Salvo pela Orquestra Tabajara

Naquelas noites de domingo de 1993, a big band comandada pelo maestro Severino Araújo era a cápsula que me isolava do mundo

Para ser lido ao som da Orquestra Tabajara
Ilustração: Moa Gutterres
Ilustração: Moa Gutterres

1993 foi um ano ruim. Eu nem havia lido John Fante para parodiar um de seus livros com 60 anos de atraso, mas acabei vivendo nos últimos meses daquele ano o meu “annus merdabilis”. Foi há 25 anos. No dia 20 de setembro – aquela espécie de 4 de julho dos gaúchos – eu deixava Porto Alegre com a leve convicção que deveria dar uma sacudida. Trocar aquilo que se convencionou chamar de “zona de conforto” pelo desafio de trabalhar num grande jornal (ainda que decadente), numa metrópole desconhecida (ainda que fascinante). O Rio de Janeiro quase nada fez para piorar minha situação – pelo contrário: colocou bons amigos no meu caminho, me presenteou com dias maravilhosos naquela curta temporada e me criou algumas bolhas de alegria.

A Orquestra Tabajara, por exemplo.

Ter 26 anos e morar sozinho no Rio pode ser uma das maiores alegrias do mundo. Naquele tempo, não me parecia. Uma situação até hoje não muito clara para mim, que misturava crises pessoais e afetivas com um tsunami descontrolado de injustiças envolvendo minha família, me deixaria naquele período mais melancólico do que normalmente sou.

Mas havia válvulas de escape. Durante vários domingos um dos meus maiores prazeres era ir à Domingueira Voadora, no Circo Voador, para ver a Orquestra Tabajara em ação. Na época, a big band já tinha quase seis décadas de atuação e período quase idêntico de vida no Rio (havia sido criada originalmente na Paraíba, em 1934 e estava entre os cariocas desde uma década depois). Seu dínamo também estava lá. O maestro Severino Araújo, à frente do grupo desde 1937, quando morreu o então diretor Olegário de Luna Freire, era testemunha e símbolo de todo um período riquíssimo da música brasileira – e ele continuava firme. Quase sempre regendo e muitas vezes empunhando o clarinete, principalmente nas interpretações da intrincada Espinha de Bacalhau, Severino demonstrava criatividade e jovialidade. Já tinha então 76 anos.

A Tabajara era uma junção de muitos caminhos. Era a orquestra que integrava o cast da grandes emissoras (Tupi, Mayrink Veiga, Nacional) na época da Era de Ouro do rádio brasileiro, servindo de base instrumental para as vozes dos grandes intérpretes. Era também a orquestra que animava bailes com um repertório que atiçava o baixo ventre sem desprezar os ouvidos e o cérebro. E, naquele período das Domingueiras Voadoras, servia ainda como uma cápsula do tempo, recuperando sons e imagens que pareciam perdidas. Eu que nunca fui muito dado a dançar adorava ficar parado só ouvindo.

O trabalho no Jornal do Brasil me dava acesso a algumas pautas que sempre pensei em fazer. Severino Araújo era uma delas. Consegui emplacar a ideia e no mesmo dia descolei o telefone da casa do maestro. Fiz o tema de casa indo à Pesquisa, preparei algumas das melhores perguntas que poderia formular e liguei. Para minha surpresa, ele mesmo atendeu. Foi simpático, atencioso, mas a memória parecia cansada e a maior parte da entrevista ficou sem resposta. No jargão jornalístico, a pauta morreu. Anos depois, eu descobriria que o próprio Severino já parecia igualmente cansado e, logo depois, deixaria o comando da orquestra. Seria substituído por seu irmão, Jayme, e se retiraria para uma tranquila aposentadoria até morrer, em 2012, aos 95 anos, vítima de falência múltipla de órgãos.

Aqueles dias vividos no Rio foram pródigos em aventuras e emoções (algumas nem tão alegres). Foram meses em que eu envelheci anos mas ainda me permito olhar para trás e ter memórias boas daquele período. A vida melhoraria em muitos sentidos. E se o roteiro daquele filme que eu vivia não era dos melhores, a trilha sonora do maestro Severino era perfeita – e ajudou a me salvar.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

2 pensamentos

  1. MB, Marcito. Pena que o nome da orquestra ficou tão enxovalhado pelas Organizações Tabajara dos Cassetas.

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