Enquanto tu achar graça, tá bom

Reinaldo Figueiredo libera um furo (ops) de reportagem e conta com exclusividade para a AmaJazz a verdadeira história da Companhia Estadual de Jazz, que coloca João Coltrane e John Donato (ou será o contrário?) no mesmo Samba-Jazzificator System

Para ser lido ao som da Companhia Estadual de Jazz ao vivo no Programa Instrumental Sesc Brasil

(Foto: Aloizio Jordão/Divulgação)
Com todo gás: Companhia Estadual de Jazz (Foto: Aloizio Jordão/Divulgação)

Neste ano de 2018, a CEJ (Companhia Estadual de Jazz) comemora 20 anos de fundação e, atendendo a inúmeros pedidos do gerente-geral da AmaJazz, vou tentar lembrar aqui como tudo começou e, se a memória ajudar, alguma coisa do que aconteceu depois.

Mas, antes de continuar, tenho que fazer um esclarecimento importante. Nosso grupo de samba-jazz é tão carioca que seu nome só é compreendido aqui no Rio de Janeiro. CEJ (Companhia Estadual de Jazz) é um trocadilho com CEG (Companhia Estadual de Gás), que é a empresa responsável pelo fornecimento de gás no Rio e em outras cidades do nosso estado. E, além disso, para que o trocadilho funcione, a palavra “jazz” tem que ser pronunciada com um sotaque carioquíssimo: “jás”, rimando com “gás”. Conclusão: essa piada só faz sentido para o público da nossa região, e isso cria um enorme problema de comunicação quando temos que fazer turnês internacionais, com apresentações em São Paulo, Belo Horizonte ou Búzios, aquela cidade argentina.

Atualmente a CEJ é um quarteto, formado por Sergio Fayne no piano, Fernando Clark na guitarra, Chico Pessanha na bateria e o locutor que vos fala no contrabaixo. Mas nem sempre foi assim.

Tudo começou bem antes de 1998, quando eu tocava baixo elétrico no show musical do Casseta & Planeta. O baterista do show, Robertinho Freitas, um dia me chamou para fazer um som na casa de um amigo dele, o pianista Sergio Fayne. O Sergio e eu nos entendemos muito bem e vimos logo que tínhamos o mesmo gosto musical. Antes de optar pelo o piano, ele foi flautista, acompanhando Tom Jobim, nos anos 60, num quarteto de flautas que incluía também Danilo Caymmi, Paulo Jobim e Paulo Guimarães.

Ao longo de várias jam sessions na casa do Sergio Fayne, foi se juntando uma turma que acabou sendo a primeira formação da CEJ: Sergio no piano, Chico Pessanha na bateria, Guilherme Vianna no sax tenor e flauta, André Barion na guitarra e eu no baixo elétrico.

A estreia da CEJ foi em 1998, num bar chamado Santa Fé, localizado no centro do Rio de Janeiro, mais exatamente no Arco do Teles, recanto que era famoso por um motivo: foi lá, num sobrado, que morou a família de Carmen Miranda, nos anos 20 e 30. Depois dessa primeira experiência, fomos tocar num bar em Botafogo que tinha um nome auspicioso: Satchmo, o apelido de Louis Armstrong. Tocamos lá uma vez por semana durante três anos, desde a inauguração até o dia em que fechou as portas. Mas não fechou por nossa causa. Como sempre, a culpada foi a crise.

Com esse quinteto foi gravado o primeiro CD da CEJ, lançado no ano 2000. Nas participações especiais estavam Guilherme Dias Gomes no trompete, Guta Menezes na harmônica, Leo Leobons na percussão e Jean-Pierre Zanella, um dos melhores músicos de jazz do Canadá, no sax soprano. O texto do encarte era do quase famoso crítico de jazz da revista Down Bitch, Leonard Plume. E era assim:

