Naná em todos os sentidos

Em duas conversas com o músico, uma aula sobre como o som está em todos os lugares e pode ser visto, ouvido e percebido

Para ser lido ao som de Naná Vasconcelos e Yamandú Costa

Naná Vasconcelos em arte de Daniel Kondo
Arte: Daniel Kondo

“Quero morrer jovem, mas o mais tarde possível. Tenho muita história para contar”, me disse Naná Vasconcelos na segunda e última entrevista que fiz com ele. Era agosto de 2004, ele havia completado 60 anos há poucos dias e obviamente não fazia a menor ideia que lhe faltava pouco mais de uma década de vida para tentar fazer tudo que ainda planejava – o próximo dia 9 marca os três anos da morte de Naná.

Na época, em 2004, Naná havia desativado pouco antes a casa de Nova York – sua base mais constante nas últimas três décadas – e voltado a morar em Pernambuco. Estávamos no saguão de um hotel da zona norte, próximo ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Por insistência minha, forçando um tema que não tinha muito a ver com o enredo da entrevista, começamos conversando sobre Gato Barbieri. O saxofonista argentino havia sido o responsável pela primeira experiência internacional do percussionista brasileiro. Foi, na memória de Naná, um relacionamento curto, intenso e complicado. Começou muito bem mas degringolou logo a seguir, principalmente por conta do comportamento da onipresente mulher de Gato, Michelle, que exercia grande poder sobre as escolhas musicais e profissionais do saxofonista.

Depois, conversamos também sobre a proximidade de Naná com outro gênio do Free Jazz, o trompetista Don Cherry. Aí narrativa ficou mais amena. O convívio entre os dois, em longas temporadas compartilhadas na Escandinávia, havia sido sempre salutar. Excursionaram juntos, tocaram, compuseram e dividiram centenas de momentos em grupo. Com amigos e parentes agregados, formaram uma família.

A conversa se regionalizou de vez quando citei o nome de Yamandú Costa. Extremo Som era o projeto musical que o pernambucano planejava dividir com o gaúcho. Não havia nada acertado mas desde que os dois tinham dividido o palco dias antes no Festival de Rio das Ostras, no Rio, o percussionista e o violonista mostravam-se afinados.

Yamandú me recordaria dia desses que, quando estiveram juntos, Naná e ele gravaram Boi Bumbá, do maestro e pianista paraense Waldemar Henrique, um estudo para violão de Heitor Villa-Lobos, Quem vem para Beira do Mar, de Dorival Caymmi, e compuseram uma obra em parceria, o Maracatu dos Andes, que mistura a força percussiva do maracatu nordestino com a influência do huayno chileno-peruano. “Esse trabalho foi algo muito especial que merece ser revivido. Tenho que ir atrás deste material e recuperá-lo”, me disse Yamandu na mesma ocasião.

A parceria com Yamandu foi algo natural na trajetória de Naná, músico que sempre gostou de viver cercado de outros grandes músicos – além dos já citados é possível lembrar também de Ornette Coleman, Egberto Gismonti, Roberto Guima, Pat Metheny, David Byrne e Milton Nascimento.

Naná sempre gravitou na esfera da música, da teoria à pratica da mais abstrata das manifestações artísticas. Ele ainda ocupava o nicho pouco compreendido dos sons instrumentais. Assim, era natural, então, que as imagens que ele construía com seu arsenal percussivo fossem de difícil deglutição auditiva.

Formado desde os 12 anos em bailes populares e em conjuntos de cabarés, Naná Vasconcelos chegou ao Rio de Janeiro no final dos anos 60, se aproximou dos remanescentes da bossa nova e dos fundadores do tropicalismo. Já no início da década seguinte estava vivendo em Paris, circulando nos principais festivais de jazz do mundo e dando uma nova dimensão à percussão em geral e ao berimbau de maneira mais específica. A inspiração para esses trabalhos vêm de duas vertentes: Villa-Lobos (“O primeiro a compreender que os sons estão na natureza” diz Naná) e Jimi Hendrix (“Tento fazer com o berimbau o que ele fez com a guitarra”). Dessas duas linhas de pensamento, Naná busca uma síntese.

E foi desta síntese musical que Naná me falou na primeira vez que estive com ele. Foi pouco antes de um show em Porto Alegre, há exatos 20 anos. Naná veio lançar Atracatraca ao lado do grupo Uakti.

Atracatraca remetia inicialmente a atracar, à chegada do barco ao cais e pode também significar o trajeto que os navios negreiros faziam da África ao Brasil. Para Naná, a percussão brasileira é o resultado da mistura de vários povos africanos. Naná exaltava a riqueza polirrítmica do Brasil e concluía lembrando Villa-Lobos. “Foi ele o primeiro a compreender o sentido visual da música, como se as notas construíssem imagens impressionistas”. E completou: “Quem ouve o Trenzinho do Caipira consegue visualizar as paisagens do Brasil”.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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