O playboy do jazz

Em 88 anos de vida, Jorginho Guinle esbanjou muito, se divertiu mais ainda e ouviu tudo que o jazz produziu de melhor no século 20

Para ser lido ao som de Duke Ellington & John Coltrane
Foto: Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Domínio público/Wikimedia Commons

Herdeiro de uma fortuna que incluía hotéis, navios e comércio de café, Jorginho Guinle soube dar ao patrimônio o destino que merecia: ser gasto. Em seus 88 anos de vida, Jorge Eduardo Guinle sempre esbanjou muito e se divertiu mais ainda. “O segredo do bem viver é morrer sem um centavo no bolso. Mas acho que errei o cálculo”, me disse esse pós-graduado em hedonismo em uma entrevista no ano 2000, ironizando a própria sorte e o fato de ter sido tão longevo – Jorginho morreria menos de quatro anos depois desta conversa. Morreria também sem nunca ter trabalhado. Porém, entre as atividades que ficariam na fronteira entre o trabalho e o prazer, Jorginho chegaria a escrever algumas colunas e lançar o livro Jazz Panorama. Escrito nos anos 50 e pioneiro na análise da música americana feita por um brasileiro, Jazz Panorama traz na apresentação um texto de Vinicius de Moraes que garante: “De Jorge Guinle posso dizer que ninguém no Brasil, e muito pouca gente no mundo, possui a sua cultura e o seu cabedal jazzístico”.

Jorginho começou a gostar de jazz aos 12 anos, em 1928, quando ouviu um disco de Duke Ellington. Depois, conviveu com os jazzistas, passou longos períodos em Nova Orleans, Nova York e, principalmente, Los Angeles, viu ao vivo os grandes nomes – inclusive Charlie Parker, Duke Ellington, Billie Holiday e Louis Armstrong – e hospedou outros tantos em passagem pelo Brasil.

Na mesma conversa que tivemos em Porto Alegre em outubro de 2000, Jorginho me explicou como conseguiu manter casos amorosos com algumas das mulheres mais belas e desejadas do planeta: “Elas vinham até mim”. A declaração, feita em voz baixa, não continha nada de presunção. Afinal, durante décadas, Jorginho Guinle se acostumou a ser o centro, o ponto de convergência, dos mais ecléticos grupos.

Em um século marcado pela efemeridade, pelos 15 minutos de fama, Jorginho Guinle resistiu com charme e elegância à toda decadência de uma vida social da qual ele foi um dos protagonistas. Último remanescente de uma legião romântica de cafajestes nacionais (Mariozinho de Oliveira, Ibrahim Sued), internacionais (Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Dean Martin) e genuínos playboys (Porfírio Rubirosa e Ali Khan), Jorginho Guinle foi um mestre em ter um estilo de vida que privilegiava a cultura, o glamour e o hedonismo.

Discreto, Jorginho Guinle pouco falava dos vários romances que teve durante sua vida. Mas sabe-se do seu envolvimento com Jayne Mansfield, Kim Novak, Romy Schneider, Rita Hayworth, Anita Ekberg, Lana Turner, Ava Gardner e Marylin Monroe – está última quando ainda ela era Norma Jean e que Guinle conheceu em 1947 na casa de Alfred Bloomingdale, dono da cadeira de lojas .

Nos anos 30, 40, 50 e 60 não foram poucos os astros que vieram ao Brasil  – de graça – apenas atendendo a um convite do playboy, que abria as portas do Copacabana Palace. Sua lista de amigos era um who’s who da política, dos negócios e das artes, aí incluídos os Kennedy, Judy Garland, Orson Welles, Ella Fitzgerald, Nelson Rockefeller, Howard Hughes, Dizzy Gillespie, Liza Minnelli e Tony Bennett. Jorginho Guinle fez mais pelo turismo brasileiro do que todas as embraturs da época.

Nos últimos meses de vida, a saúde passou a cobrar seu preço. Jorginho sofreu um aneurisma da aorta abdominal e chegou a ser hospitalizado com um quadro de desidratação, desnutrição e arritmia cardíaca. Inquieto e insatisfeito, pediu para deixar o hospital e ser levado para “o céu”, que era como ser referia ao seu quarto de número 153 no Copacabana Palace. Na noite de 4 de março de 2004, pediu como refeição estrogonofe de frango, milk-shake de baunilha e sorvete de framboesa. Morreu na madrugada seguinte como sempre quis – sonhando com Marylin Monroe e ouvindo John Coltrane.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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