Jazz líquido

Como o áspero e reconfortante Jack Daniel’s tornou-se a bebida-símbolo de músicos do rock, do blues e do jazz, como Thelonious Monk

Para ser lido ao som de Thelonious Monk em Straight no Chaser

Arte: Fraga

O primeiro gole é áspero, como se a madeira usada para fazer os barris fosse a mesma de alguns pianos do jazz, de velhos contrabaixos e de escritórios enfumaçados dos cenários de Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Este é o primeiro segredo desta bebida de 144 anos – e ainda atual. O Jack Daniel’s é para iniciados e a essência não atinge apenas as papilas, mas também o olfato e, até mesmo, a memória. Memória de um tempo de colts e diligências, quando as cidades eram colonizadas a tiro. O precoce Daniel já sabia disso aos 16 anos. E sabia também que em Lynchburg, a pouco mais de cem quilômetros de Nashville, Tennessee, havia um pequeno vale com água quase sem ferro. Este é o segundo segredo. O ferro é tão prejudicial aos destilados quanto o oxigênio ao vinho. Mas com essa água puríssima, maturada posteriormente através do carvão vegetal, Daniel poderia fazer o melhor destilado dos Estados Unidos. Jack Daniel’s não é uísque, não é bourbon. É o legítimo american whiskey. “Com o tempo, é possível perdoar aos scotchs todo aquele refinamento e variedade, uma gama de cores e gostos que parece um bando de bailarinas deslumbrantes em torno de um senhor que se embebeda austeramente”, escreveu e definiu perfeitamente o jornalista José Onofre, um grande admirador da bebida. E acrescentou: “O Jack Daniel’s – é grosseiro e excessivamente íntimo chamar apenas de Jack –, embora para sempre ligado aos durões e às espertalhonas, tem seu próprio clima. Ele sobe pelas narinas e desce pela garganta e é como receber o olhar amoroso de uma mulher difícil. É forte e reconfortante, quando honesto, e isso, infelizmente, tem ficado cada vez mais raro neste país de farsantes”.

A fábrica foi criada em 1875 e por décadas foi supervisionada pelo próprio Daniel. Quando morreu aos 61 anos, solteiro e sem filhos – reza a lenda que  Daniel morreu de envenenamento do sangue e que a infecção começou em um de seus dedos, que ele machucou chutando seu cofre por não conseguir abri-lo – a destilaria foi herdada pelos sobrinhos. Lynchburg até hoje vive em torno do Jack Daniel’s. A maior parte da população de seis mil almas da cidade trabalha lá e além da responsabilidade de manter a tradição, são também cicerones dos mais de 200 mil turistas por ano que querem conhecer as instalações. Mas eles só podem ver. Em Lynchburg ainda vigora a Lei Seca – tão profundamente ligada ao jazz daqueles turbulentos anos 20 e 30 do século passado em Chicago e em Nova York.

E da Lei Seca vem outra parte da memória, esta mais recente, e, por isso mesmo, mais emblemática. O Jack Daniel’s é uma bebida urbana, tradução perfeita das metrópoles americanas, do noir de Chandler e Hammett, do rock de Janis Joplin e Keith Richards e – bem antes disso – dos blueseiros, que também o descobriram. Primeiro anonimamente. A bebida passava de mão em mão, de boca em boca, entre velhos músicos que vagavam pelo sul dos Estados Unidos pulando entre os vagões dos trens e com suas guitarras a tiracolo. Depois, foi adotada por nomes consagrados como Howlin’ Wolf, Muddy Waters e Robert Johnson – John Lee Hooker até ensina numa canção: “One scotch, one bourbon, one beer” – até chegar ao jazz de Charlie Parker, de Lennie Tristano e de Thelonious Monk. Robin Kelley na biografia que escreveu sobre o pianista conta que Monk durante um tempo até conseguiu ficar afastado das drogas mas jamais das generosas doses que se se servia de Jack Daniel’s diariamente. O próprio Monk chegou a dar o nome de uma composição sua usando a maneira correta como deve ser bebido: straight, no chaser – puro sem gelo.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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