FalaJazz | Amaro Freitas

Maracatu planetário

Foto: Helder Tavares/Divulgação
Foto: Helder Tavares/Divulgação

Para ser lido ao som de Amaro Freitas em Afrocatu

“Posso dizer que o jazz está no meu trabalho primeiro pela estética de liberdade musical, reconhecimento de si mesmo na música, o desenvolvimento e capacidade de improvisar em tempo real, conexão empírica com o público”, me explica Amaro Freitas sobre como o jazz está em sua música. Pernambucano de Recife onde nasceu em 1991, Amaro Freitas é um dos mais talentosos representantes da música instrumental brasileira. Seu trabalho de estreia foi o álbum independente Sangue Negro, lançado em novembro de 2016. A estratégia deu certo e dois anos depois o segundo disco, Rasif, foi lançado por um selo inglês. O nordeste é a base, o jazz é limite. Como seu conterrâneo Naná Vasconcelos, Amaro Freitas parte do mais regional para alcançar o universal. Acho Rasif um disco que mostra outra cara do nosso Brasil, e quero levá-lo ao máximo de lugares que conseguir. Fala, mais Amaro!

De onde vem o teu piano?

As minhas maiores referências foram construindo tudo que sou hoje. Chick Corea é especial. Quando eu tinha 15 anos ganhei um DVD dele e isso mudou totalmente minha visão de música. O meu contato era apenas com música da igreja e ouvir aquele som de jazz moderno mexeu muito comigo, despertando a vontade de conhecer mais sobre a música instrumental. Tenho como minhas principais referências Oscar Peterson, Thelonious Monk, Herbie Hancock, Moacir Santos, Capiba, Brad Mehldau, Craig Taborn, Gonzalo Rubalcaba e Stefano Bollani.

E quem mais?

Foram importantes para minha formação tanto músicos do bairro onde eu iniciei minha carreira, como também outras influências da cultura popular: a Spok Frevo Orquestra, Naná Vasconcelos, Chico Science e Coco Raízes de Arcoverde. Posso dizer que a convivência com Hugo Medeiros e Jean Elton, músicos que me acompanham, é muito rica em aprendizado, criatividade e formação de novas possibilidades.


O que mudou entre Sangue Negro e Rasif ?

Quando eu completei 18 anos, comecei a ter uma relação maior com a música pernambucana e me apaixonei fortemente pelos ritmos que temos aqui: frevo, maracatu, coco, baião… E isso tudo começou a aparecer em minhas composições. Acredito que a música pode ser atemporal mas ela também revela o que somos, em que momento vivenciamos este sentimento registrado, e o que nos influenciou a criar tal tipo de música. Além das claves de ritmos pernambucanos eu também compunha músicas sem rótulo, que não temos como enquadrar dentro de uma caixinha ou estilo musical, como é o caso de Norte, e Estudo 0, (composta pelo baterista que me acompanha Hugo Medeiros). Apesar de compor as músicasEncruzilhadaSubindo o MorroNorteSamba de César e Sangue Negro, o processo de laboratório com os músicos foi de suma importância. Nos preparamos durante o período de dois meses com ensaios de até três vezes por semana. Eu levava a composição meio que pronta, falava o que tinha pensado em cada uma delas e liberava para que os meus parceiros colocassem vida e alma em cada nota replicada ou alterada. Rasif além de título do disco é uma das músicas que o compõe. Minha inspiração é totalmente a relação que eu tenho com a vida, com Pernambuco e dedicação de repetidos estudos ao piano, em grupo e a realização do show. Em Rasif eu não estou melhor do que em Sangue Negro, estou apenas em outro momento e com outra visão da música. A vivência com os meus companheiros Jean e Hugo também me motivaram e me inspiraram a fazer essas composições. O disco tem vários momentos que vivi, momentos inspiradores e diferentes como: ver o Coco Raízes de Arcoverde, tocando o trupé com sandálias de madeira em cima de um tablado de madeira; comer o baião de dois de Dona Eni, uma cearense que sempre nos acolhe quando vamos ao seu Estado; assistir e me apresentar em um dos nossos principais Museus, o Paço do Frevo, estar mais próximo da poesia e literatura e tentar entender ou representar, com o som, a estação de um dia como em AuroraA PinoOcaso e Plenilúnio.

Qual a importância de ter um disco lançado por um selo europeu?

O meu novo trabalho Rasif está sendo lançado pelo selo inglês Far Out Recordings. Nesse novo momento da minha carreira musical é importante mencionar a minha relação com a 78 Rotações: produtora e escritório que me representa. Tomamos sempre as decisões juntos e estamos sempre observando o mercado e nos posicionando. Acredito que na Europa existe um mercado muito bem estabelecido com cada departamento funcionando bem: casas de shows, festivais, selos, escritórios, produções etc… Sinto isso com a Far Out. Nessa parceria vejo essa organização de mercado e sua funcionalidade.

A Europa, os EUA e o Japão são importantes na divulgação do teu trabalho?

Sim, acho de muita importância essa divulgação no exterior. Pelo seguinte motivo;

No Brasil temos uma diversidade muito grande de produção musical. Acho que muitos músicos têm uma relação poética com a sua arte, mas não pensam sobre a arte: como negócio e como produto (falando do cenário instrumental). Acredito que, por esse posicionamento e muitos outros fatores ,esses músicos e suas belas artes não têm o trabalho também divulgado e reconhecido. É importante que criatividade, a arte e o negócio andem de mãos dadas.

E em 2019?

Em 2019 trabalharemos muito o disco, com a ideia de levá-lo ao exterior, expandindo além da Europa mas também levando para outros Estados do Brasil, vendo a importância da circulação do disco dentro e fora do país. Poderia dizer ainda que pretendo fazer muitos discos. Cada disco vai estar conectado ao tempo em que vivo, minha dedicação ao piano, o diálogo verbal e musical com os parceiros. Não temos como falar muito do futuro mas posso dizer que teremos um próximo disco com o trio (não em 2019 ), fechando uma trilogia sonora que nos lembrará o espaço e o tempo que vivemos.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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