Imagem do improviso

O desenho é a técnica e o jazz é a ferramenta para detonar ideias gráficas

Para ser lido ao som de Gabor Szabo em Dreams

poajazz cartazes

Gilmar Fraga é conselheiro master, vitalício e apoiador da AmaJazz desde muito antes do surgimento do site. É também – e principalmente – um amigo inteligente e divertido que me dá a honra de sua companhia há quase duas décadas. Com ele, dividi cafés, conversas, almoços, jantares, charutos, réveillons e infinitas horas de música. Agora, esse talentoso parceiro foi escolhido por Carlos Badia, outro conselheiro da AmaJazz e curador do POAJazz, para produzir a arte dos cartazes do festival.

Do esboço à arte final…

“Partimos do briefing do Badia, de pensar no valor da música e no quanto isso é sagrado, no quanto ela, a música, diverte, acalma e nos faz pensar e dar asas a imaginação”, explica Fraga. E acrescenta: “Não foi fácil, tomei caminhos muito díspares no início da empreitada, mas depois, num certo momento afinamos as ideias e a coisa fluiu”.

Fala mais, Fraga!

O que te inspirou?
Principalmente a música… nas reuniões, esboços, testes de cor e  formas, sempre tinha jazz embalando o processo. Claro que fotos de músicos catadas na internet, asas de pássaros em livro, sites de biologia foram a base da coisa toda. Aí de alguma forma, entram também as referências indiretas como o filme Asas do Desejo, de Wim Wenders, principalmente aquela parte que o anjo vai ao show do Nick Cave and the Bad Seeds. Também pesquisei a figura de anjos em pinturas do maneirismo e alta renascença embora essas imagens remetam a  religiosidade/sagrado estava mais interessado como as asas eram aplicadas aos personagens das referências.

O jazz te inspira?
Em primeiro lugar, a música como um todo é o combustível para o motor criativo, dependendo do dia, do estado de espírito, ouço outras coisas (tipo, os minimalistas Philip Glass e Steve Reich, King Crimson, The Stranglers, The Fall.  Um Baden aqui, um Itamar Assumpção ali, Bossa, Fito, Drexler, Led, Sabbath, Carlos Moscardini, Piazzolla, música tradicional andina e bum, volto para o jazz). Estes músicos e estilos que flertam ou enfiam os dois pés na grande jaca do jazz, inspiram a minha criação, seja nas demandas profissionais como ilustrador ou quanto a veia de arteiro/artista na hora de produzir coisas para a minha satisfação pessoal.  Aí sim, no segundo caso o jazz tem participação fundamental de dar o ritmo para a criação seja de uma pintura, um desenho ou um esboço/estudo para algum projeto.

No caso específico das peças do POAJazz, foi uma oportunidade única de aliar esses três elementos em um único trabalho: o jazz como inspiração, a oportunidade de ilustrar algo mais artístico usando a técnica da aquarela, e a aplicação do meu desenho nas peças de comunicação de um evento importante que celebra meu estilo musical preferido.

 O que há de jazz no teu desenho?
Bom, como baterista que abandonou as baquetas, (mentira, esporadicamente toco com uns amigos sem noção do que isso representa para os ouvidos alheios!) creio que o ritmo é muito importante como ferramenta para detonar ideias gráficas, tanto no meu trabalho no jornal, quanto no estúdio. Mas a analogia que me parece se adequaria a pergunta é que sempre, veja bem, sempre que desenho algo, faço um esboço que comumente chamo de plano de voo, mas que também pode ser comparado a pauta da música, ali, linha por linha está traçado a composição, só que no meio desse andamento, eu sempre guardo espaço para o acaso, para um solo, para adicionar elementos que não estavam na pauta/plano original. É nesse espaço que acredito que o desenho e a improvisação jazzística tocam no mesmo compasso.

Como você “improvisa”?
O improviso surge, pra desarmar o que já está estabelecido, pode ser adicionando elementos novos ao desenho, pode ser no uso inusitado do material provocando “acidentes gráficos” como manchas, respingo, seja no original físico ou na arte digital, saindo do esquema inicial, não deixando tudo exatamente certinho, limpinho e bonitinho simplesmente. Acho que esse tipo de abertura ao improviso, o não ter medo de errar, é o que possibilita esse situação de dar asas a esse jazz que é a liberdade de criar.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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