Tocando certo em trompetes tortos

Roberto Muggiati conta como a campana apontada para o céu ficou consagrada como a marca de distinção do inigualável Dizzy Gillespie.

Para ser lido ao som de Dizzy Gillespie em Manteca

Arte: Alexandre Moschini, artista plástico e publicitário, estreando como colaborador da AmaJazz

A revolução musical do bebop (a partir dos anos 1940) teve  uma contrapartida visual. Os novos jazzistas adotavam atitudes rebeldes e roupas insólitas que refletiam o anticonformismo das suas ideias sonoras. Dizzy Gillespie e Thelonious Monk foram os mestres do novo estilo, usando boinas decoradas com broches em forma de claves de sol ou notas musicais, gravatas berrantes e óculos malucos-Thelonious tinha óculos com aros de bambu e por muito tempo cobriu a cabeça com um vistoso gorro de astracã. Usar óculos escuros à noite tornou-se um must entre os boppers. O escritor Norman Mailer dissecou o fenômeno num ensaio famoso, O Negro Branco (1958): “Em lugares como o Greenwich Village, um ménage-à-trois se completou: o boêmio e o delinquente juvenil se viram face a face com o negro, e o hipster se tornou um fato na vida americana.

O hipster era o cara avançado, por dentro das coisas, surgido nos anos do pós-guerra, da bomba-A e da Guerra Fria, um soul brother, irmão espiritual do jazzista negro e um precursor dos hippies dos anos 1960 (hippie vem de hipster).

Por mais que Dizzy Gillespie inventasse para chamar a atenção, sua marca registrada – o famoso trompete entortado – foi pura obra do acaso. Ele mesmo conta em sua autobiografia To Be or Not To Bop (1979) o curioso episódio. “A verdade é que a forma do meu trompete foi um acidente. Eu podia fingir que fui para o porão de minha casa e criei o artefato, mas não foi assim. Foi um acaso. Eu deixei o trompete no seu suporte e alguém o chutou acidentalmente e, em vez de simplesmente cair e se amassar, o trompete entortou”.

Era uma segunda-feira de janeiro de 1953, e embora fosse dia de folga, Dizzy havia armado uma festa para comemorar o aniversário da mulher dele. Quando viu o estado do instrumento, não esquentou a cabeça, para não estragar a noitada. Dizzy tocou o trompete entortado e gostou do som. Pediu à mulher, que era artista plástica, que desenhasse um modelo de trompete com a campana elevada num ângulo de 45° e o mandou à companhia Martin, fabricante de instrumentos de sopro, para que produzisse um igual. O pessoal da Martin achou aquilo uma loucura, mas fabricou o trompete “telescópico”, primeiro com uma peça destacável, depois com o corpo do instrumento inteiriço. Segundo Dizzy, foi um achado: com a campana para cima, ele podia ouvir as notas com maior antecedência; quando se abaixava para ler uma partitura, a campana apontava para cima, alcançando melhor o microfone e o público. E os agudos mortíferos de Dizzy, capazes de estourar os tímpanos da plateia, eram amenizados com o som projetado para o alto. Até sua morte, em 1993, Dizzy manteve-se fiel ao instrumento entortado – usado também por músicos do naipe de trompetes da sua grande orquestra –, a campana apontada para o céu que ficou consagrada como a marca de distinção do inigualável John Birks “Dizzy” Gillespie.

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