Golfinho nas águas da Lagoa

Roberto Muggiati define: The Dolphin, de Luiz Eça na interpretação de Bill Evans, não é uma balada, e sim um tema numa batida da bossa insustentavelmente leve

Para ser lido ao som de Bill Evans em The Dolphin (Before) 

Arte: Daniel Kondo

Em 1970, Bill Evans gravou um álbum em que prosseguia suas explorações sonoras, dessa vez tocando simultaneamente um piano acústico (Steinway) e outro elétrico (Pender Rhodes). Em 1963, ele inovara com o LP Conversations with Myself, em que dublava a si mesmo usando três trilhas de piano superpostas. Em 1967, repetia a experiência em Further Conversations with Myself, dessa vez usando duas trilhas de piano e recorrendo novamente à dublagem. Em From Left to Right, Bill sentou-se diante de dois pianos – um acústico e um elétrico – dispostos respectivamente à sua esquerda e direita, num ângulo de 90°. Do vinil contendo nove faixas constou uma composição do pianista brasileiro Luiz Eça, The Dolphin, em duas versões, uma com Bill acompanhado por guitarra, baixo e bateria (Before) e outra (After) com a mesma gravação acrescida por um arranjo de flautas, cordas e percussão, feito pelo maestro Michael Leonard, que comenta: “Nenhum músico toca baladas como Bill Evans. É quase como se ele cantasse a letra, tocasse o acompanhamento orquestral e regesse, tudo ao mesmo tempo. Seu gosto refinado e segurança absoluta fazem a música emergir na sua forma mais pura, ao mesmo tempo em que imprime nela sua marca particular. Não há nunca embelezamentos pianísticos supérfluos no estilo de Bill: tudo o que ele faz parece crescer da própria música”.

The Dolphin não é uma balada, e sim um tema numa batida da bossa insustentavelmente leve, mas a definição de Leonard também se aplica admiravelmente a essa interpretação de Evans. A melhor parte da história surgiria em 1997, quando foi lançada uma caixa de aço escovado com 18 CDs, The Complete Bill Evans on VerveThe Dolphin aparecia em nove versões (incluindo as alternate takes), oito da série Before e a definitiva After com acompanhamento de cordas que já havia saído em vinil.

Um total de cabalísticos 31 minutos e 31 segundos do golfinho brasileiro que foi aportar num estúdio de gravações em São Francisco, na Califórnia, depois de uma longa viagem a partir do Rio de Janeiro. Mais especificamente da lagoa Rodrigo de Freitas, onde nunca nadou nenhum golfinho, mas foi gerado pela fértil imaginação do pianista Luiz Eça em meio a suas eternas temporadas de piano-coquetel no Chico’s Bar, banhado pelo pôr-do-sol inigualável no espelho d’água rodeado pelo anfiteatro natural do morro Dois Irmãos e do Corcovado. Eça batizou seu mamífero cetáceo marinho de The Dolphin, em inglês mesmo, talvez antecipando o dia em que ele entraria para o repertório do Jazz (além de Bill Evans, Stan Getz também o gravou). O próprio Eça voltaria sempre ao tema, quase obsessivamente, gravando-o com acompanhamento de cordas e numa memorável apresentação ao vivo no Museu de Arte Moderna do Rio com o saxofonista Vítor Assis Brasil. (Em alguns discos, a música aparece grafada como Daulphine.)

Todo mundo aceita a beleza da melodia e vibra com o seu sucesso universal, mas quase ninguém sabe como o boto de Luiz Eça foi cair nas mãos, ou nos ouvidos, do grande Bill Evans. A história, conhecida de poucos, é contada aos retalhos e pode ser reconstituída mais ou menos assim: um amigo do compositor Earl Zindars, um dos favoritos de Bill, apareceu no estúdio com uma pasta de partituras, uma pasta surrada de papelão imitando couro. Insistia em mostrar a Bill a partitura de um ilustre desconhecido do lado de baixo do Equador. Bill, que era uma criatura doce e paciente, concordou em dar uma olhada na composição. Apaixonou-se imediatamente e gravou as nove takes imortais de The Dolphin e nunca mais voltou a tocar o tema. Nos anos que se seguiram, era sempre importunado pelas plateias com pedidos de The Dolphin, mas Bill, talvez querendo deixar sua obra-prima descansar em paz, sempre resistiu.

É possível que Bill Evans tenha voltado a tocar The Dolphin numa noitada lendária na mesma casa onde a música foi concebida, o Chico’s Bar, no Rio. Depois de se apresentar na Sala Cecília Meireles, em sua terceira visita ao Brasil, Bill foi gentilmente acostado no camarim, enfiado num carro e levado até o Chico’s, onde Luiz Eça dava expediente. Segundo os poucos fãs que assistiram ao encontro, foi uma ocasião memorável, da qual restou uma fita de uma hora de gravação que – o mundo do jazz aguarda em suspense – poderia vir à luz um dia num CD. O dono da fita, o advogado e jazzófilo Arthur Lins, lembra: “Evans estava no auge da fama e da piração, muito sensível, tocando com um feeling extremado. Tinha a cabeleira caída no rosto, a cabeça curvada, a testa quase tocando os teclados. Eles fizeram uma apresentação maravilhosa que atingiu o clímax às quatro da madrugada”.

Bill Evans sangrou até morrer, um ano depois, em setembro de 1980. Tinha 51 anos. Luiz Eça morreu de infarto aos 56 anos, em 1992. A música de Evans e Eça continua navegando nas águas do jazz, saltitando como um golfinho debaixo de um céu sempre azul.

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