Depois da tensão, a admiração

James Liberato* lembra da vez que tocou ao lado de Michel Legrand, grande músico francês que morreu no último dia 26

Para ser lido ao som de Michel Legrand em The Windmills of Your Mind

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Foi há quase uma década. No dia 14 de junho de 2009, fui convidado a participar com a OSPA de um concerto em que a grande atração seria o pianista e compositor francês Michel Legrand. Acompanhado de sua mulher, a harpista Catherine Michel, Legrand deveria apresentar um repertório com alguns de seus clássicos como as trilhas de Houve uma Vez um Verão e de Crown, O Magnífico.

Vibrei com a oportunidade mas também algo me dizia que alguns problemas poderiam surgir. O primeiro deles é que alguns músicos que não tocam regularmente com o rigor das orquestras – como é o meu caso – sofrem enorme pressão ao serem convidados, muitas vezes a começar pela roupa – que eu não tenho (ou então tinha mas não serve mais) – até o desconhecimento dos arranjos. Tudo isso torna o primeiro ensaio em um mar de surpresas.

Com Michel Legrand não foi diferente. Já no primeiro encontro somente com a orquestra (sem a presença de músico francês) houve uma certa tensão. Faltaram partes do arranjo. Alguns naipes não tinham suas partituras. Assim, o ensaio ficou prejudicado.

No segundo ensaio, Legrand estava presente e o ambiente continuava tenso. Lembro que Legrand ficou insatisfeito ao saber que algumas partituras não haviam chegado. Foi providenciado com a produção o seu envio urgente. Novamente o ensaio não foi completo mas já com a presença do autor dos arranjos as coisas fluíram melhor.

Eu tocava minha guitarra ao fundo do ensaio junto com a bateria, o baixo, e o piano. Quando notei a harpa estava ao meu lado. Era ali que iria sentar Catherine. Ela chegou, me cumprimentou com simpatia e começamos a tocar. A fluência da sua execução virtuosa quase me desconcentrou. Fiquei fascinado ao ver aquelas mãos deslizando nas cordas e tirando uma sonoridade incrível.

No terceiro encontro, já no dia do concerto) o ensaio geral foi na Reitoria da UFRGS. Já de cara fiquei impressionado com o aquecimento de Legrand ao piano. Ele sentou na banqueta do piano e não parou de tocar durante quase 40 minutos. Parecia uma criança diante de um brinquedo novo. Logo depois ensaiamos alguns temas jazzísticos trazidos por ele com piano, baixo, bateria e guitarra. Com os arranjos da sinfônica a admiração não foi diferente. Tudo soava maravilhosamente e muito bem colocado.

Na hora do concerto, deu tudo certo. Só tenho a agradecer ter tido este rápido convívio com um dos mestres da música que nos deixou recentemente. A gratidão será eterna.


*James Liberato faz sua estreia na AmaJazz. Ele é músico, compositor, arranjador, instrumentista  e professor de música com mais de 40 anos de trabalho profissional. Já gravou quatro CDs independentes, com temas de sua autoria, toca violão, guitarra, contrabaixo elétrico e cavaco

2 pensamentos

  1. Que barato, James! Tocar e conviver algumas horas com o Grand Le… Parabéns!!!
    Abraço.
    Raul Boeira (Passo Fundo-RS

    1. muito obrigado.realmente.todos os momentos que vivemos serão únicos.
      Lets think about
      Grande abraço

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