falaJazz | O lirismo de Lyra

A partir da bossa nova – e da influência do jazz – Carlos Lyra levou sua música aos quatro cantos do planeta

Para ser lido ao som de Carlos Lyra e Antonio Adolfo em Primavera
Foto: Divulgação/Facebook/@carloslyraoficial
Foto: Divulgação/Facebook/@carloslyraoficial

O lirismo que fez de Carlos Lyra talvez o maior melodista da bossa nova está presente em centenas de composições, resultados de parcerias do autor com – por exemplo, para citar apenas dois dos mais frequentes – Vinicius de Moraes e Ronaldo Bôscoli. Lembra aí: Se é Tarde me PerdoaLobo BoboSaudade Fez um SambaMinha NamoradaCanção que Morre no ArVocê e EuPrimaveraCoisa Mais Linda e Maria Moita. São composições que exaltam os ensinamentos da bossa nova – de quem estava na gênese do movimento – com influências de várias latitudes, como o samba, o bolero e, obviamente, o jazz.

“Durante dez anos, eu vivi uma espécie de exílio musical em meu próprio país. Os meus discos não eram divulgados e se não fossem os japoneses eu provavelmente continuaria sem ser ouvido. Eu cheguei até a pensar que seria bom se eu fosse pirateado”, me disse Lyra numa conversa há dez anos. Agora, na entrevista a seguir, Lyra faz uma balanço (otimista e positivo) dos 60 anos da bossa nova – “É uma música popular que virou um clássico e assim como qualquer clássico perdurará por todos os tempos. O tripé que a constituiu foi a harmonia sofisticada, a melodia elaborada e as letras coloquiais cantadas de uma maneira cool” – e de como o jazz o influenciou.

O que o jazz tem de influência na tua música?
O principal é a harmonia que fez com que harmonizássemos os sambas e sambas-canções de maneira mais sofisticada, que é um dos elementos que constitui a Bossa Nova. O west coast foi fundamental para chegarmos a essa forma. Depois vieram os improvisos, até que se chegou ao exagero e eu acabei compondo Influência do Jazz, exatamente para denunciar esse excesso que acabava deturpando a essência da bossa nova.

Como foi tocar com Stan Getz, Chick Corea e Gary Burton?
Como atração especial da banda de Stan Getz, excursionei pelo mundo por dois anos com esses craques. Eu brincava dizendo que era minha banda!! Todos craques. Era um prazer e um divertimento me apresentar com eles. Chick Corea era um grande parceiro de xadrez, que era nosso passatempo favorito nas longas esperas em camarins. Stan era divertido e ciumento, pois a condição que coloquei para excursionar com ele foi que só tocasse minhas músicas, já que eu era e sou um cantautor e não um intérprete. Uma noite, aparece num dos concertos Benny Goodman e pede para tocar comigo e pergunta: Você sabe Garota de Ipanema? Eu disse que sim e tocamos. Quando acabou, Stan vem até mim e fala: pra ele você toca, não é?

O que a temporada que você viveu nos EUA representou para sua música?
Pude me apresentar, fazer gravações como as com Tony Bennett, tornar minha música mais conhecida. Com isso e com as turnês, elas foram se espalhando pelo mundo. Então, essa temporada foi um investimento, até que me apaixonei pelo México e abandonei Stan e as turnês.

E sua proximidade com Moacir Santos?
Moacir era meu professor. Se espantava com os arranjos que eu fazia e tínhamos uma mútua admiração. O único trabalho que fizemos juntos foi a gravação do LP Pobre Menina Rica que eu o convidei para interpretar o Samba do Carioca. Ele chegou no estúdio de terno e gravata, encarando o desafio como uma coisa muito solene. Ao final da gravação virou pra mim e disse: nunca mais falo mal de cantor!!!

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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