Joãozinho

Bethania Flach estreia na AmaJazz recordando o amigo de sua bisavó que fazia parte de suas memórias natalinas

Para ser lido ao som de João Gilberto em João Gilberto Prado Pereira de Oliveira

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Era o título de um LP lançado em 1980 e que eu, aos nove, dez anos de idade, ouvia sem parar. Era também o nome de um sujeito amigo da família, cuja voz suave, pausada, cheia de afeto, falava com a gente toda véspera de Natal. Joãozinho, como era chamado em casa, ligava toda noite de Natal. O pessoal em casa sabia que, quando o João telefonava, era coisa de uma, duas horas de ligação.  Então, todos falavam com o João. Devagar, do jeito baiano. E a conversa sempre começava assim: “Alô, Bethania (pausa). Minha florzinha, como vai você?”. Com um longo intervalo de vários segundos, que pareciam horas naquela ligação sem fim. Os longos silêncios eram quase traumáticos para uma criança, mas os adultos explicavam que aquela ligação era um grande privilégio, cuja importância eu só entenderia mais tarde. Os adultos, invariavelmente, têm razão.

Foto: Tuca Vieira/CC BY-SA 2.0/WikiCommons
Foto: Tuca Vieira/CC BY-SA 2.0/WikiCommons

Havia também as idas ao Rio de Janeiro, nas férias de julho. Já reservado, quase recluso, uma vez saímos com o João, dirigindo o seu carro (acho que era um Monza), pelas ruas do Rio. Uma verdadeira aventura! Não havia sinal fechado ou carro cruzando sua frente que o fizesse mudar a marcha. Não lembro onde fomos, nem o que aconteceu depois. Provavelmente, juntei duas cadeiras no restaurante e dormi, como de costume. Mas lembro da emoção do percurso. São lembranças distantes e possivelmente permeadas de fantasia, próprias do imaginário infantil. Mas essas memórias, aliadas ao enorme carinho que minha bisavó, Boneca Regina, nutria pelo Joãozinho, o tornaram personagem da nossa infância.

Essa ligação nasceu quando ele passou uma temporada em Porto Alegre, em 1955, ocasião em que conheceu meu tio-avô, Alberto Fernandes, na boemia porto-alegrense. Na época, conta a minha mãe, Malu Pederneiras, ele passava horas tocando na cozinha da casa da minha avó, porque tinha uma boa acústica. Para nós, antes de ser o pai da Bossa Nova, ele era o Joãozinho. Um cara diferente, de fala pausada e que ficava horas, horas e horas tocando, incessantemente, o mesmo acorde, em busca da harmonia perfeita. E, por conta disso, se ouvia João Gilberto, sem parar, com reverência e adoração, diante da permanente afirmação dos adultos de que se tratava de um gênio absoluto. Os adultos invariavelmente têm razão.   

Anúncios

Nenhum pensamento

  1. Lindas recordações prima! A mãe também conviveu com o João no Rio, apresentada pela tia Boneca. Ele adorava a mãe. Ela contava que iam alguns poucos amigos que ele chamava em casa, mas só podiam sair, quando ele parasse de tocar. Às vezes de manhã!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.