“Fiquei surpreso quando os caras da Companhia Estadual de Jazz me procuraram para pedir que eu escrevesse o texto do encarte do seu primeiro CD. Eu não sabia que um grupo de jazz do Terceiro Mundo seria capaz de pagar o que um crítico mundialmente famoso como eu cobra por esse tipo de trabalho. Mas como eles disseram que não seria necessário ouvir a música, eu fiz um preço especial. (Normalmente meus honorários são na faixa de 15 dólares, mas nesse caso eu fiz por apenas 9,99.) Então, pelo telefone, eles tentaram me dar uma ideia de como é o CD. Pelo que entendi, esse quinteto do Rio toca num estilo que poderia ser chamado de hard-bop-samba-jazz, uma mistura de standards do jazz e standards brasileiros, um tipo de jazz quente e tropical, espada e matador. Estas últimas palavras elogiosas estou dando de graça só porque outro dia, em New York, estava almoçando com o Claudio Roditi (ele pagou a conta) e o grande trompetista brasileiro me garantiu que este grupo é ‘OK’, o que, na sua língua nativa, significa o.k. É isso aí. Mais de 200 palavras. Está bom demais. O que eles queriam por esse preço?” 

O tempo passou e, em 2007, lançamos o segundo CD, chamado Via Bahia, já com uma formação diferente: a guitarra agora ficava por conta do Fernando Clark, e eu atacava no contrabaixo. No comecinho do século 21, incentivado pelo Paulinho Albuquerque, eu já tinha me aventurado a empunhar o contrabaixo de verdade, o chamado “baixo de pau”, ou “maria gorda”, ou “violino de elefante”, ou também, o apelido mais curioso,  “dog house”.

Este segundo CD teve participações especiais de Gabriel Grossi na harmônica, Paulinho Trompete, Jean-Pierre Zanella no sax soprano e o grande percussionista Don Chacal, uma figuraça que infelizmente não está mais neste planeta desde 2011.

Depois da segunda participação no Festival de Montreal, em 2009, o grupo mudou de cara mais uma vez. A crise que se abateu sobre várias grandes empresas atingiu também a CEJ, e a Companhia Estadual de Jazz passou por processos de remanejamento de pessoal e downsizing, sendo transformada num quarteto, com a formação atual.  

Nesses anos todos, a CEJ seguiu tocando nos bares da vida. E também em centros culturais e em alguns eventos muito especiais, como o Festival Internacional de Jazz de Montréal, no Canadá (em 2000 e em 2009), o Festival Blues & Jazz, em Búzios, o projeto Sesc Instrumental, em São Paulo, e no festival de culinária Rio Gastronomia, no MAM, onde apresentamos  nosso show Cardápio, com o melhor da música gastronômica, para ser degustada pelos ouvidos. O menu incluía Água de BeberA RãCanção do SalO PatoThe ChickenFeijoada CompletaCafé Com Pão,Watermelon ManChitlins Con Carne, o Ovo, do Hermeto Pascoal, e muitas outras iguarias.

A CEJ continua por aí, sempre fazendo o seu jazz brasileiro, um som que tem tudo a ver com Tom Jobim, Dizzy Gillespie, João Donato, Horace Silver, Mauricio Einhorn e Moacir Santos. E, além dos músicos que participaram dos CDs, nas nossas apresentações também já pintaram, para dar uma canja ou fazer participação especial, figuras como Claudio Roditi, Carlos Malta, Vittor Santos, Marcos Amorim, José Carlos Bigorna, Red Sullivan, Mike Ryan, Josiel Konrad, Mike Tucker e Leo Gandelman. Na bateria já tivemos Erivelton Silva, Paulinho Diniz e Rodrigo Dias. No piano, Itamar Assiere, Alfredo Cardim, Vanessa Rodrigues, Adaury Mothé e Natan Gomes. É mole?  Apesar de ser um grupo fundamentalmente instrumental, a CEJ também já dividiu o palco com as cantoras Alma Thomas e Giovana Adoracion. E o time de amigos baixistas só tem fera: Sergio Barrozo, Tony Botelho, Arthur Maia, Ney Conceição, Ricardo Villa, Lipe Portinho e Alex Rocha. Muitos desses já foram meus substitutos, quando eu não pude estar lá.

É isso. Como dizem Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Regina Werneck no título daquele hino do samba-jazz: “Estamos aí…”. E, para lembrar outra figuraça da nossa música, quero citar aqui uma frase do grande baterista Wilson das Neves. No caso, ele estava se referindo ao tempo que uma música deve durar num show improvisado, mas a frase serve para a música, para a carreira, para a vida, para tudo: “Enquanto tu achar graça, tá bom”.

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