O homem-orquestra

Como um solista que precisa de um instrumento para se expressar, Duke Ellington utilizava a orquestra como instrumento

Para ser lido ao som de Duke Ellington at Newport
Foto: William P. Gottlieb/Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: William P. Gottlieb/Domínio público/Wikimedia Commons

Num mundo fragmentado e ágil como o do jazz, Duke Ellington foi uma das poucas unanimidades. “Todos deveriam agradecer de joelhos o fato de Ellington ter existido”, reconheceu o idiossincrático e pouco afeito a elogios, Miles Davis. No meio dessa agilidade – no jazz, tendências, artistas e estilos se modificam por completo em cerca de dez anos – Ellington criou e manteve uma orquestra por cinco décadas (muitos músicos o acompanharam até a morte), influenciando uma infinidade de pequenos e grandes cojuntos. Numa arte que valoriza a improvisação, o desrespeito às partituras e a criação de composições instantâneas, Ellington foi o autor de um dos mais belos e perenes songbooks dos cancioneiro americano, responsável por uma obra – em extensão e qualidade – que lhe coloca ao lado de Jerome Kern, Cole Porter e George Gershwin. E até hoje, passados mais de cem anos de seu nascimento (em 1999) e mais de 40 de sua morte (em 1974), Ellington continua sendo reverenciado e homenageado pelas novas gerações.

O título aristocrático foi dado por um vizinho – em Washington, cidade onde nasceu – admirado com as boas maneiras do garoto de oito anos Edward Kennedy Ellington. Filho de uma família de classe média, Ellington frequentou a escola, teve aula de piano desde os sete anos de idade, familiarizou-se com os compositores eruditos e – como diria Miles Davis posteriormente – nunca precisou colher algodão perto do rio Mississipi para saber o real significado do blues.

Sem querer, o vizinho de Ellington seria profético e Duke Ellington logo estaria num meio entre condes (Count Basie) e reis (King Oliver). Chegou a Nova York no início dos anos 20, liderando um quinteto, The Washingtonians, já com dois membros – o baterista Sonny Greer e o saxofonista Otto Hardwick – que posteriormente estariam nas sua orquestra. Como não obteve grande sucesso, Ellington e grupo retornaram a Washington voltando a Nova York três anos depois, agora como contratado do Cotton Club, o mais importante clube de jazz do Harlem. A partir daí, a orquestra – com o trompetista Bubber Miley, o trombonista Joe “Tricky Sam” Nanton e o saxofonista Harry Carney – começava a ganhar a feição que a tornaria famosa.

Estudioso e interessado, Ellington pesquisava sonoridades africanas, latinas, europeias e orientais e as adaptava ao estilo de sua orquestra. Como um solista que precisa de um instrumento para se expressar, Ellington utilizava a orquestra como instrumento, tirando de seus músicos um som homogêneo e único. Influenciado pelos compositores clássicos como Debussy e Ravel, Ellington sabia compor peças líricas e melancólicas, criando o mood style, enquanto também se aproximava da música africana para criar o jungle style, usando trombones e trompetes para caracterizar grunhidos e ruídos em uma floresta.

Quase que com a mesma intensidade que sua música entrava pelos ouvidos, também podia ser visualizada. O músico que na adolescência queria ser artista plástico era capaz de construir imagens com as notas musicais em obras como Portrait of Bert Williams,Sepia PanoramaMood IndigoBlack, Brown and BeigeGolden Feather e Ebony Rhapsody.

Seu papel revolucionário na afirmação de uma música afro-americana já era tão grande que Ellington atravessou a frenética década de 40 do bebop sem ser questionado pelos principais líderes do movimento. A partir dos anos 50, o som orquestral ellingtoniano voltaria a ser referência para jovens músicos, até para artistas tão vinculados à vanguarda e ao experimentalismo, como os saxofonistas John Coltrane e Sonny Rollins, o contrabaixista Charles Mingus, o pianista John Lewis e o baterista Max Roach.

Nos últimos anos de vida, Ellington aproximou-se desses jovens músicos gravando dezenas de discos nos anos 60. E mesmo após a morte de seu braço-direito, o arranjador Billy Strayhorn, em 1967, continuou a compor prolificamente. Comemorou seus 75 anos cercado de homenagens e palavras elogiosas de músicos de todas as tendências. Morreu quase um mês depois, em 24 de maio de 1974, vítima de um tumor pulmonar. Seu funeral reuniu mais de 10 mil admiradores na Catedral St. John the Divine, mesmo local em que havia apresentado seis anos antes o seu Concerto Sacro.

 

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