Um dia meu príncipe virá

Eduardo Osório Rodrigues lembra a trágica trajetória de Frances Taylor, a primeira mulher de Miles Davis

Para ser lido ao som de Someday My Prince Will Come com Miles Davis

Se o amor é ferida que dói e não se sente, como cantou o poeta, Frances Taylor desceu às sombras com várias cicatrizes. Musa inspiradora e primeira mulher do trompetista Miles Davis, Frances morreu no sábado, aos 89 anos. A causa não foi informada pela família.

Casada por oito anos com um músico irascível, arrogante e genial, Frances revelou-se uma mulher estoica ao suportar quase tudo: o ciúme doentio, as agressões verbais e a violência física de Miles que, à luz do dia, era Dr. Jekyll e, à noite, mostrava sua porção Mr. Hyde.

Viveram juntos de 1958 a 1965, mas ela só obteve o divórcio em 1968. O vício em drogas e álcool do marido foi a gota d’água em um copo que já havia transbordado há tempos. Mas houve compensações no caminho. Negra, bonita e charmosa, Frances Taylor estava em ascensão na carreira de bailarina quando conheceu Miles, sua música e tudo mudou.

Além de integrar o elenco original de West Side Story, espetáculo da Broadway, conduzido por Leonard Bernstein com Stephen Soudheim ao piano, Frances já havia dançado na abertura de um show da banda do clarinetista Benny Goodman, no Hollywood Palladium, em 1953. Seu talento não tinha limites nem fronteiras. Foi a primeira negra da escola da coreógrafa Katherine Dunham a se apresentar com o Balé da Ópera de Paris.

Seu currículo registra ainda apresentações ao lado de Sammy Davis Jr, no filme Porgy and Bess, e como dançarina em uma participação de Elvis Presley no Ed Sullivan Show. Seu nome, porém, será eternamente associado ao Príncipe Cool do Jazz. Em sua autobiografia, Miles admitiu: “Toda vez que eu batia nela, eu me sentia mal porque não era culpa dela. Tinha a ver comigo”. Apesar das brigas, que eram constantes, o casal chamava a atenção pelo estilo. Eram bonitos, vestiam-se bem, rendiam flashes e manchetes.

Aquele fiapo de voz rouca que soava quase como um ruído devia ter os seus segredos e encantos. Miles a homenageou lindamente obrigando a Columbia Records a colocar sua foto em três capas de discos. Frances aparece em Someday My Prince Will Come (1961), Miles Davis — In Person Friday and Saturday Nights at The Blackhawk (1961) e em E.S.P. (1965).

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