Confluência com fluência

Durante o dia 16 de março de 1968, Gato Barbieri e o pianista sul-africano Dollar Brand produziram um disco tão inovador quanto pouco conhecido

Para ser lido ao som de Gato Barbieri e Dollar Brand em Confluence

Antes do sucesso planetário com a trilha de O Último Tango em Paris, no começo dos anos 70, Gato Barbieri era basicamente conhecido pelos círculos jazzísticos mais de vanguarda. Em 1968 – numa Europa conturbada – Gato vivia havia seis anos na Itália. Estava com 35 anos, já tocara com seu conterrâneo Lalo Schifrin e com o trompetista de free jazz Don Cherry. Sentia-se, então, preparado para uma das mais originais experiência musicais em sua vida.

Durante o dia 16 de março de 1968, Gato e o pianista sul-africano Dollar Brand dividiram o estúdio Fonorama, em Milão, e produziram um disco tão inovador quanto pouco conhecido. Confluence reúne apenas os dois. Gato com seu sax-tenor, de timbre forte e rascante, e Dollar Brand na maior parte do tempo ao piano e com algumas intervenções ao violoncelo.

O formato é livre. Áspero e anguloso, Confluence não é um disco fácil de se ouvir. São pouco mais de 30 minutos divididos em quatro faixas – as do lado A (The Aloe and the Wildrose e Hamba Khale!) compostas por Dollar Brand e as duas do lado B (To Elsa e Eighty First Street) compostas por Gato. Confluence é ainda cheio de pequenas surpresas, quebras, que alteram o clima da gravação e deixam transparecer um certo lirismo. Porém, na maior parte dos seus 32 minutos é um disco tenso e arrastado.

Dois anos mais novo do que Gato (o argentino é de 1932, o sul-africano, de 1934), Dollar Brand chegou à Europa na mesma época. Lá formou o Dollar Brand Trio, ouvido por Duke Ellington, que foi decisivo no crescimento artístico do pianista. Estimulado por Ellington, Dollar Brand passou um período nos Estados Unidos, onde trabalhou na orquestra do maestro e recebeu uma bolsa da Fundação Rockefeller que permitiu que estudasse na Juilliard School of Music. De volta a Europa e estabelecido na Itália, Dollar Brand também sentia-se preparado para experiências de vanguarda, mais afinadas com o estilo daquele período.

O disco seria decisivo na carreira dos dois músicos. Com Gato, por despertar o interesse pelos temas do Terceiro Mundo, da aproximação entre América e África, tão fundamental em seus trabalhos seguintes. Em Dollar Brand no gosto por pequenas formações. Repetiria o formato em duo com o saxofonista Archie Shepp dez anos depois e teria no saxofonista Carlos Ward um de seus mais constantes interlocutores musicais. 1968 também seria decisivo para Dollar Brand por outro aspecto: seria o ano em que ele trocaria seu nome de batismo por uma nova identidade, adotando o nome muçulmano de Abdullah Ibrahim.

Confluence foi originalmente lançado na Europa pelo selo Freedom e, seis anos mais tarde, nos Estados Unidos com pelo menos duas capas diferentes e um novo título: Hamba Khale!. Uma nova versão seria editada em 1976, na Itália, dentro da coleção I Grandi del Jazz (que no Brasil seria lançada com menos fascículos sob o nome de Gigantes do Jazz).

Mais de cinco décadas depois de seu lançamento, Confluence continua sendo um dos grandes enigmas do jazz contemporâneo. Criativo, pensativo e espontâneo. E que embora não seja de fácil assimilação merece muito ser descoberto.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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