Serenata para um búfalo aquático

Roberto Muggiati recorda a reunião metafísico-musical de Raul de Souza com um representante da espécie Bubalus bubalis, um búfalo indiano ou búfalo aquático, ocorrida no meio da noite no Passeio Público de Curitiba

Raul de Souza está lançando disco novo. Agora, prestes a completar 85 anos em 2019 (e 65 de carreira musical), ele apresenta Blue Voyage (Selo Sesc), CD com oito faixas só de inéditas que foi gravado na sala Maison des Artistes, na cidade de Chamonix, próximo a Mont Blanc, na França, em março de 2017.

Roberto Muggiati ,responsável pelo texto do encarte, lembra; “Conheci Raul de Souza na noite curitibana há 60 anos, quando começava sua carreira. Hoje, aos 84, ele tem – mais do que nunca – cabeça e fôlego para compor e soprar todas as faixas de um CD. Cada vez mais lírico e apaixonado pela música”.

A seguir, o texto de 2008 em que Muggiati celebra sua amizade com o trombonista e recupera uma das mais fantásticas histórias do folclore musical brasileiro. (Márcio Pinheiro ) 

Para ser lido ao som de Colors, de Raul de Souza

Arte: Daniel Kondo

Da Pavuna para o mundo. Esta é a história de João José Pereira de Souza, nascido em 1934 no Rio de Janeiro, que começou tocando pandeiro na igreja do pai, pastor presbiteriano, soprou tuba na Banda da Tecelagem Bangu, onde trabalhava, tentou trompete, flauta e saxofone antes dese decidir pelo trombone, inicialmente um trombone de válvula ou de pisto e,depois, o trombone de vara. Já tocava como gente grande na última década da erado rádio, os anos 1950, quando a oportunidade de aparecer passava pelos programas de calouros. Brilhou no de Ary Barroso e ali ganhou seu nome artístico. “João José não é nome de trombonista”, decidiu Ary. “Já temos o Raulzão (Raul de Barros). Você vai ser o Raulzinho.” Apesar de eleito o melhor trombonista de 1957, Raul não conseguia emprego e seguiu o exemplo de uma dezena de músicos cariocas que haviam se mudado para Curitiba e ingressado na banda da Base Aérea do Bacacheri, envergando uniforme da Aeronáutica e tudo.

Os cinco ou seis anos que passou em Curitiba foram de definição para sua carreira. A partir daí, fazendo escala no João Sebastião Bar, o reduto da bossa nova em São Paulo, Raul estava de volta ao Rio, tocando no sexteto Bossa Rio, de Sérgio Mendes, que o levou na primeira excursão pela Europa. Depois do primeiro álbum, lançado em 1965, Raul voltou a Paris, atuando com o baterista americano Kenny Clarke. Trombonista do RC7 – a banda que acompanhava Roberto Carlos – Raul chegou a aparecer até no filme Em Ritmo de Aventura. Fez parte do Impacto 8, mas sentia sua arte estagnada no Brasil de fins dos anos 1960 e se mudou para o México, onde passou três anos. Um telefonema de Airto Moreira e de Flora Purim fez Raul trocar Acapulco por Los Angeles e, na companhia de Airto e Flora, pegar a estrada abrindo os shows para a turnê dos Crusaders. Em 1974, Raul lançou o álbum Colors, na Milestone, um importante selo de jazz, com arranjos do seu grande ídolo, o trombonista J. J. Johnson, e a participação do saxofonista Cannonball Adderley. A partir daí, trabalhou com feras como o vibrafonista Cal Tjader, o saxofonista Sonny Rollins e o tecladista George Duke, que produziu dois álbuns de Raul, de grande sucesso, Sweet Lucy (1977) e Don’t Ask My Neighbours (1978).

Um telefonema de Airto Moreira e de Flora Purim fez Raul trocar Acapulco por Los Angeles e, na companhia de Airto e Flora, pegar a estrada abrindo os shows para a turnê dos Crusaders. Em 1974,Raul lançou o álbum Colors, na Milestone, um importante selo de jazz, com arranjos do seu grande ídolo, o trombonista J. J. Johnson, e a participação do saxofonista Cannonball Adderley. A partir daí, trabalhou com feras como o vibrafonista Cal Tjader, o saxofonista Sonny Rollins e o tecladista George Duke, que produziu dois álbuns de Raul, de grande sucesso, Sweet Lucy (1977) e Don’t Ask My Neighbours (1978).

Depois de uma temporada em Boston, à espera de uma prometida verba que nunca apareceu para estudar composição no Berklee Collegeof Music, Raul instalou-se em Los Angeles, onde fundou sua editora musical e patenteou o souzabone, um trombone diferente que ele concebeu. Escolhido entre os melhores trombonistas do ano pelos leitores da revista Down Beat, Raul virou também verbete da famosa Encyclopedia of Jazz in the 70s. Vivendo em Paris nos últimos anos, Raul de Souza continua lançando discos, fazendo shows e participando dos grandes festivais de jazz do mundo; planeja ainda criar uma fundação com o objetivo de ensinar música acrianças e formar os profissionais do futuro.

