Efeito Ellington

Roberto Muggiati lembra que não é exagero considerar Duke Ellington um equivalente jazzístico de Bach, Mozart e Beethoven. Ele é o grande criador da sinfonia afro-americana

Para ser lido ao som de Duke Ellington em The Afro-Eurasian Eclipse

Foto: Gordon Parks/Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Gordon Parks/Domínio público/Wikimedia Commons

Dois músicos definiram bem a essência da arte de Edward Kennedy Duke Ellington (1899-1974). André Previn, o versátil pianista que conseguiu conciliar o jazz e o erudito, afirmou: “Stan Kenton pode parar diante de mil violinos e de mil metais e fazer um gesto dramático, e qualquer arranjador saberá transcrever imediatamente sua música. Mas Duke simplesmente ergue um dedinho e três saxofones fazem um som que ninguém conseguirá decifrar ou imitar nunca”. E Billy Strayhorn, parceiro de Ellington de 1938 até morrer, em 1967: “Ellington toca piano, mas seu verdadeiro instrumento é sua orquestra. Cada membro de sua banda é para ele uma cor tonal e um bloco de emoções que ele mistura com outros igualmente distintos para produzir uma terceira coisa, que eu gosto de chamar Efeito Ellington. Às vezes, essa mistura ocorre no papel e, frequentemente, no próprio palco, durante uma apresentação. Já o vi muitas vezes trocar partituras no meio de uma peça porque o homem e a partitura não combinavam. A principal preocupação de Ellington é com o músico individual e com o que acontece quando vários indivíduos juntam suas personalidades musicais”.

Duke Ellington é um personagem atípico na história do jazz. Não nasceu em Nova Orleans, nem na pobreza, mas em Washington, D.C., numa família em boa situação econômica, apesar de sua origem negra. Seu avô e seu pai eram prestigiados mordomos que trabalhavam na Casa Branca e em festas nas Embaixadas da capital dos Estados Unidos.

Mas a música estava por perto, no piano da mãe, embora o menino não desse muita atenção às primeiras aulas, aos 7 anos. Adolescente, Ellington preferia as artes aplicadas e pretendia seguir a carreira de arquiteto. Alguns críticos atribuem a esse interesse pelas artes o colorido tonal de suas composições, muitas intituladas com nomes de cores – AzureMagenta Haze,Sepia PanoramaCrescendo in Blue. Mesmo por caminhos tortuosos, Ellington acabou encontrando a verdadeira vocação: aos 20 anos, em 1919, já ganhava mais de 150 dólares por semana tocando em bailes e festas com uma pequena banda.

Ele conta como tudo começou, quando tinha 17 anos: “Eu teria a oportunidade de tocar numa festa contanto que aprendesse Siren Song. Passei o dia todo decorando a música. Quando subi ao palco, vi que era uma orquestra profissional, começaram a me falar de acordes, pensei: ‘Em poucos minutos vou me ferrar!’ Então, alguém pediu Siren Song, e comecei a dedilhar a canção. Eu tinha visto muitas vezes um cara de Nova York tocar em Washington fazendo figuração, uma espécie de truque de arremessar as mãos para longe do teclado ao tocar. Fiz a mesma coisa e de repente a garotada da plateia estava de pé, aos urros, aplaudindo e pedindo mais”.

Duke atribuiu seu sucesso como band-leader a um aguçado sentido de marketing: comprou o maior espaço na seção de anúncios na lista telefônica de Washington, na rubrica “Orquestras”. Daí foi um pulo para o reconhecimento, não só como músico, mas como uma autêntica celebridade do século 20. A essa altura ele já ostentava o apelido, por motivos óbvios: vestia-se e agia com rara elegância, falava bem e tinha adquirido o estilo sofisticado que o acompanharia para o resto da vida. Tudo isso, em parte, por influência do pai, que, mesmo como serviçal, circulava pelas altas rodas da capital do país.

A carreira de Ellington foi uma sequência de sucessos, com raros fracassos, prontamente superados. Nem sempre foi fácil atender ao lado administrativo da profissão (salários, impostos, contratos, royalties etc.) e, ao mesmo tempo, criar uma música de primeira qualidade. Mas Duke conseguiu o milagre. O simples fato de ter mantido uma grande orquestra por seis décadas (dos anos 20 aos anos 70) foi uma proeza. Sua primeira visita a Nova York, no início de 1923, não deu em nada, mas, seguindo o conselho do pianista Fats Waller, mudou-se para Nova York no final do ano, com a banda do banjoísta Elmer Snowden, The Washingtonians. Entre 1923 e 1927, o quinteto aumentou para uma banda de dez músicos e depois 12. Nessa época os jovens brancos ricos – os “belos e malditos” na definição do romancista Scott Fitzgerald – haviam descoberto os encantos obscuros do Harlem. Ainda vigorava a Lei Seca (1919-1933) e nunca se bebeu tanto, nos speakeasies, bares que serviam a bebida clandestina, geralmente em xícaras de chá – só para salvar as aparências, pois a polícia sabia de tudo, mas era conivente e corrupta.

