Luto no jazz

Outubro tem sido um mês aziago. Num espaço de apenas quatro dias, dois dos melhores nomes da vanguarda se foram. Não há registro e provavelmente nunca tocaram juntos, mas ambos foram decisivos na abertura de novos caminhos para a música contemporânea

Para ser lido ao som de Long, Long Summer com Jerry González & El Comando De La Clave
Giant Steps com Hamiet Bluiett e Kahil El’Zabar Ritual Trio
Foto: Jerry Gonzalez/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons
Foto: Jerry Gonzalez/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons

O primeiro foi Jerry González, inovador do jazz latino, morto aos 69 anos no primeiro dia do mês, em Madri, cidade que havia escolhido para viver há 18 anos. A capital espanhola foi seu lar porém Gonzalez era um típico representante daquilo que Nova York tinha de mais cosmopolita. Nascido em 5 de junho de 1949, em Manhattan, Gerald Antonio González era de uma família de origem porto-riquenha e cresceu no Bronx. Seu pai, também Geraldo, foi cantor e esteve à frente de grupos durante as décadas de 50 e 60. Em casa, Jerry ouvia Machito, Tito Rodríguez, Cortijo e Su Combo, Tito Puente. Todos seriam decisivos na sua opção pelo trompete e, mais ainda, pelas congas.

Aos 21 anos já tocava com Dizzy Gillespie e, logo depois, passaria a integrar a banda de Eddie Palmieri. Os dois seriam a base que garantiria a Jerry criar, ao lado do irmão, Andy, a Fort Apache Band. Ali ele podia juntar influências de Cuba, Porto Rico, África, Mongo Santamaria, John Coltrane, James Brown, Thelonious Monk (a quem dedicou um disco inteiro) e muito mais para criar sua própria música, que, claramente, tinha a cara de Nova York.

A partir dos anos 2000, na Espanha, Jerry aproximaria-se do flamenco e comandaria outros dois grupos – Los Pirates del Flamenco e El Comando de La Clave – com quem manteria-se ativo até morrer. Uma morte que o alcançou ainda em pleno processo criativo e que teve uma causa tão surpreendente quanto trágica: inalação de fumaça durante um incêndio em sua casa. Uma triste ironia que o ar viesse a faltar para um homem que transformava o sopro em arte.

Foto: Andy Newcombe Farnborough/CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commons
Foto: Andy Newcombe Farnborough/CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commons

Do sopro também vinha a música de Hamiet Bluiett, pioneiro do saxofone barítono, que morreu aos 78 anos, no dia 4.

Sua música não era alegre e suingada como a de Jerry, era mais hermética e cerebral. As raízes estavam no blues, no gospel e, a partir dos anos 60, no free de Coltrane e Ornette. Seu instrumento era o sax barítono, o mais misterioso dos saxes, sem a agilidade esguia do soprano, sem o charme e a versatilidade do alto e do tenor – embora Bluiett dominasse todos eles e também o clarinete. Com o barítono, Bluiett expandiu as possibilidades do instrumento ao conectá-lo com a vanguarda. Bluiett foi ainda um homem de extremos musicais, capaz tanto de comandar grandes grupos quanto de improvisar em performances-solo, às vezes por até 40 minutos.

Hamiet Ashford Bluiett Jr. nasceu em St. Louis em 16 de setembro de 1940, filho de Hamiet e Deborah (Dixon) Bluiett. Começou a tocar piano aos quatro anos e descobriu o barítono na adolescência. Sua maior influência foi Harry Carney, o sax-barítono da orquestra de Duke Ellington.

Em 1969, Bluiett mudou-se para Nova York, juntando-se à orquestra do saxofonista Sam Rivers. Em 1974, tornou-se membro de uma das últimas bandas formadas por Charles Mingus. Esta fase coincidiria com suas primeiras gravações como líder e também serviria para projetá-lo na cena jazzística, quando então daria sua grande contribuição musical: o World Saxophone Quartet.

Criado em 1976, o quarteto foi um dos grupos de jazz mais bem sucedidos das décadas de 70 e 80. Além de Bluiett, integravam a formação original os também saxofonistas David Murray, Julius Hemphill e Oliver Lake, todos jovens figuras notáveis da chamada cena loft-jazz de Nova York – o jazz surgido na região do SoHo e que reunia representantes da vanguarda de Chicago (Association for the Advancement of Creative Musicians, AACM) e St. Louis (Black Artists Group, BAG).

Por 20 anos, Bluiett seria um nome expressivo da vanguarda, gravando intensamente (só em seu nome deixou mais de 50 discos) e participando de festivais e workshops. Nos últimos anos, já com a saúde debilitada, Bluiett daria um tempo nos concertos e turnês, fixando-se em Brooklyn, Illinois, próximo da família e dedicando-se às aulas e à formação de novos músicos.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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