O herói da classe trabalhadora

Virulento, lúcido e, antes do mandamento guevariano, “duro sem deixar de ser terno”, Woody Guthrie mudou a música americana com a sua “máquina de matar fascistas”

Para ser lido ao som de The Best of Woody Guthrie
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Foto: Al Aumuller/Domínio público/Wikimedia Commons

Foi com seu violão – ou a “máquina que mata fascistas” – que Woody Guthrie desafio e denunciou um Estados Unidos destroçado pela Depressão do início dos anos 30 e que em menos de duas décadas – já recuperado economicamente – ainda seria devastado pela perseguição político-artística do macarthismo. Virulento, lúcido e, antes do mandamento guevariano, “duro sem deixar de ser terno”, Woody Guthrie foi o pioneiro de uma estirpe de Singer-songwriters que entrariam para a história como os mais perfeitos narradores do outro lado do american way of life. A revelação de uma parte até então desconhecida do trabalho de Woody esteve presente no disco Mermaid Avenue, de 1999, parceria do músico americano Billy Bragg com o grupo inglês Wilco a partir das letras cedidas pela filha do compositor, Nora Guthrie.

O baú de Woody Guthrie havia começado a ser aberto dois anos antes, coincidindo com os 30 anos da morte do compositor. A amostragem – pequena porém representativa – reunia letras, poemas e anotações diárias que ficalizavam um período pouco explorado da carreira do compositor. Mermaid Avenue é o nome de uma avenida em Coney Island, Brooklin, onde Woody morou com a terceira mulher, Marjorie, logo depois da II Guerra Mundial. Na casa de dois andares na Avenida Sereia, o constante e incansável andarilho Woody encontrou a tranquilidade que marcava seu temporário afastamento das estradas – e a estrada tem um valor fundamental em sua obra, como se fosse uma extensão de um legado que começa na tradição oral da poesia de Walt Whitman, passa por Woody e segue através de Pete Seeger, Bob Dylan – um declarado e entusiasmado discípulo – e Bruce Springsteen.

Nascido em Okemah, Oklahoma, em 14 de julho de 1912, Woodrow Wilson Guthrie – registrado com nome retirado do então governador de Nova Jersey e que no ano seguinte tornaria-se presidente americano pelo partido Democrata – teve a vida tangenciada pela tragédia. Perdeu a irmã numa explosão de uma mina de carvão, viu o pai definhar e falir e a mãe ser internada num hospital psiquiátrico. Mau aluno, com 16 anos já havia saído de casa e seguido sua vocação estradeira, apresentando-se em bailes e feiras tocando harmônica e violão. De Oklahoma foi para o Texas e de lá para a a Califórnia.

As perambulações pelas estradas e o constante contato com os milhares de desempregados que vagavam pelos Estados Unidos despertaram sua consciência social. Engajado politicamente, Woody escrevia artigos para os jornais Daily Worker e People’s World, ligados ao Partido Comunista, e os distribuía junto com songbooks artesanais feitos em mimeógrafo que reuniam suas composições. Algumas viraram hinos instantâneos – como Bound for Glory e This Land is Your Land – fazendo dele um ícone da contracultura e um precursor do movimento beatnik.

Quando já estava praticamente aposentado, descansando ao lado de Marjorie, começou a ser incensado por poetas e escritores como Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Lawrence Ferlinghetti. Seu relato autobiográfico, Bound for Glory, foi transformado em filme em 1976, com direção de Hal Ashby e com o kung fu David Carradine no papel principal – no Brasil o filme foi batizado com o nome de outra canção de Guthrie, Esta Terra é Minha Terra. A partir do começo dos anos 50, a saúde de Guthrie passaria por períodos de colapso.

Seu declínio e seu comportamento completamente errático fariam com que fosse diagnosticado com sintomas de alcoolismo e esquizofrenia, mas logo seria descoberto que ele sofria da doença de Huntington, mal genético provavelmente herdado de sua mãe. A partir de então, sua vida se resumiria a passagens por hospitais e por poucos momentos em casa.

Seu sofrimento teria fim na primeira semana de outubro de 1967. Pouco teve contato com sua última consagração pública, quando passou a ser citado por Bob Dylan e recuperado para as novas gerações pelas interpretações de seu filho Arlo. Suas ideias seguiam na estrada.

 

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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