Conversas de contrabaixo

Bruce Henri lembra os três encontros (e desencontros) que teve com Ron Carter

Para ser lido ao som de Ron Carter em Where

Arte: Daniel Kondo
Arte: Daniel Kondo

Não se pode trazer jazz, nem muito menos contrabaixo, à mesa do boteco sem falar do Ron Carter, um dos mais renomados e conceituados mestres a dar evidência e traduzir o instrumento para o entendimento do público em geral. Ron imprimiu um estilo e sonoridade que são reconhecidos no primeiro compasso, algo que por si só já o estabelece como artista. Entenda que o contrabaixo é um instrumento muito difícil de dominar ao ponto de trazer para o plano sensorial consciente do ouvinte, sem perder suas funções essenciais como estabelecer o groove, explicar a harmonia, apoiar os solistas, dar confiança e ainda saber contar histórias interessantes tanto durante quanto antes e depois de rolar o som. Arriscando ser acusado de dourar a sardinha da nossa classe, eu diria que quem quiser apreciar uma melodia deve escutar o solista, mas quem quiser entender música, que escute o contrabaixo. Desculpem, lá vou eu com digressões…

Voltando ao Ron Carter: tive três diferentes momentos de convívio, rapidamente em 1988 pedi um autógrafo no LP de início de carreira Where. Papo vai, papo vem, ele me convidou a tomar café da manhã com ele 9h no Hotel Nacional e continuar a conversa. Isso foi lá pelas duas da madruga nos bastidores do Free Jazz e eu achei que seria mais correto aparecer lá pelas 9h30, 9h45 para não forçar a barra. Cheguei a tempo de esbarrar com ele já saindo do café e ouvir um sermão a respeito de pontualidade. Ele me esclareceu, e eu nunca mais esqueci, que um músico de jazz não pode se manter em forma, gravar nos discos de todos, lecionar na universidade e ainda ter uma vida, se não for absolutamente pontual.

Da segunda vez, em 1993, fui escolhido para substitui-lo nos ensaios para o Tributo ao Tom Jobim. Passei três dias nos estúdios da Polygram tocando com Herbie Hancock, Harvey Mason, Shirley Horn e Alex Acuña, teoricamente para escrever as partes para contrabaixo nos arranjos que porventura fossem elaborados. Não preciso dizer que Ron Carter não precisava de nada disso, mas ele gentilmente ficou na moita ao ver que eu estava curtindo e ainda por cima ganhando um bom troco. Um verdadeiro gentleman, um senhor, primor de elegância, atitude e porte. Ele tem um senso de humor fantástico e dedos enormes.

O terceiro encontro foi num jantar na casa do Pedro Paulo, então dono do Mistura Fina. Tudo muito informal, com muita caipirinha. Fiquei genuinamente surpreso dele lembrar de mim e do meu nome. A memória dele é melhor do que a minha….. Nesse dia conversamos a respeito trabalhos de contrabaixo solo e ele ficou de me enviar cópia de uma gravação chamada All Alone. Não é que ele lembrou e não passou muito tempo eu recebi um piratão pelo correio.

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