Apenas um sopro

Sérgio Roveri* estreia na AmaJazz escrevendo sobre a peça que escreveu baseada na vida do trompetista Chet Baker

Para ser lido ao som de Chet Baker em Someone to Watch Over Me

Paulo Miklos encarna Chet Baker na peça "Chet Baker – Apenas um Sopro"
(Foto: Victor Iemini/Divulgação)
Paulo Miklos encarna Chet Baker na peça “Chet Baker – Apenas um Sopro” (Foto: Victor Iemini/Divulgação)

A voz de Chet Baker me fisgou muito antes do que o lamento do seu trompete. Se alguém tivesse me pedido para criar, ainda na adolescência, uma playlist para ser levada a uma ilha deserta (embora eu não saiba como uma playlist poderia ser de alguma serventia numa ilha deserta), seguramente dois clássicos da canção americana fariam parte desta hipotética seleção: My Funny Valentine e I’m a Fool to Want You. As duas na gravação suntuosa de Frank Sinatra, que era o que eu conhecia naquele momento da vida em que os arranjos rococós e os backing vocals desnecessários não me incomodavam tanto.

Até que um dia ouvi My Funny Valentine numa voz tão pequena e dolorida que mais parecia um filhote de gato, afinado e desprotegido, a implorar por carinho na sacada do apartamento. Aquela sutileza, aquela economia de recursos e aquela precisão hipnótica me mostraram, na mesma hora, que o dono daquela voz devia ser um Davi diante do Golias que morava na garganta de Frank Sinatra. Descobri naquele dia que aquele Davi se chamava Chet Baker e que, como na passagem bíblica, os gigantes deveriam tomar muito cuidado com ele.

Comprei o primeiro CD de Chet Baker que encontrei na loja – na verdade, o único que havia no estoque. O álbum era uma dessas coleções de hits que trazia, além de My Funny Valentine, outra gravação que me levou a nocaute: Someone to Watch Over Me, que eu tinha aprendido a ouvir com devoção quase religiosa na voz de uma Golias de saia, Ella Fitzgerald. Foi assim que Chet Baker, o cantor, foi, de sussurro em sussurro, chegando ao topo da minha parada de sucessos particular, de onde nunca mais seria desalojado. Como não sou dono de grandes conhecimentos musicais, só mais tarde descobri que seu trompete era tão, ou talvez mais histórico do que sua própria voz. Na verdade, hoje eu acredito que o trompete tenha sido a extensão da voz de Chet Baker, o jeito que ele encontrou de cantar sem precisar recorrer às palavras.

Eu me lembro de estar começando minha carreira de jornalista no Jornal da Tarde, em São Paulo, em 1988, quando Chet Baker morreu ao cair da janela do segundo andar de um hotel em Amsterdã, num episódio que até hoje carece de explicações. Ele tinha 58 anos, embora demonstrasse ter, no mínimo, 90. Uma vida cultivada à base de excessos de todos os tipos, entre eles o consumo amazônico de heroína, havia transformado aquele músico nascido no estado de Oklahoma, cuja beleza na juventude lhe valeu o apelido de Anjo e incontáveis comparações com James Dean, num figurante de segunda classe de The Walking Dead. Até hoje, se colocadas lado a lado uma fotografia de Chet Baker aos 20 anos e outra aos 50, parece difícil acreditar que as duas imagens pertençam à mesma pessoa. Na rebarba da heroína, Chet Baker consumiu também a beleza, o talento, o dinheiro, o amor das mulheres, a paciência dos amigos, o afeto dos quatro filhos e, talvez em menor escala, até o reconhecimento do público – sua morte mereceu um espaço irrisório no necrológico do jornal The New York Times, que o chamou de artista decadente. Hoje, no entanto, Chet Baker parece ter se vingado de tudo isso – com exceção de Billie Holiday, parece não existir artista tão cool.

Em 2015, quando o produtor Fábio Santana me convidou para escrever um espetáculo inspirado na vida de Chet Baker, eu tinha três biografias do músico na minha estante – sem nunca ter lido nenhuma. Havia, enfim, chegado o momento de, por exigência profissional, realizar um mergulho na vida do músico em que o olhar de pesquisador teria de ser mais acurado, e por vezes mais cruel, que o olhar do fã. Tive pouco mais de dois meses para escrever o espetáculo Chet Baker – Apenas um Sopro, que estreou em janeiro de 2016 no Centro Cultural do Banco do Brasil e marcou a primeira incursão do músico e ator Paulo Miklos pelo teatro.

Obviamente, sou suspeitíssimo para falar, mas acredito que o que Miklos faz em cena flerte com a incorporação: sua performance, já no final do espetáculo, de My Funny Valentine é algo que deixa o público arrebatado muito tempo depois que as luzes já se acenderam. No espetáculo, Miklos está, literalmente, no meio de feras – mas todas feras do bem. Os atores e músicos Anna Toledo (vocais), Jonathas Joba (baixo), Piero Damiani (piano) e Ladislau Kardos (bateria) reconstroem em cena, com um brilhantismo contagiante, o clima de um estúdio onde Chet Baker é esperado para gravar o primeiro álbum depois de uma briga de rua na qual perdeu vários dentes. A direção do espetáculo, ou talvez seja melhor dizer a regência, é de José Roberto Jardim – que antes de se tornar ator e diretor também fez das suas com uma guitarra em punho.

Chet Baker – Apenas um Sopro, que fará apresentações no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, nos dias 3 e 4 de agosto, não tem a pretensão de ser uma peça biográfica – embora algumas passagens reais da vida do música estejam em cena. A peça, mais do que tudo, quer privilegiar um recorte na vida deste artista maldito e genial, um momento delicado em sua carreira em que a decisão de sair ou não do buraco cabe somente a ele, embora haja alguns bons e velhos amigos por perto. É principalmente um olhar sobre as inseguranças e os medos de um artista, ou melhor dizendo, os medos e as inseguranças de um ser humano. Por acaso, é Chet Baker. Mas poderia ser eu, você e todos nós – ainda que nunca tenhamos sequer visto um trompete de perto.

* Ex-repórter e editor do Jornal da Tarde e dramaturgo, autor de Vozes UrbanasHorário de Visita e O Encontro das Águas

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