começou aí uma sucessão de quatro noites de loucas conversas regadas a uísque. Em outra ocasião, fomos beber num bar do qual Vinicius era praticamente sócio, Le Calvados. Mas a grande noite foi mesmo na sexta-feira, no apartamento do Poetinha. Um apartamento térreo num daqueles prédios típicos do seizième, nas cercanias do Champs-Elysées, quase sem decoração, embora Vinicius representasse o consulado do Brasil em Paris. Uma vez iniciados os trabalhos etílicos, sua mulher, Nelita – trinta anos mais moça – se recolheu para dormir. Ao longo da noite, toda vez que um marmanjo precisava ir ao banheiro, ele se via obrigado a passar literalmente por cima de Nelita, apagada na cama de casal que tomava todo o quarto. Falou-se muito – principalmente Vinicius e Sabino – passaram mais de duas horas discutindo Jayme Ovalle. Bebeu-se muito, também, confesso que quase nada lembro. Uma só imagem gravei fotograficamente: lá pelas cinco da manhã, com o sol querendo já se mostrar, pela janela do rez-de-chaussée aberta para a rua, entram duas fadas, Odete Lara e Mylène Demongeot. (Vinícius sempre se cercou de belas mulheres.) Mylène esbanja meia hora de charme e sex-appeal antes de se despedir: “Bem, preciso ir embora. Na França, se a gente chega em casa depois das seis da manhã, quer dizer que dormiu fora…” Lembro do ar extasiado com que o Poetinha sorveu a bela sonoridade da frase enunciada pelos lábios carnudos de Mylène: “Ben, je dois partir. En France, si on arrive chez soi après six heures, ça veut dire qu’on a découché”.

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