A temporada que passou em Curitiba foi crucial para Raul.No Rio, deixou a primeira mulher com dois filhos; em Curitiba, encontrou a segunda mulher, com quem teve outros dois filhos. Na Base Aérea do Bacacheri, ensaiava música o dia inteiro, marchas e dobrados marciais. Queria tocar algo mais instigante,como o jazz, e incursionava na noite curitibana com a farda azul e o trombone de pisto para tocar em boates e dancings. O comandante da base do Bacacheri, coronel Peralta (o sobrenome tinha tudo a ver com a figura), gostava de música e de festas e estimulou a criação de uma orquestra de dança formada por músicos da base, a Orquestra 14 Bis, que atuou com sucesso por algum tempo. Mas a música que se fazia na noite curitibana era descartável e não aquele jazz de acordes e improvisos complexos que Raul entreouvira em alguns discos modernos. Ainda nos tempos em que treinava para os concursos de calouros, ouviu um comentário do cantor Jamelão que nunca mais esqueceria: “Rapaz, você toca trombone muito bem,mas o que está tocando não é comercial. Toque alguma coisa carioca, que todo mundo conheça e goste”.

A essa altura, o amigo carioca do Raul, Edson Maciel (Maciel Maluco, e o apelido também tinha tudo a ver), baixou em Curitiba comseu trombone de vara (mais mulher, cachorro e outras tralhas, que incluíam umarsenal de estimulantes e estupefacientes químicos, além da adocicada “erva da vida”). Trombone de vara e trombone de pisto formam um duo imbatível, que lembra a grande dupla de trombones do jazz da época, J. J. & K (oafro-americano J. J. Johnson e o dinamarquês Kai Winding). Raul e Maciel se completam e fogem da música “comercial” tocando para as árvores, para os postes e para os bustos de personagens ilustres, como o do reitor da universidade e odo barão do Rio Branco, no alto da rua do mesmo nome. Lances insólitos rolam na madrugada curitibana: se parece natural o Raul dar canja no trabalho do Maciel – que toca no dancing Caverna Curitibana –, não parece nada natural o Raul levar o Maciel, depois de uma longa noitada, para dar canja no ensaio matinal da banda da Base Aérea, tocando um dobrado, o Maciel à paisana em meio àquele mar de uniformes azuis.

Foi nessa época que ocorreu o episódio do búfalo, a reunião metafísico-musical de Raul com um representante da espécie Bubalus bubalis, um búfalo indiano ou búfalo aquático, ocorrida no meio da noite no Passeio Público de Curitiba, por volta de 1961. Transcrevo o relato de Adherbal Fortes de Sá Jr., no livro Vestido Branco: A Aventura Musical, um panorama na noite curitibana nos anos 1950-60:

“A preocupação com os colegas músicos nunca saiu da cabeça do Raul. Uma noite, depois de ter tocado na Boate Tropical, no Passeio Público, sentou numa cadeira de ferro, lá fora, e ficou pensando em como ajudar outro amigo, Figo Seco. Como é que pode, um cara daqueles, o tempo inteiro estudando música, compondo, ensaiando trompete, sem dinheiro para comer? Raul matutava. Para pensar melhor, tirou do bolso uma charula daquelas. Enquanto fumava, olhou para os pedalinhos e decidiu: vou até lá saber por que é proibido ultrapassar.

Desamarrou um pedalinho e dirigiu a embarcação para o meio do lago. Começou a tocar. De repente, aparece a cabeça chifruda de um búfalo,que desce a rampa e entra na água. Raul tocando e olhando para o búfalo, o búfalo vindo em direção ao Raul. Vinha de mansinho, até que parou e ficou lá, encarando. Então Raul se descontraiu e improvisou. Jura que eles ficaram amigos de cara. Por isso, quando terminou de tocar, despediu-se gentilmente do búfalo. Deu marcha à ré no barco e quando olhou para trás viu o animal voltando para casa, subindo a rampa que havia descido para ouvi-lo tocar.

– Porra, toquei prum búfalo, mas isso é incrível.

Raul saiu do Passeio Público, entrou no primeiro bar que encontrou aberto e foi avisando aos presentes:

– Hoje encontrei meu melhor amigo: um búfalo.

– Búfalo, às seis da manhã?

Todo mundo queria saber que bolinha Raul tinha tomado para estar tão doidão. Neste dia, de tão emocionado, ele nem foi para o quartel: aquela tinha sido uma madrugada para lá de memorável, precisava ser muito bem guardada”.

Com a passagem do tempo, a história virou lenda e ganhou uma infinidade de versões. Raul imortalizou o “amigão” na faixa Water Buffalo do álbum Colors. Críticos americanos escreveram que Raul havia tocado com os búfalos da Amazônia, onde ele nunca esteve. Nem mesmo o próprio Raul lembra ao certo como foi. Dizem que não era um búfalo, mas uma búfala; ou um casal de búfalos; que o mamífero ruminante respondia com mugidos aos sons do trombonista; que Raul voltou ao lago várias vezes para trocar improvisos com o búfalo e que as frases de ambos se tornavam cada vez mais ricas e complexas. Na cerração das longas madrugadas curitibanas daqueles tempos remotos, tudo era possível. E a lembrança dos duetos com o búfalo do Passeio Público persistiu na memória de Raul, alimentando sua imaginação musical ao longo dessas cinco décadas de carreira vitoriosa.

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