O fascínio pelo canto

Roberto Muggiatti lembra como, há 65 anos, Chet Baker gravava My Funny Valentine e outros sete standards que fariam parte do LP de dez polegadas Chet Baker Sings

Para ser lido ao som de Chet Baker Sings

Arte: Gilmar Fraga

Rosto de querubim, topete à Elvis, olhar rebaixado à James  Dean, físico de quem jogou futebol americano na universidade, aparência saudável de garoto que toma seu copo de leite toda manhã, Chesney Henry “Chet” Baker (1929-1988) nasceu em Oklahoma, mas ainda criança, mudou-se para a Costa Oeste e cresceu como um típico adolescente da Califórnia. Aos 13 anos já tocava trompete na escola. Recrutado para o Exército, prestou o serviço militar em bandas de música. Dispensado em 1951, começou a apresentar-se profissionalmente na área de Los Angeles. Sua primeira grande oportunidade surgiu no verão de 1952. Ele mesmo conta, no livro Memórias Perdidas: “Um dia cheguei em casa e encontrei um telegrama debaixo da porta. Dizia que Charlie Parker estava selecionando um trompetista para fazer uma temporada com ele na Califórnia. O teste seria naquele mesmo dia, às três horas, no Tiffany Club. Corri até lá, cheguei um pouco atrasado, mas consegui ouvir, do lado de fora, Bird desenvolvendo um tema com um trompetista. Penetrando na escuridão do clube, pude distinguir a figura de Bird voando nos céus dos blues. Fiquei sentado, por um ou dois minutos, olhando ao redor. Reconheci muitos trompetistas e um monte de gente que descobrira, de algum modo, que Bird estaria lá. Percebi alguém aproximar-se do palco e dizer algo a Bird. Fiquei sem graça e muito nervoso quando ele perguntou pelo microfone se eu estava no clube e se podia subir ao palco e tocar com ele. Passou por cima de todos aqueles caras na fila – alguns muito mais experientes do que eu e capazes de ler qualquer partitura que lhes botassem na frente. Tocamos dois temas: The Song Is You e um blues escrito por Bird, Cheryl, que felizmente eu conhecia. Quando acabamos o tema, Bird anunciou que a audição estava encerrada, agradeceu a presença de todos e comunicou que me escolhera para participar do seu grupo.

Conviveram alguns meses, Parker como uma espécie de pai, ou irmão mais velho, protegendo o jovem Chet, 22 anos, dos traficantes. “Toque como eu toco, mas não faça o que eu faço”, dizia Bird, que morreu como uma espécie de mártir, drogando-se para provar que “as drogas eram uma droga!”. Naqueles tempos, drogar-se era uma espécie de distintivo de clube para os músicos de Jazz, como beber o era para os grandes escritores (Hammett, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald…). Mal deixou Parker, Chet formou com o sax-barítono Gerry Mulligan um quarteto-sem-piano e foi atropelado pela fama com o seu breve, mas conciso, solo de trompete em My Funny Valentine, gravado em setembro de 1952.

A parceria com Mulligan tornou-se lendária, mas só durou 11 meses. Chet formou então um quarteto-sem-piano, com Russ Freeman, e nas primeiras gravações, já em outubro de 1953, teve a ousadia de se lançar como cantor, interpretando um tema do repertório de Frank Sinatra, l Fallin’ Love Too Easily. Nesse mesmo ano, numa festa em Hollywood, Baker, tocando os acordes ao piano, cantou o belo tema de Cole Porter Ev’ry Time We Say Goodye em dueto com a cantora June Christie, enquanto o marido desta, o saxofonista Bob Cooper, os acompanhava suavemente com o seu tenor. “Soavam como dois anjos cantando”, lembra o fotógrafo William Claxton, que ajudou com suas câmeras a construir a imagem de Baker como “ícone do cool”. Claxton, Christy e os demais convidados insistiram para que Chet gravasse um disco só de vocais. O que não demorou a acontecer: em 15 de fevereiro de 1954 – um dia depois do Valentine’s Day, Dia dos Namorados nos Estados Unidos – Chet gravava My Funny Valentine e outros sete standards que fariam parte do LP de dez polegadas Chet Baker Sings.

Na verdade, o fascínio de Chet pelo canto vinha da infância, quando acompanhava os cantores que ouvia no rádio de casa. Sua mãe, Vera, adorava sua voz, embora ainda soasse aguda como a de um menino de coro. Começou a arrastar o filho para concursos de calouros infantis, em que competia com sapateadores, acordeonistas novatos e cantores à moda tirolesa. A própria Vera escolhia o repertório: canções de amor um tanto maduras para um garoto de 12 anos. A saxofonista Diane Vavra, companheira de Baker nos seus últimos anos, comentou: “Talvez houvesse algum componente edipiano na coisa, porque sua mãe lhe ensinava todas aquelas letras fortemente erotizadas”.

Anos depois, Baker queixou-se a um pianista amigo que aquilo o incomodava, muitas crianças caçoavam dele e diziam que soava como uma menina. Mas isso não o impediu de atirar-se de corpo e alma à carreira de cantor, aos 24 anos, para o resto da vida. No início, sua voz juvenil e afeminada foi muito criticada: alguns depreciaram sua afinação instável, sua voz “pequena”, as vogais caipiras, o recurso de respirar entre as palavras. Mas sua interpretação transmitia um sentimento tão intenso de fragilidade e inocência que acabou superando todas as críticas. Chet não tinha vergonha de cantar como uma Billie Holiday, assumindo seu lado feminino – a sua anima, no jargão junguiano da época. O álbum Chet Baker Sings em pouco tempo chegou ao Brasil e exerceu um papel fundamental nos anos de formação da bossa nova. Suas entonações vocais e ao trompete ensinaram muito aos jovens da classe média que tentavam criar uma linguagem musical mais em sintonia com a vida urbana que levavam. João Gilberto não só criou um estilo vocal a partir de Chet Baker, como venceu sua timidez e conquistou a jovem Astrud, convidando-a para duetos vocais com Chet na vitrola cantando There Will Never Be Another You.

Quando Chet veio ao Brasil pela primeira e única vez – para apresentar-se no primeiro Free Jazz Festival, em 1985 –, tive a oportunidade rara de conversar com ele à beira da piscina do Hotel Nacional durante quase uma hora. Na verdade, não foi bem uma conversa. Eu tentava arrancar declarações definitivas e Chet, pausadamente, olhava para o passado em câmara lenta, cansado, o rosto vincado de rugas, a boca e os dentes desfigurados por uma surra que levou de traficantes ainda nos anos 1960, um fantasma do belo jovem que fora comparado a James Dean e chegara até a fazer filmes em Hollywood e na Itália. Mas, dentro daquele corpo precário, que já namorava com a morte, eu senti uma alma íntegra como poucas. Chet foi generoso com sua música, gravou muitos discos de graça em clubes noturnos, às vezes sem saber que estava sendo gravado, outras vezes em troca do pico da hora, simplesmente porque fazer música era, mais do que sua grande paixão, sua própria razão de ser. Totalmente desapegado dos bens materiais, morando em hotéis – adorando apenas carros velozes – foi talvez o mais autêntico dos beats, muito mais do que intelectuais emocionalmente travados como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Chet Baker ofereceu ao mundo – ainda oferece –, ao lado de Billie Holiday, Charlie Parker, Lester Young e John Coltrane, nesses tempos de aridez espiritual, um legado de rara beleza e liberdade.

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