A ponte

Há seis décadas, Sonny Rollins partira para uma jornada pessoal cheio de perguntas e buscava encontrar as respostas criando seu próprio mosteiro num gigantesco colosso de aço e concreto

Para ser lido ao som de Sonny Rollins em The Bridge

Arte: Gilmar Fraga
Arte: Gilmar Fraga

Sonny Rollins chegara aos 28 anos em 1959. Em apenas seis anos havia gravado 18 discos sob seu nome, desenvolvera parcerias com John Coltrane, Max Roach, Clifford Brown, Miles Davis, John Lewis, Milt Jackson, Art Blakey, Tommy Flanagan. Fora o mais aplicado discípulo dos ensinamentos de Lester Young, Charlie Parker e, principalmente, Coleman Hawkins. Era o colosso do saxofone (e também a loucura do tenor), um dos mais completos solistas de seu instrumento. Era um gigante. E estava cansado. O cansaço vinha de anos de vício em heroína, já abandonado depois de temporadas na prisão e em centros de reabilitação, mas também era originário de noites mal dormidas, de sessões de gravações intermináveis, de clubes enfumaçados com palcos exíguos, da combinação letal de uísques de baixa qualidade com donos de casas noturnas e empresários vorazes. Era necessário radicalizar. Antecipando em quase uma década o ensinamento hippie: era preciso saltar fora.

O marco zero de Sonny Rollins partia da premissa de que o caminho deveria ser retomado do início. Num aspecto zen, o caminhante deveria retomar o começo da caminhada – sem saber aonde pretendia chegar. E então Sonny Rollins sumiu. Sua gigantesca figura evaporou-se dos estúdios e das casas noturnas. Ninguém sabia por onde Rollins andava. Quer dizer, quase ninguém.

O repórter Ralph Berton foi atrás, descobriu e, em 1961, a revista Metronome – dirigida pelos críticos Leonard Feather e Barry Ulanov – publicou uma matéria sobre um saxofonista que tocava solitariamente no topo da Ponte Williamsburg, um colosso de metal com mais de dois quilômetros de extensão, oito pistas e em atividade desde 1903 permitindo que milhares de pessoas cruzassem diariamente por sobre o East River a região que liga North Brooklin ao Lower East Side de Manhattan. Berton fez o registro mas respeitou a privacidade de Rollins. Na sua matéria, o personagem chamava-se Buster Jones e a ponte era identificada como sendo a do Brooklyn.

Esta era a rotina de Sonny Rollins no espaço entre o verão nova-iorquino de 1959 e o final de 1961. A região não era novidade para o saxofonista nascido no Harlem em 1931 e morador de um apartamento no número 400 da Grand Street, a poucos quarteirões da ponte. Como uma árvore no meio de uma floresta, passava despercebido. Era incógnito no meio de uma multidão de pedestres, motoristas e passageiros de trens, metrôs e ônibus que não se davam conta de que aquele soprador solitário era um dos grandes nomes do jazz contemporâneo.

O período sabático de Rollins foi uma jornada de autoconhecimento. Ele se desligara do mundo musical – num período de intensa efervescência com lançamentos de discos seminais de Miles Davis (Kind of Blue), John Coltrane (Giant Steps), Ornette Coleman (The Shape of Jazz to Come) e Charles Mingus (Mingus Ah Um), para citar apenas seus contemporâneos – abandonara compromissos profissionais (os gastos mais imediatos foram assumidos pela mulher, Lucille, que trabalhava como secretária na Universidade de Nova York) e passara a se dedicar à meditação, à yoga e à leitura de textos sobre budismo, alquimia e temas esotéricos. A decisão pela ponte também teve a ver com a opção pelo isolamento, pela privacidade. Porém, obedecia ainda a uma prosaica decisão: como o seu amigo e vizinho, o baterista Frankie Dunlop, estava com a mulher grávida, achou por bem poupá-la dos exercícios musicais e do sopro intermitente. Além disso, “tocar a céu aberto melhora a capacidade pulmonar e o alcance do som do instrumento”, reconheceu Rollins em um depoimento anos depois. Quando não estava tocando na ponte, estudava piano, harmonia e contraponto, caminhava bastante, passeava com o cachorro, preparava a própria comida. Afora isso, havia largado o cigarro e a bebida.

Tudo conspirava a favor de Rollins. Os elementos – água, terra, ar – estavam ao seu redor. Ele seguia vinculado a uma metrópole mas não era mais obrigado a interagir o tempo todo. Podia se mimetizar com o ambiente, virar paisagem. E a ponte, principalmente nas madrugadas, lhe dava a calma e a serenidade – e o silêncio. Partira para sua jornada pessoal cheio de perguntas, agora sentia ter encontrado as respostas. Sonny Rollins havia criado seu próprio mosteiro.

Quando achou que estava pronto, retornou. Voltou a se apresentar em público em novembro de 1961, quando o outono nova-iorquino começa a dar seus últimos suspiros. Estava com a cabeça totalmente raspada e os únicos pêlos eram de um cavanhaque que se projetava de seu proeminente queixo.

Abandonara os elegantes smokings que haviam sido uma de suas marcas na década anterior e optara por roupas mais convencionais. À frente de seu novo combo reapareceu na Jazz Gallery, em St. Marks Place. No ano seguinte, entre o final de janeiro e a primeira quinzena de fevereiro, gravou um disco. Haviam se passado três anos e três meses desde a última vez que havia entrado num estúdio e o jazz se transformara radicalmente nesse período, sendo agora pautado por dois dos mais próximos parceiros de Sonny: Ornette Coleman e John Coltrane.

O disco – não por acaso batizado como The Bridge – trazia Rollins comandando um quarteto sem piano com o guitarrista Jim Hall (“Ele me dá a estrutura harmônica de que necessito”, admitiu em uma entrevista concedida na época), o contrabaixista Bob Cranshaw e o baterista Ben Riley (Harry “H.T. Saunders”) substituía Riley na faixa God Bless the Child). 


Sessenta anos depois. Na década de 90, a íngreme escada de ferro fundido que Rollins escalava diariamente até chegar ao caminho de pedestres da Ponte Williamsburg foi substituída por uma rampa mais acessível. Tudo está muito diferente. A gentrificação chegou com toda força na região e nada da paisagem habitada anteriormente por Sonny Rollins pode ser reconhecido. O prédio de 15 andares foi demolido. O local onde o saxofonista recebia amigos como Charles Mingus, John Coltrane e Thelonious Monk deixou de existir em 2015. No local, surgiu outro prédio, mais sofisticado, para um público bem diferente daquele de seis décadas atrás, com aluguéis que variam entre US$ 3 mil e US$ 9 mil (entre os mais altos do bairro) e que conserva apenas uma e significativa relação com o passado: o edifício chama-se The Rollins.

O homenageado mora bem longe dali. Aos 87 anos segue em atividade, ainda que tenha reduzido as gravações e as viagens (estas praticamente abandonadas ou restritas ao recebimento de homenagens, medalhas, diplomas e comendas). Em 2017, doou seu acervo pessoal ao Centro de Pesquisas da Cultura Negra da Biblioteca Pública de Nova York. A companheira Lucille – testemunha daqueles dias de 1959/1961 – morreu do coração em novembro de 2004. Desde 2013, Sonny Rollins vive em Woodstock.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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