O dia em que vi o encontro de Bud Powell e Thelonious Monk em Paris

Roberto Muggiati testemunha o encontro musical e telepático de dois gênios do jazz no Blue Note francês

Para ser lido ao som de In Walked Bud, com Art Blakey & Thelonious Monk
Bud Powell e Thelonious Monk (Fotos: Wikimedia Commons)
Bud Powell e Thelonious Monk (Fotos: Wikimedia Commons)

Na tarde de 18 de abril de 1961, uma terça-feira, eu estava na privilegiada plateia do Olympia para o único show em Paris de Thelonious Monk na sua turnê europeia. Apaixonado, com Ela ao meu lado, e Monk tocou um solo de piano só para nós dois, tinha de ser April in Paris.

Horas depois, à noite, eu estava numa mesa estrategicamente situada do Blue Note, para ouvir o trombonista J.J. Johnson, acompanhado pelo trio da casa, The Three Bosses: Bud Powell (piano), Pierre Michelot (baixo) e Kenny Clarke (bateria). Eis que surge no clube de jazz da rue d’Artois, para uma visita de cortesia a Bud, ninguém menos do que Mr. Thelonious Sphere Monk. Lembrei que Monk havia composto um tema-homenagemIn Walked Bud; agora, a situação podia ser definida como In Walked Monk. Era intervalo de set, o grandalhão Monk deu um abraço de urso no velho amigo Bud, e os dois se sentaram lado a lado num sofá de pista com as costas coladas justamente para a minha mesa.

Já me havia acontecido compartilhar o mesmo metro cúbico de ar com uma celebridade. Foi numa projeção especial de A um Passo da Eternidade, na velha Cinémathèque Française da rue d’Ulm, com o diretor do filme, o grande Fred Zinnemann, sentado na desconfortável cadeira de compensado bem à minha frente. Foi o que eu batizei de Síndrome do Bafo na Nuca ou do Sopro no Cangote; aconteceria comigo de novo em 1963, quando eu trabalhava na BBC de Londres, numa pré-estreia para a imprensa de 55 dias em Pequim, com “o animal mais belo do mundo”, Ava Gardner.

As nucas imortais de Bud e Monk a centímetros do meu bafo representava a glória em dose dupla. Antecipei como um semideus o privilégio de entreouvir uma conversa dos dois gênios do piano. Nada. De vez em quando, viravam a cabeça e olhavam um para o outro – “Quá-quá-quá!” “Quá-quá-quá!” “Quá-quá-quá!” – e trocavam gargalhadas homéricas. Depois, silêncio. Era o momento em que se comunicavam mais intensamente.

Uma coisa aprendi naquela noite de abril em Paris: homens como Thelonious e Bud estão em sintonia mental o tempo todo. Não têm nenhuma necessidade desta ferramenta a que nós, pobres mortais, precisamos recorrer: as palavras.

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