A estreia de Duke no Cotton Club, em 1927, foi uma data histórica. A grande noite costumava ser a de domingo, e todas as estrelas do mundo, de passagem por Nova York, além das celebridades locais, compareciam. Foi no Cotton Clube que Ellington criou o revolucionário jungle sound, o “som da selva”, puxado pelo trompete wah-wah de Bubber Miley e pelo trombone de Joe “Tricky Sam” Nanton, mestres na arte de entortar as notas com a utilização de surdinas que incluíam, no caso do trombone, o uso criativo de chapéus e desentupidores de pia. O jungle sound de Ellington foi para a música o equivalente da arte africana absorvida na pintura de Picasso.

Já em 1931, Ellington dividia com Louis Armstrong a liderança no mundo do jazz. Ele foi um hábil criador de impressões sonoras. Os franceses tiveram a grandiosidade do mar traduzida em música por Claude Debussy. Ellington concentrou-se no microcosmo de um poço de ventilação de um edifício de apartamentos do Harlem. Ele assim descreveu sua composição Harlem Air Shaft, de 1940: “Acontece muita coisa num poço de ventilação do Harlem. É onde se tem a plena essência do lugar. Acompanha brigas, sente o cheiro do jantar, ouve pessoas fazendo amor. Escuta mexericos íntimos descendo pelo poço. Ouve o rádio. Um poço de ventilação é um grande alto-falante. Vê a roupa lavada do vizinho, ouve os cachorros do porteiro. A antena do vizinho de cima cai e quebra sua janela. Você sente o cheiro de café. Uma coisa maravilhosa, aquele cheiro. Um poço de ventilação tem todos os contrastes da vida. Um sujeito está cozinhando peixe seco e arroz, outro fazendo um magnífico peru. A mulher-do-cara-do-peixe é uma excelente cozinheira, mas a mulher-do-cara-do-peru está estragando a ave. Você ouve pessoas rezando, discutindo, roncando. As pessoas que adoram música barulhenta estão pulando sempre acima de sua cabeça, nunca embaixo. Tentei colocar tudo isso emHarlem Air Shaft.

Personagem polêmico, sempre em evidência, sempre trabalhando, Duke não foi poupado de críticas ao longo da carreira. As principais são facilmente rebatidas. Reclamam que compôs demais, em detrimento da improvisação, que seria a característica vital do jazz. Acontece que a verdadeira essência do jazz é bem mais complexa: ele não é feito só de solos improvisados, mas de uma amálgama de timbres, ritmos, harmonias, configurações tonais. Já nos anos 1920, Jelly Roll Morton e Fletcher Henderson começavam a se distanciar da improvisação polifônica de Nova Orleans e a aperfeiçoar um jazz mais orquestrado. E Ellington sempre cedeu amplos espaços para os solos improvisados no interior de suas longas peças. Seria tedioso citar todos os seus grandes solistas, mas é bom lembrar as clarinetas de Barney Bigard (espécie de ponte entre Nova Orleans e o novo som) e Jimmy Hamilton, o sax-alto de Johnny Hodges, o tenor de Ben Webster e de seu talentoso sucessor, Paul Gonsalves, o barítono de Harry Carney, a âncora do naipe de saxofones (tocava também a clarineta baixo), os trompetes de Rex Stewart, Cootie Williams, Clark Terry e Ray Nance (tocava também violino e cantava), os trombones de Lawrence Brown, JuanTizol (autor de Caravan), Britt Woodman e Quentin Jackson, o contrabaixo de Jimmy Blanton (que criou uma nova linguagem para o instrumento), as baterias de Sonny Greer e Sam Woodyard. E, é claro, o piano brilhante do próprio Duke.

Houve quem acusasse Duke de ser um “negro de alma branca”. Nada mais injusto. Nascido na virada do século, teve de se adaptar a uma sociedade hostil, dançar de acordo com a música. Nenhum músico traduziu melhor o sentimento da “negritude” do que Ellington, que fez de sua orquestra uma espécie de versão afro-americana da orquestra sinfônica, um modelo tão consumado como as melhores sinfônicas do idioma erudito. Ao tocar para presidentes na Casa Branca, não estava mais entrando pela porta dos fundos com o seu pai e avô serviçais, mas pela porta da frente, como um artista consagrado, para apresentar uma música que só ele era capaz de fazer.

Seguem-se outras acusações, de caráter mais íntimo: machista e mau patrão. Duke casou-se aos 19 anos com a vizinha e colega de escola Edna, que lhe deu um único filho, em 1919, Mercer, também músico (trompetista e compositor, que levaria a orquestra adiante até morrer, em 1996). Ellington era um homem atraente e vivia cercado de mulheres. A vida nômade do músico de jazz, sempre na estrada, não só facilitava como induzia ao que se chamava então de “pular a cerca”. Mas os relacionamentos extraconjugais de Ellington foram sempre muito discretos. Edna não devia saber das escapadas do marido, mas certa vez lhe cortou o rosto com uma tesoura ou navalha. Duke levou a cicatriz – e  detalhes do episódio – para o túmulo.

