Os Beatles uruguaios

Emílio Pacheco estreia na AmaJazz lembrando de Los Shakers e de uma época em que Montevidéu virou Liverpool

Para ser lido ao som de Break it All, com Los Shakers

A explosão dos Beatles em 1964 gerou uma enxurrada de imitadores no mundo inteiro. Em países de língua inglesa, as bandas absorviam as influências e se lançavam com identidade própria, algumas agregando novos elementos musicais. Em nações de outros idiomas, em geral gravavam-se versões do quarteto de Liverpool e composições inéditas adaptadas ao gosto local. No Brasil, tivemos Renato e Seus Blue Caps e Brazilian Bitles. O gênero é chamado por alguns de “som beat”, ié-ié-ié ou simplesmente “estilo Beatles”. Mas um grupo da América do Sul se destacou pela ousadia de não só imitar o conjunto de Lennon e McCartney, mas também de lançar um repertório próprio em inglês: os uruguaios Shakers.

Foto: Reprodução/Estudios Fotograficos Olga Masa/Buenos Aires/Domínio Público/Wikimedia Commons
Foto: Reprodução/Estudios Fotograficos Olga Masa/Buenos Aires/Domínio Público/Wikimedia Commons

Reza a lenda que os irmãos Hugo e Osvaldo Fattoruso e Roberto Pelín Capobianco (que formavam o Trio Fattoruso, de jazz) decidiram montar uma banda à imagem e semelhança dos Beatles ao assistir ao filme A Hard Day’s Night em Montevidéu. Após uma primeira tentativa com Osvaldo na bateria, acabaram convidando o amigo Carlos “Caio” Vila, um músico experiente, para assumir as baquetas. Os Fattoruso ficam com as guitarras e Pelín, no baixo. Estava pronto o quarteto.

A princípio, os Shakers (ou “Los” Shakers, nome que soa mais exótico em outros continentes) se limitavam a fazer covers dos Beatles. Foi a chance de gravar um disco que os motivou a criar um repertório inédito. Como a indústria fonográfica do Uruguai era ínfima, o grupo, a exemplo dos Iracundos (outra ótima banda do mesmo país), se deslocou para Buenos Aires. Contratados pela Odeon argentina, os Shakers estrearam em 1965 com o compacto Break it All – ou Rompan Todo, como chamam os próprios ex-integrantes, seguindo a tradição da América Espanhola de traduzir os títulos. A canção se tornou um clássico do grupo, tendo sido regravada em 1991 pelos argentinos Charly Garcia e Pedro Aznar, com participação especial de Sandro (que serviu de modelo para o brasileiro Sidney Magal nos anos 70) no vocal.

No mesmo ano, saiu o primeiro LP do conjunto, intitulado simplesmente Los Shakers. Ali se estabelecia em definitivo a fórmula dos Beatles uruguaios. Das 14 faixas, apenas duas eram covers: Keep Searching e It’s My Party. As outras 12 eram composições dos irmãos Fattoruso, recriando com perfeição as harmonias vocais e o som das guitarras de seus inspiradores de Liverpool. A linda balada Forgive Me, também lançada em espanhol como No Fuimos, ganhou versão de Renato e Seus Blue Caps, Te Adoro, no LP Especial, de 1968.

O ponto fraco dos Shakers era o inglês deficiente. O letrista Osvaldo não dominava o idioma o bastante para compor e mesmo a pronúncia dos manos era sofrível. O título What a Love é uma tradução literal de “que amor” e soa estranho. Na cover de It’s My Party, eles cantam “it’s my party and I cry if I want you“, quando o certo é “want to“. Mas como, em princípio, o público-alvo deles era a América do Sul, isso não se tornou um entrave. O sucesso veio ao natural e, sempre que voltavam ao Uruguai, eram recebidos como deuses.

Em 1966 veio o segundo LP, Shakers for You. Ali já se nota uma tentativa de amadurecimento, já que os próprios Beatles também estavam evoluindo. E uma curiosidade é que a primeira faixa, Never, Never, com toques de bossa nova, acabou se tornando o hit brasileiro do grupo. Segundo depoimento de Osvaldo para o programa Volver Rock, o compacto vendeu 800 mil cópias no Brasil. Antes mesmo disso, os Shakers se apresentaram por aqui, trazidos pela gravadora Fermata. O apreço dos fãs brazucas pela banda uruguaia foi reacendido em 1992, quando uma saudosa loja do Rio de Janeiro bancou uma coletânea dos Shakers em CD com o mesmo nome do estabelecimento, All the Best.

Também em 1966, apesar das limitações no inglês, os Shakers conseguiram uma façanha incrível: lançar um LP nos Estados Unidos. Break it All saiu pelo pequeno selo Audio Fidelity, de Nova York, e continha regravações de clássicos da banda com Osvaldo assumindo os vocais que eram de Hugo. O disco tornou-se a ponte dos uruguaios para a visibilidade internacional, ao menos entre pesquisadores e colecionadores mais obstinados. O crítico e escritor americano Richie Unterberger chega ao exagero de considerá-los musicalmente “superiores” a muitos grupos legítimos de Liverpool, em texto do site All Music. Esse reconhecimento foi atestado quando, no ano 2000, o selo inglês Big Beat montou a compilação Por Favor, com nada menos de 32 faixas e texto de encarte de Alec Palao.

Acompanhando o progresso não só dos Beatles mas de todos os músicos de sua geração, os Shakers atingiram o ápice da sofisticação com La Conferencia Secreta del Toto’s Bar em 1969. Inevitavelmente, o álbum rendeu comparações com o Sgt. Pepper’s. Mas foi também o momento em que o ciclo se cumpriu e o grupo veio a se desfazer. Em 1971, Caio e Pelin lançaram o LP En el estudio otra vez e creditaram a Shaker’s, assim mesmo, com apóstrofe. Em 1981, os irmãos Fattoruso voltaram como Otroshakers e intitularam seu disco A los Shakers. Mas o retorno de verdade da banda, com formação completa, só aconteceu em 2005, com direito a show e um disco novo, Bonus Tracks. Foi apenas uma reunião temporária. Os membros seguiram seu caminho, mas a memória dos Shakers é cultuada até hoje.

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