A Voz

Como intérprete, Frank Sinatra estabeleceu o melhor repertório do cancioneiro mundial e transformou-se no maior modelo de sedução e libido, atingindo em igual escala aos ouvidos, ao coração e ao baixo ventre

Para ser lido ao som de Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim


Foto: William P. Gottlieb/Domínio público/Wikicommons
Foto: William P. Gottlieb/Domínio público/Wikicommons

O coração de quem mais fez os corações do século 20 bater parou às 10h50min da sexta-feira, 14 de maio de 1998. Acompanhado pela mulher, Berbara, Frank Sinatra, o maior cantor do planeta, morreu, aos 82 anos, de ataque cardíaco no Cedars-Sinai Medical Center. Foi a última nota de um sofrimento que já se estendia desde 1995 e que havia se agravado depois de um enfarte em janeiro de 1998.

Muito uísque passou por debaixo da ponte nesses 82 anos de vida e nas mais de seis décadas de carreira. O ítalo-americano Sinatra nasceu na poluída Hoboken, em Nova Jersey – cidade também conhecida como a capital do beisebol –, em dezembro de 1915. Começou a cantar nos bares locais e ganhou notoriedade nacional no final dos anos 30 como crooner da orquestra de Tommy Dorsey. O rompimento entre o cantor e o band-leader foi traumático e daí surgiram os primeiros boatos sobre o envolvimento com a Máfia, mas já na década seguinte, Sinatra se tornava um fenômeno. Vendagens altíssimas, casas lotadas, sucesso no cinema e fãs enlouquecidas.

No início dos anos 50, casou-se com Ava Gardner, na época a mulher mais linda do mundo. O relacionamento foi curto e tumultuado. Sinatra separou-se da sua grande paixão e entrou na pior fase de sua vida pessoal, viciando-se em drogas e bebendo bem mais do que o recomendável. Como a dor também inspira foi nessa fase que Sinatra produziu os melhores discos Sua voz – a Voz – estava no auge, seu repertório afinadíssimo, reunindo o que havia de melhor na canção americana – de Gershwin a Cole Porter, de Rodgers & Hart a Irving Berlin – e tendo ao lado parceiros do nível de Count Basie, Ella Fitzgerald e Sammy Davis Jr.. Nessa década, ganhou um Oscar por A um Passo da Eternidade, mas o cinema sempre foi um acessório para divulgar a sua música. No ápice de sua forma vocal e favorecido pelo surgimento do LP – que proporcionava quase 30 minutos de música ininterrupta – Sinatra transformou-se num modelo de sedução e libido, atingindo em igual escala aos ouvidos, ao coração e ao baixo ventre.

Fechou os anos 50 ainda mais em evidência, conquistando as mulheres mais desejadas – Marylin Monroe, Grace Kelly, Kim Novak, Angie Dickinson, Judy Garland – e liderando um clube dos cafajestes – o Rat Pack, com Sammy Davis Jr., Dean Martin e Peter Lawford – que agitava todas as festas no circuito Hollywood/Nova York/Las Vegas. Foi também o melhor cabo eleitoral que um jovem senador que aspirava ser presidente dos Estados Unidos poderia ter. O apoio de Sinatra foi decisivo para o sucesso da candidatura vitoriosa de John Kennedy.

Rico, idolatrado, com trânsito livre na Casa Branca, Sinatra nem chegou a ser abalado pelo furacão pop dos anos 60, uma época em que ícones surgiam a cada minuto e que quem tinha mais de 30 anos – como era o caso dele – devia estar num museu. Esperto, Sinatra soube adaptar seu romantismo àqueles tempos velozes e passou também a abrir os ouvidos para o que acontecia. Incluiu os Beatles em seu repertório e voltou-se para a emergente bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim.

Era um caminho natural e de certa forma fechava um ciclo, afinal a bossa nova tinha em seu histórico o Dick Farney-Frank Sinatra Fã Clube formado por jovens que idolatravam os dois cantores e que seriam os fundadores do novo estilo.

Com Jobim, a parceira começou através de um telefonema dos Estados Unidos para um bar de Ipanema. o maestro pensou que era trote, mas resolveu atender. Não se arrependeu. O convite era verdadeiro e Tom Jobim foi um dos poucos artistas do mundo a dividir um disco em igualdade com Sinatra – Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. O disco foi lançado no emblemático ano de 68 e a guinada na vida de Sinatra foi radical também no aspecto afetivo, casando-se com a quase adolescente Mia Farrow, filha da atriz Maureen O’Sullivan e quase 30 anos mais nova do que ele.

Ninguém entendeu o casamento, afinal Mia estava mais interessada no som dos Beatles e na meditação transcendental do Maharishi do que nos hábitos e nos amigos do marido. A crise se agravou com Sinatra quase proibindo Mia de trabalhar em Bebê de Rosemary, de Roman Polanski. Ela bateu o pé e eles se separaram logo depois.

Sinatra só foi conhecer o Brasil nos anos 80. Os convites já aconteciam há quase 30 anos, principalmente através do playboy e amigo pessoal do cantor, Jorginho Guinle, mas só foi confirmado quando ele se apresentou no Maracanã em 1980. Foi uma das poucas vezes que os estádio lotou e, mesmo com a voz fora da melhor forma, Sinatra fez um show completo e emocionante. Voltou ao país um ano depois para uma apresentação para convidados no Maksoud Plaza, em São Paulo.

Os últimos anos de sua vida passou recolhido, frequentemente doente. Ainda assim excursionou pelos Estados Unidos, Europa e Japão ao lado de Sammy Davis Jr. e Liza Minellie gravou dois volumes do CD Duets com intérpretes como Carly Simon e Bono Vox.

A morte de Sinatra encerrou o mais glamouroso capítulo da música americana. Uma era que vai ficar mais triste sem aqueles olhos azuis, sem aquele charme, sem aquela voz. All the way.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Nenhum pensamento

  1. Convém lembrar dos arranjos magníficos de Nelson Riddle, decisivos na sua fase pós-Ava e no decorrer dos Capitol years.

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