A acusação de mau patrão é a pior de todas e a menos sólida. Como explicar que um mau patrão conservasse por tanto tempo “funcionários” como os saxofonistas Johnny Hodges (42 anos na banda) e Harry Carney (47 anos). com Carney, Duke teve uma relação especial. Enquanto a orquestra viajava em ônibus durante as longas turnês, os dois iam de carro, o saxofonista ao volante com o ilustre passageiro chefe da orquestra ao seu lado. Geoff Dyer especula, em But Beautiful/A Book About Jazz: “Quantas milhas tinham viajado juntos assim? Harry se perguntava. Um milhão? Some tudo isso a trens e aviões e provavelmente teria uma distância três ou quatro vezes a circunferência da Terra. Provavelmente, não havia duas pessoas no mundo que tivessem passado tanto tempo juntos, ou viajado tão longe, milhões de milhas, talvez”.

Outros recordistas de tempo de serviço com Duke foram o baterista Sonny Greer (32 anos), os trombonistas Juan Tizol (32 anos), Lawrence Brown (28 anos), Tricky Sam Nanton (22 anos), o pianista e arranjador Billy Strayhorn (28 anos), o clarinetista Jimmy Hamilton (26 anos), os trompetistas Cat Anderson (27 anos) e Ray Nance (23 anos). O trompetista Cootie Williams trabalhou intermitentemente com a orquestra de 1929 a 1970 (41 anos) e recebeu todo o apoio de Ellington quando formou sua própria orquestra. O mesmo com o saxofonista Johnny Hodges, quando fundou (e afundou) sua própria banda. Todos tinham um lugar cativo na orquestra e no coração de Duke.

Orgulhoso dos seus grandes solistas, ele promoveu, entre os anos 1940 e 1941, uma série de gravações com um noneto do clarinetista Barney Bigard, um octeto do saxofonista Johnny Hodges e um septeto do cornetista Rex Stewart, participando como pianista em todas as gravações. O sax-tenor Paul Gonsalves não só tocou 24 anos com Ellington, mas compartilhou com ele – e com o ex-trombonista de Duke, Tyree Glenn – alguns dias de comunhão post-mortem. Gonsalves, morto em Londres em 15 de maio de 1974, foi removido para a mesma agência funerária de Nova York para onde levaram Glenn, morto em 18 de maio, e Ellington, morto em 24 de maio. Um trio surreal, cada um no seu esquife, na mesma sala, aguardando o momento do enterro. (Harry Carney, que tocou 47 anos com Duke, perdeu o encontro: morreu cinco meses depois.) Um piadista de plantão inventou que na calada da noite a trinca cantarolou a canção mais famosa de Glenn: Sultry Serenade, também conhecida como How Could You do a Thing LikeThat to Me (Como você pôde fazer uma coisa destas comigo?).

A obra de Duke Ellington é única. Além de compor temas de jazz, suítes, óperas e oratórios, foi um mestre na arte da canção, digno de figurar ao lado dos grandes songwriters americanos como Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin, Rodgers & Hart e muitos outros. Basta lembrar algumas de suas baladas como Sophisticated Lady,SolitudePrelude to a Kissl Let a Song Go Out of My HeartIn a sentimental Mood e suas líricas colaborações com Billy Strayhorn: Lush LifeDay Dream e Passion Flower. A essa altura, avaliando o século 20 com um bom distanciamento, pode-se afirmar que Ellington foi um clássico americano, à altura de George Gershwin – ou até mesmo mais fecundo, com mais anos de vida e maior diversidade musical, sem mencionar que bebeu na fonte as raízes afroamericanas que também marcaram profundamente o judeu Gershwin. Não é exagero considerar Ellington um equivalente jazzístico de Bach, Mozart e Beethoven e o grande criador da sinfonia afro-americana.

O trombonista Delfeayo Marsalis – da nova geração nascida nos anos 1960 – paga o devido tributo: “Ouvindo Duke, vim a compreender o que se pode fazer prestando realmente atenção às qualidades humanas dos músicos e procurando liberar aquelas qualidades. É por isso que a música de Duke muitas vezes não chega a soar como apenas música; soa como personalidades assumindo vida em nossos ouvidos. Não estou tentando me comparar a Ellington, mas apenas dizendo que ele fez coisas que todos nós podemos utilizar de diferentes maneiras quando fazemos música.

E Wynton, o trompetista e irmão mais esperto de Delfeayo, arremata: “No mundo de Duke Ellington, as pessoas sorriem, dançam e fazem amor. Divertem-se porque a principal preocupação de sua música é com a elevação do espírito humano. É uma música que celebra a liberdade de expressão, a liberdade de escolha. É por isso que a amamos. Essa música nos faz amar o fato de sermos o que somos e nos deleitarmos com a majestade da vida”. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.