Good food, good music. Tonight…

Daisson Flach conta como uma caminhada acabou numa agradável surpresa jazzística

Para ler ao som de Ron Carter com The Shadow of your Smile

Foto: Laura Manchinu/CC BY 2.0/Wikimedia Commons
Foto: Laura Manchinu/CC BY 2.0/Wikimedia Commons

Em 1990, caminhava pelo Village, em Nova York, logo após o almoço, quando vi uma placa, posta na entrada de um bar e grill, de nome Knickerbocker, do qual nunca ouvira falar. Nela estava escrito: “Good food, good music. Tonight, Mr. Ron Carter”.

Congelei. Bom e conveniente demais para ser verdade. Nada havia visto no lendário Village Voice, tampouco no Time Out, que eram, naquele tempo pré-internet, a fonte quente de informação do que de rolava.

O lugar estava fechado, mas dava para ver um sonolento cidadão limpando o balcão e organizando coisas. Bati na porta envidraçada, o homem veio atender.

– Com licença, senhor, esse Ron Carter da placa  é AQUELE Ron Carter?
– Você conhece algum outro Ron Carter?
– Não, só AQULE mesmo.
– Então você tem sua resposta.

O cara estava sendo sarcástico, logo percebi, com o mau-humor de quem está polindo algumas dezenas de cálices em uma tarde tediosa,  Em nada me abalei. Apesar do sonolento sarcasmo, o cara estava me atendendo com o lugar fechado. Prossegui em minha investigação, esperando o momento em que viria alguma má notícia.
– É preciso reservar?
– Sim, essencial.
– Como devo fazer?
– Falando comigo.

(putz, tenho que ser cuidadoso, qualquer passo em falso…)

– E ainda há alguma mesa disponível?
– Como você pode ver, o lugar não está muito cheio…

(sorri, deixando claro que já identificara o sarcasmo do amigo – sim, porque ele, sarcástico ou não, era, naquele momento, meu melhor amigo)

– Então posso reservar agora?
– Seria mais fácil do que à noite, quando todas as mesas estarão ocupadas… (o sarcástico não dava colher)

– Quais estão livres?

Nesse momento, ele nem respondeu, apenas abriu os braços em direção àquela sala de ausentes. Eu, que  já tinha entrado no clima, comecei a andar entre as mesas, como se fosse tarefa difícil. Ele observava escorado na coluna, com o rosto vazio. Naturalmente, escolhi aquela que estava a menos de um metro do palco, quase dentro do peculiar trio, contrabaixo, piano e vibrafone.

Tudo acertado, eu ia saindo com a cara mais satisfeita do mundo quando, pela primeira vez sorrindo, agora mais divertido do que sarcástico, ele perguntou:

– Quer deixar o vinho escolhido?
– Não, obrigado, me garanta apenas taças bem polidas.

Ele, finalmente,  desprendeu a contida gargalhada. O resto nem preciso contar, pois, afinal de contas, o Ron Carter era, de fato, AQUELE Ron Carter.

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