Genialf

Johnny Alf foi um dos grandes compositores brasileiros e um bossanovista muito antes da bossa nova

Para ser lido ao som de Ilusão à Toa
Foto: Domínio público/Wikicommons
Foto: Domínio público/Wikicommons

Johnny Alf dizia que quando se sentava ao piano era sempre como se fosse a primeira vez. Para o público de Porto Alegre houve mesmo uma primeira (e única) vez. Foi quando ele aqui se apresentou à frente de um trio, o baixista Marcos Souza e o baterista Ramon Montanhaur, e desfilou um repertório com algmas das mais de belas composições de sua autoria: O Que É AmarFim de Semana em EldoradoRapaz de BemSeu Chopin DesculpeIlusão à Toa e, naturalmente, Eu e a Brisa.

Esta primeira vez foi temperada por milhares de outras noites.

Nome das “internas” da MPB, Johnny Alf estava com 74 anos e havia pelo menos cinco décadas sempre era ouvido com atenção por quem fazia música. Por isso, era possível notar influência em artistas tão variados quanto Emílio Santiago, Wilson Simonal, Elza Soares, Claudette Soares, Sandra de Sá e Leny Andrade. Com toda essa trajetória, Johnny Alf tinha uma discografia relativamente pequena para o tamanho e a influência da sua música. São menos de dez compactos e LPs, ainda dos anos 50 e 60, que receberam o acréscimo nos últimos 13 anos de alguns CDs (dois gravados ao vivo, além de um em homenagem a Noel Rosa e o excepcional Olhos Negros, de 1991, em que ele tinha como convidados Gal Costa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sandra de Sá etc).

Influenciado por Dick Farney – não só pela maneira de tocar e cantar, mas também pelo fato de trocar o Alfredo José de batismo pelo Johnny Alf artístico –, Alf estava no nascimento da bossa nova, mas sempre correu em faixa própria. Ronaldo Bôscoli dizia que Johnny Alf “era bossa nova desde o dia em que nasceu”.

Nascido no Rio de Janeiro em maio de 1929, Alf começou a aprender piano clássico aos nove anos e logo demonstrou interesse por George Gershwin e Cole Porter. No final dos anos 40, passou a frequentar o Sinatra-Farney Fan Club, onde conheceu Tom Jobim, Nora Ney e Luís Bonfá. Trabalhou no programa do radialista César de Alencar e logo depois fez todos o circuito das boates cariocas (Monte Carlo, Mandarim, Clube da Chave, Drink e Plaza).

No final dos anos 50, Alf se mudou para São Paulo passando a se apresentar na boate Baiuca e no bar Michel. “Vivo na Mooca. Me identifico muito com São Paulo, cidade em que moro há mais de 40 anos. Vim para trabalhar no começo dos anos 50 e fui ficando. Gosto muito da seriedade e do profissionalismo dos paulistas, embora sempre tenha muita alegria em me apresentar no Rio, onde os amigos da vida inteira sempre vão me prestigiar”, me disse ele em uma entrevista em 2003.

O perfil retraído, discreto, também interferiu em sua carreira. Em 1961, recebeu convite do compositor Chico Feitosa para tocar no Carnegie Hall, em Nova York, mas não viajou, preferindo ficar em São Paulo, atuando também como professor de música do Conservatório Meireles. Pelos quase 50 anos seguintes, a discrição foi uma das suas maiores marcas – só superada pelo seu refinamento musical. Johnny Alf morreu em março de 2010, vítima de um câncer de próstata. Tinha 80 anos.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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