Le Highlander

Pedro Só volta à AmaJazz para lembrar Charles Aznavour, morto hoje mas que parecia indestrutível fazendo uma turnê de despedida aos 85 anos, em 2009

Para ser lido ao som Les Plaisirs Demodés (The Old Fashioned Way)

 

Charles Aznavour
Ilustração: Gilmar Fraga

Do alto dos 75 anos de carreira, Charles Aznavour costuma dizer que atualmente se aplaude de pé “qualquer imbecil”. A frase tem um quê da ranzinzice do francês de caricatura, mas é sábia. E sustentada pelos atos do cantor e compositor até hoje. Somando 85 primaveras (e invernos) de vida e mais de 700 canções escritas, ele deixou o palco do Vivo Rio fazendo por merecer, de fato, uma ovação distinta. Pouquíssimos artistas se apresentam ao vivo com o apuro técnico e o carisma ímpar do rapaz pobre, de origem armênia, que, antes do sucesso, considerava-se limitado pela baixa estatura, a voz, os gestos, a falta de cultura, a franqueza e a falta de personalidade.

O timbre arranhadinho e os vibratos, sua marca registrada, seguem intactos, a emissão incrivelmente pouco alterada pelo passar dos anos. Aznavour respira perfeitamente e sublinha certas frases com gestos firmes e viris feito os de um toureiro. Emenda canção atrás de canção, história com história, durante cerca de 90 minutos de apresentação. Parece inesgotável. Não é surpresa que sua turnê de despedida já venha rodando o mundo há quatro anos (extasiou plateias brasileiras no ano passado) sem dar sinal de realmente chegar ao fim.

O roteiro tem ligeiras modificações em relação a 2008: começa com Les Immigrants (no lugar de Les Temps), decola com À Paris On A Tout e, depois de Sa Jeunesse, só claudica na desnecessária Ave Maria e no dueto kitsch com a filha Katia (uma das duas vocalistas de apoio), Je Voyage, com direito a bisou no final. Os violinos sintetizados às vezes escondem o acordeão, mas, no geral, os oito músicos são impecáveis, atentos aos comandos do baixinho e seus velhos truques cênicos.

O mais apreciado deles parece ser a dança consigo mesmo em Les Plaisirs Demodés (The Old Fashioned Way), rodopiando sem medo da labirintite. Sozinho, a mão direita no ombro esquerdo, meio Didi Mocó, meio canastra, mas com certa poesia, certa solidão. Involuntária? Certamente que não. Aznavour sabe tudo. Il faut savoir, ensina ele, em uma de suas mais poderosas canções. Non, Je N’ai Rien Oublié sai como aula magna de interpretação, um mergulho belíssimo na tristeza com pausas, risos e falas.

La Bohème e She encerram a noite, matando quem ainda não tinha morrido de emoção. Aznavour é o único sobrevivente da noite.

(Texto cedido pelo autor e publicado na revista Billboard, em setembro de 2009)

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