Fôlego de sobra

Juarez Fonseca mostra que Raul de Souza esbanja categoria e, próximo dos 85 anos, se mantém um mestre do trombone

Para ser lido ao som de Raul de Souza em Blue Voyage

Foto: Emmanuelle Demoz/Divulgação

No próximo 23 de agosto, Raul de Souza completará 85 anos. Toca trombone desde os 16 e, considerando o fôlego que tem de sobra – como mostra em seu novo álbum, Blue Voyage –, ainda nos dará música nova por um bom tempo. Certamente o maior trombonista brasileiro, para muitos o melhor do mundo, Raul vive na França desde 1999, agregando uma experiência internacional bem diversa da que teve na década de 70, quando viveu e atuou intensamente nos Estados Unidos, tocando com Sérgio Mendes, Airto Moreira e Sonny Rollins, lançando discos por selos de prestígio como Milestone e Capitol, entre eles os hoje clássicos Colors,Sweet Lucy e ‘Til Tomorrow Comes.

É inevitável que sua música reflita a experiência compartilhada com diferentes compositores e instrumentistas ao longo do tempo, mas ele nunca se distanciou da essência brasileira – mais, sua alma carioca. Na maioria das capas dos álbuns (acho que são uns 14 ou 15) Raul aparece sempre sorrindo. O estado de espírito aberto, divertido, é uma de suas marcas levada à criação. Desconheço a vida pessoal dele, se tem netos, por exemplo; se tiver, deve se divertir muito com eles e eles com ele. O que não quer dizer que a música não seja muito elaborada.

Gravado no estúdio Maison des Artistes, da cidade turística de Chamonix, nos Alpes franceses, Blue Voyage é feito com Glauco Sölter (baixo, direção artística), Mauro Martins (bateria), Leo Montana e Alex Corrêa (piano), todos brasileiros atuando na França – curiosidade: Glauco, Mauro e Alex são de Curitiba, cidade em que Raul prestou serviço militar entre 1958-1963, e integrou a banda da Aeronáutica.

Na maioria das oito faixas do disco, todas assinadas por ele, o trombone, caloroso e colorido, é assediado de forma incisiva, quase crispada, pelo brilhante piano de Montana. No geral é samba-jazz, ou jazz-samba, como em Primavera em Paris e Night in Bangalore, mas Bolero à Chamonix é o que o título antecipa, e a especialmente bela St. Martin deleita-se na calma da valsa. No puro jazz To My Brother Sonny, introduzida pelo baixo, Raul usa o saxofone para fazer sua homenagem ao mestre Sonny Rollins.

O jornalista Roberto Muggiati, que acompanho desde que escrevia para a revista Manchete, escreve o texto de apresentação do disco no encarte bilíngue de 22 páginas. Conta que conheceu Raul há 60 anos na noite curitibana, quando trabalhava na Gazeta do Povo e o músico, nas horas de folga do quartel, tocava “um velho trombone de pisto” nas boates da cidade. “O instrumento não era obstáculo, soava como um Besson de luxo, num jazz de primeira, embora o jovem Raul estivesse a milhares de quilômetros de distância do eixo principal da música improvisada.

Blue Voyage (Selo Sesc) é o primeiro disco de Raul lançado no Brasil desde O Universo Musical de Raul de Souza, de 2012. No Exterior outros foram lançados, entre eles Jobim Tribute, em 2018.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.