A última sessão de jazz

A morte de Roy Hargrove inspira dois textos de despedida: o de Roberto Muggiati, lembrando o trompetista na derradeira noite do Mistura Fina, no Rio, e o de Eduardo Osório Rodrigues, que recorda a apresentação do músico em Porto Alegre

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Foto: Ice Boy Tell/CC BY-SA 4.0/Wikimedia Commons

No Rio

Roberto Mugiatti
Para ser lido ao som de Roy Hargrove em Speak Low 

“Um dia emblemático”, diria o filósofo de plantão: 14 de fevereiro, Valentine’s Day, o Dia dos Namorados, que inspirou My Funny Valentine, canção da dupla Rodgers & Hart, eternamente associada ao trompetista e vocalista cool & cult Chet Baker. Mas os vocais e o trompete nesta noite – a última do Mistura Fina, tradicional casa de shows que fechou as portas depois fazer história na noite carioca – estão a cargo de uma geração mais jovem: a cantora Roberta Gambarini (italiana radicada nos EUA) e o trompetista Roy Hargrove. Eles se conheceram na big band de Dizzy Gillespie e nos últimos anos montaram um programa duplo imbatível nos principais clubes e festivais de jazz do mundo.

Nesta noite, promoveram seus novos CDs, ela So In Love; ele, Earfood. No Mistura Fina, a rotina (se é que existe “rotina” no jazz…) foi esta, em quatro dias de apresentação: Roberta abria com o trio rítmico de Roy – o veterano John Lee (15 anos com Dizzy) e seu baixo portátil, leve como uma guitarra, mas sonoro como qualquer baixo acústico; e os jovens Joe Holmes (debaixo dos dreadlocks dos seus cabelos mora um exímio pianista moderno), e Montez Coleman, um baterista versátil, suave nas vassourinhas e um dínamo nos andamentos mais fortes. A seguir, Roberta cede o palco para Roy (trompete e flugelhorn) e Justin Roberts (sax alto).

Não há uma distinção precisa de instrumental e vocal entre os dois. Roberta incursiona pelos scats, usando a voz como um instrumento de sopro, imitando um trompete, que poderia ser o de Hargrove, em Estate, com as mãos em concha sobre o microfone. E, inversamente, Roy aparece quase como um cantor em baladas executadas ao cálido flugelhorn, como Speak Low e Never Let Me Go. Ele segue o sábio Axioma de Lester Young, de que todo instrumentista de jazz, ao tocar um standard, deveria conhecer a letra para impor o máximo de expressividade à canção. O velho sax-tenor Lester viajava sempre com uma vitrola portátil e uma coleção de discos de Sinatra.

Havia mais, ainda, nesta noite “emblemática”. Era a data exata proclamada pelos “malucos-beleza” da década de 60 para o ingresso da humanidade na Era de Aquário: “Quando a Lua estiver na sétima casa e Júpiter se alinhar com Marte, a paz guiará os planetas e o amor moverá as estrelas.” E, ainda mais, à meia-noite os relógios atrasariam, devolvendo aos brasileiros aquela hora roubada em 19 de outubro de 2008.

O jazz sempre se preocupou muito com o tempo. O set de Roberta começa com Day In, Day Out, uma canção de fossa que diz: “dia vai, dia vem, não preciso dizer como meu dia começa…” Estate, que ela aprendeu em Milão com o autor da canção, Bruno Martino, conta uma história de amor que nasce e morre no verão, e termina com raiva: “Oddio l’estate/ Odeio o verão!”

Exímia garimpeira de repertório, Roberta pesca uma canção americana de 1916 inspirada na ópera de Puccini, Poor Butterfly; “The moments pass into hours, the hours pass into years/ Os momentos passam em horas, as horas passam em anos”. O tempo também está presente nas letras invisíveis das baladas que Roy toca ao fluegel, como em Never Let Me Go: “There’d be a thousand hours in a day without you, I know/ Haveria mil horas num dia sem você, eu sei.” E, mais do que nunca, no clássico Speak Low, música de Kurt Weill e letra de Ogden Nash: “Time is so old and love so brief, love is pure gold and time a thief / O tempo é tão velho e o amor tão breve, o amor é ouro puro e o tempo um ladrão”. Em Speak Low, que começa com a frase Speak Low when you speak love, Ogden Nash foi buscar inspiração em outro poeta, Shakespeare, que escreveu em Much Ado About Nothing (1600): “Speak low if you speak love/ Fale baixo se fala de amor.”

“Depois que esteve no Mistura Fina,” confessa Roberta, “você sente saudade para sempre.” Não só os músicos, os jazzófilos também. As horas passam lá fora, o show se reflete nos janelões entremeado com as palmeiras do Arpoador, assim como os shows do antigo Mistura se refletiam nas amendoeiras da Lagoa. E o tempo – este “Grande Ladrão” – leva tudo embora, mas os sons fugazes e perenes do jazz, acabam ficando para sempre na memória.

Em Porto Alegre 

Eduardo Osório Rodrigues
Para ser lido ao som de Roy Hargrove em Autumn Leaves

No feriado de Finados, o mundo do jazz perdeu aquele que é considerado o melhor trompetista de sua geração: Roy Hargrove, um dos young lions da década de 90 – grupo de músicos jovens de formação complexa e reverentes à tradição. Hargrove morreu sexta-feira de parada cardíaca decorrente de problemas renais que enfrentava há anos. Tinha 49 anos.

Como o flautista de Hamelin, ele usou seu instrumento para criar melodias mágicas, hipnotizar seguidores e extirpar o mal que entope nossos ouvidos. Em agosto de 2017, o trompetista se apresentou pela primeira vez em Porto Alegre. Veio ao Instituto Ling acompanhado de seu grupo e da ótima cantora italiana radicada nos Estados Unidos, Roberta Gambarini. Uma noite memorável.

Maduro e rodado, com cerca de 20 discos gravados como líder, além de participações em dezenas de outros álbuns que destacam sua versatilidade, Hargrove seguia exibindo maestria no trompete e, sobretudo, no flugelhorn, que dominava como poucos, especialmente nas baladas (Speak LowNever Let Me Go).

Texano de Dallas, Hargrove trilhou o caminho certo. Se formou no influente Berklee College of Music e começou a chamar atenção acompanhando Sonny Rollins e Jackie McLean. Hargrove fazia aquela música capaz de emocionar a plateia. Às vezes, é levemente funk, suingada e melódica. Nas faixas de andamento mais lento, era introspectivo e misterioso. Gravou discos excelentes em que mostrava a técnica impecável desenvolvida e aprimorada em anos de estudo. Entre eles, destaco: Aproaching Standards (1994), With The Tenors Of Our Time (1994), Parker’s Mood (1995) e Earfood (2008).

O trompetista ganhou dois prêmios Grammy, em 1997 e 2002, trabalhava em vários projetos e gostava de tocar com várias formações, de trios a orquestras.

Roy Hargrove deixa a mãe, Jacklyn; a esposa, Aida; a filha, Kamala; e o irmão, Brian.

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