Um pianista pela África Livre

Randy Weston, morto no dia 1º, foi importante não apenas por suas qualidades musicais, mas também pelo seu engajamento político e cultural

Para ser lido ao som de Lambert, Hendricks & Ross e Eric Dolphy e Chuck Israels

Há uns dias, recebi do Roberto Muggiati a seguinte mensagem:

Márcio
Pena, não tenho tempo para escrever e só faria isso com a ilustra do LP que o Randy Weston autografou para mim na Manchete – deu uma canjinha no piano de lá – quando veio ao Brasil lá pelos anos 70.

Então, já que Muggiati não consegue, vou me esforçar e tentar explicar a importância do pianista, morto no último dia 1º, aos 92 anos, em Nova York.

Randy Weston no Bataclan, em Paris, em 2002 (Foto: J. Harlaar/Divulgação)
Randy Weston no Bataclan, em Paris, em 2002 (Foto: J. Harlaar/Divulgação)

Começo usando as palavras do próprio Weston: “Onde quer que eu vá, tento explicar que se você gosta de música, precisa saber de onde veio. Se você fala em jazz ou blues ou bossa nova ou samba ou salsa – tudo vem da África. Se você retirar os elementos africanos da nossa música, não sobra nada”, explicou ele em uma entrevista em 2003. E foi a isto que Weston se dedicou na maior parte da sua vida: mostrar que tudo veio da África.

Nascido no Brooklyn, em 6 de abril de 1926, Randolph Edward Weston era filho de um barbeiro que emigrara do Panamá e dele recebeu os primeiros ensinamentos a respeito da cultura africana. Estimulado pela mãe, passou a ter aulas de piano ainda criança, tocando nas igrejas da vizinhança. Serviu no exército americano durante a II Guerra e – ao retornar – encontrou o pai em nova profissão, agora dono de um restaurante no Brooklin. Foi ali que Weston passou a trabalhar e também a tocar mais intensamente.
A partir de então, Weston se dividiria entre duas obsessões: o estudo da cultura africana e a música de Thelonious Monk, de quem se tornaria amigo e discípulo.

Tal como Monk, suas primeiras gravações – realizadas na década de 50 – eram de difícil catalogação. Vinham do bebop mas não se encaixavam no perfil mais explícito do estilo. Suas harmonias eram agudas, fragmentadas. Era ainda um músico que privilegiava o ritmo, deixando a melodia em segundo plano e antecedendo alguns ensinamentos que surgiriam com o hard bop.

Em 1959, Weston tornou-se membro da Jazz Society da ONU, um grupo que tinha a tarefa de difundir o jazz pelo mundo. A partir de então seu interesse pelas questões africanas – não apenas culturais mas também políticas – começa a crescer.

Era uma época de grande efervescência, coincidindo com o período em que o os países da África se libertavam da exploração colonial. Afinado com estes anseios, Weston gravou álbuns que explicitamente saudavam a luta pela independência como Uhuru Afrika (o título em swahili significa Africa Livre), com letras do poeta Langston Hughes. Seu visual também incorporaria elementos africanos como as grandes batas e os gorros coloridos. E, no final dos anos 60, Weston radicalizaria, mudando-se para o Marrocos, onde viveria por cinco anos, dirigindo em Tânger o Centro Cultural de Ritmos Africanos. Depois de anos de intensas peregrinações musicais, Weston retornaria aos Estados Unidos, voltaria ao Brooklin e – até o fim da vida – manteria uma intensa produção musical além de atuar como professor universitário e divulgador dos ensinamentos que havia adquirido como pesquisador da cultura africana.

Antes de terminar, recebo outro pedido de Muggiati:

Acho que você deveria colocar no AmaJazz duas versões do Hi-Fly, para mim uma das maiores composições do jazz. Uma bonitinha com Lambert, Hendricks & Ross, outra pauleira, com Eric Dolphy e Chuck Israels.

Feito.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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