Som que saía do corpo e da alma

Roberto Muggiati explica como Coleman Hawkins deu ao saxofone uma sintaxe própria e mostrou as possibilidades fantásticas como instrumento solista

Para ser lido ao som de Coleman Hawkins em Body and Soul

Arte: Gilmar Fraga
Arte: Gilmar Fraga

 Foi Coleman Randolph Hawkins (1904-1969) – também conhecido  como “Bean” e “Hawk” – quem conferiu status de solista ao saxofone. O instrumento entrou tardiamente na cena do jazz e por algum tempo não teve seu potencial devidamente explorado. Os primeiros saxofonistas de destaque, nos anos de 20, foram brancos. Existe uma explicação, segundo o historiador do Jazz James Lincoln Collier: “Os negros entraram tarde na jogada, principalmente porque saxofones de segunda mão ainda não apareciam com frequência nas lojas de instrumentos usados ou de penhores, e poucos negros podiam se dar ao luxo de comprar saxofones novos”.

Coleman Hawkins teve mais sorte. Aprendeu piano aos cinco anos com a mãe, uma professora que tocava órgão. Aos sete, estudou violoncelo e depois pediu um sax-tenor, que ganhou ao completar nove anos de idade. Lembra ele: “Passava o dia inteiro estudando música e, depois de terminar os deveres, me dedicava exclusivamente ao jazz”. Sua facilidade para ler partituras o ajudou a ingressar na profissão musical. Antes dos 20 anos já tocava com a famosa orquestra de Fletcher Henderson e acompanhava a cantora de blues Mamie Smith. Por algum tempo tocou o sax-baixo, instrumento pesado que se ocupava mais da marcação do ritmo, uma espécie de tuba na família das palhetas. Mas depois que se concentrou no sax-tenor, praticamente reinventou o instrumento patenteado em 1846 pelo belga Adolphe Sax, dando-lhe uma sintaxe própria e mostrando suas possibilidades fantásticas como instrumento solista.

O sucesso de Hawkins foi tão grande que em 1934 ele partiu para uma temporada de cinco anos na Europa, onde recebeu tratamento de verdadeira estrela. Nos primeiros tempos, Hawkins ainda tocava com notas destacadas, tratando o sax como se fosse um trompete, com a técnica do slap-tongue (tapas de língua na palheta), que ele próprio chamaria depois de “cafona”. A partir dos anos 1930, evoluiu para o estilo que se tornaria típico do sax-tenor: um timbre robusto, cheio de vibrato, notas em cascata, mais ligadas, praticamente soldadas uma à outra – dentro da característica mais elástica do instrumento – e uma tendência de improvisar menos em torno da melodia (como um Louis Armstrong) e mais sobre os acordes, a sequência harmônica do tema, antecipando o bebop. O trompetista Rex Stewart atribui o amadurecimento de Hawk à influência do pianista ArtTatum: “Coleman Hawkins ficou tão tomado pelo piano de Art Tatum que começou imediatamente a criar um outro estilo para si mesmo, baseado no que ouviu Tatum tocar naquela noite (em 1926 ou 1927) – e abandonou para sempre o slap-tonguing.

Quando voltou para os Estados Unidos, em 1939, Hawkins estava pronto para criar sua obra-prima, a famosa gravação de Body and Soul, nos estúdios da RCA, em Nova York, no dia 11 de outubro. São três minutos em que, acompanhado por sua orquestra, discretamente ao fundo, ele tece variações em torno do conhecido standard. A melodia tem uma história curiosa: composta em 1930 por quatro autores (Heyman, Sour, Eyton e Green), era o número mais fraco do musical Three’s a Crowd, até que recebeu um novo arranjo e virou uma sensação da noite para o dia. Assim que a versão de Coleman Hawkins foi lançada em disco, tornou-se uma das gravações de jazz mais vendidas de todos os tempos. O próprio Hawkins teve uma reação ambígua em relação ao seu sucesso. “Eu sempre toquei assim! Por que toda essa agitação?”. Já na era do jazz moderno, alfinetou os saxofonistas da sua época: “Quando o disco saiu, todo mundo, até Chu Berry, disse que eu toquei as notas erradas. Ignoravam certas inovações que hoje são coisa comum”.

Poucos sabem, mas Coleman Hawkins relutou muito em gravar Body and Soul naquele 11 de outubro de 1939, e só o fez no último minuto, para concluir a sessão. Um crítico a definiu como “indiscutivelmente um dos marcos na história das gravações de jazz, figurando entre um pequeno punhado de discos perfeitos”. Outro contabilizou que, passados 6.500 dias da data da gravação, Hawkins havia tocado Body and Soul pelo menos 6.600 vezes, “recusando-se sempre a lembrar qualquer frase do solo improvisado original”.

Um crítico escreveu: “Tivesse se aposentado no momento em que tirou o saxofone da boca no final de Body and Soul, ele teria garantida a fama duradoura como um dos maiores músicos do século 20”. Coleman Hawkins viveu mais 30 anos depois da sua consagração com a canção, trilhando sempre novos caminhos. Participou das primeiras gravações do bebop ao lado de Dizzy Gillespie. Em 1947, gravou o primeiro solo de saxofone sem nenhum acompanhamento, que intitulou Picasso, uma improvisação livre de mais de três minutos baseada na sequência de acordes de – adivinhem! – Body and Soul. Nos anos 50, tocou com modernistas como Thelonious Monk e John Coltrane. Nos anos 60, fez um álbum de duetos/duelos com o sax-tenor Sonny Rollins. Cannonball Adderley, que tocava sax-alto, contou certa vez: “Um jovem sax-tenor queixava-se para mim que Coleman Hawkins o deixava nervoso. Cara, falei para ele, Hawkins devia mesmo deixá-lo nervoso. Hawkins vem deixando os outros saxofonistas nervosos há 40 anos!”.

Coleman Hawkins veio ao Brasil em 1961, para um festival de jazz nos Teatros Municipais do Rio e de São Paulo, reunindo músicos americanos e brasileiros, e gravou no ano seguinte um álbum de jazz-samba, Desafinado. Visitando a Bélgica numa comemoração na cidade natal de Adolphe Sax, Dinant, ele gravou novamente um solo de sax-tenor desacompanhado e, dessa vez, o intitulou Dali. O saxofonista francês Alix Combelle assim definiu Hawk: “Ora como uma catedral. Saía uma tal potência daquele instrumento, uma qualidade, um veludo, um volume… A gente tinha a impressão de que Hawkins estava lá dentro! Geralmente, há uma separação entre o solista e o instrumento, mas, no caso dele, parecia que o som saía do próprio homem”.

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