Estranhos frutos

Roberto Muggiati conta a história dos três minutos da música imortalizada por Billie Holiday e que foi inspirada numa foto que mostra o enforcamento de dois homens nos Estados Unidos

Para ser lido ao som de Billie Holiday em Strange Fruit
Foto: Lawrecen Beitler/Coleção Stephan Loewentheil/Biblioteca da Cornell University
A foto que inspirou a canção, de Lawrence Beitler, obrigou seu autor a trabalhar dez dias e noites fazendo cópias para jornais e revistas do mundo inteiro (Foto: Lawrecen Beitler/Coleção Stephan Loewentheil/Biblioteca da Cornell University)

O nome da canção: Strange Fruit. E são estranhos os frutos: negros linchados pendurados em árvores. A música foi inspirada por uma foto de 1930 que mostra dois “homens de cor,” com o corpo e a roupa despedaçados e uma corda no pescoço, pendendo de galhos sobre uma multidão de brancos em clima de festa: jovens namorando, velhas mexericando e um homem de pele alvíssima, com bigodinho de Hitler, apontando acusadoramente para um dos mortos. Ironicamente, o flagrante foi feito em Marion, Indiana, embora os mais de 5 mil linchamentos documentados nos Estados Unidos entre 1930 e 1960 fossem cometidos no Sul do país.

A foto teve repercussão imediata e obrigou seu autor, Lawrence Beitler, a trabalhar dez dias e noites fazendo cópias para jornais e revistas do mundo inteiro. Ela inspirou o verso inicial de Desolation Row, de Bob Dylan: “Estão vendendo cartões postais dos enforcados.” Mas o efeito mais profundo e duradouro da imagem foi um poema, Bitter Fruit (Fruto Amargo), publicado em 1938 numa revista marxista por Abel Meeropol, um professor judeu e comunista do Bronx, Nova York.

Depois de musicar o poema com o pseudônimo de Lewis Allan (nome de seus dois filhos natimortos), Meeropol procurou Billie Holiday para interpretar a canção, Strange Fruit, no Café Society – um clube de jazz progressista – onde ela iniciava temporada em dezembro de 1938. Esta história é contada detalhadamente no livro que o jornalista David Margolick publicou em 2000, lançado no Brasil como Strange Fruit – Billie Holiday e a Biografia de uma Canção.

O triunfo de Strange Fruit é uma síntese de vários fatores: a ideologia de Meeropol somada ao carisma de Billie Holiday, mas também a ousadia de Barney Josephson, dono do Café Society, que apresentou a canção em público, e de Milt Gabler, dono do selo independente Commodore, que a lançou em disco logo depois. (Gravadoras mais poderosas, como a Columbia – que tinha Billie no seu elenco – recearam ofender o público conservador com uma canção tão subversiva).

Billie teria ficado surpresa com a proposta de Meeropol. Strange Fruit não era uma canção no estilo popular da época, mas uma espécie de drama musicado que tinha o linchamento como tema. Exigia a atenção total da plateia e parecia um número improvável para um cabaré de jazz. Mas o Café Society era diferente: ali brancos e negros se confraternizavam, bacanas e dondocas eram ridicularizados, e a maior parte da clientela era esquerdista: “Os porteiros usavam trapos, luvas brancas esfarrapadas, e ficavam parados enquanto os clientes abriam as portas eles mesmos; os garçons eram todos veteranos da Guerra Civil Espanhola”.

Billie era leitora de romances baratos e muitos achavam que não tinha a sensibilidade para entender e interpretar a canção. Tinha 24 anos e 13 dias quando Strange Fruit foi gravada, em 20 de abril de 1939. Pouca idade para uma estrela, mas Billie já cantava profissionalmente havia dez anos. Pode-se dizer que foi Strange Fruit que a elevou ao estrelato e ela se apossou da canção como se houvesse saído de suas entranhas. Em sua autobiografia de 1956, Lady Sings the Blues, Billie dá a impressão de que, mais do que intérprete, foi a autora da canção.

Quando Josh White começou a cantar Strange Fruit, ela invadiu seu camarim e botou literalmente uma faca no seu pescoço para que não invadisse aquele território sagrado. Josh argumentou que quanto mais gente cantasse Strange Fruit, melhor seria. Billie concordou e ficaram amigos para sempre. Billie cantava Strange Fruit sempre no final da noite, no escuro, seu rosto iluminado apenas por um pequeno refletor. Retirava-se depois dos aplausos e não voltava mais.

A cantora Sylvia Sims resumiu a experiência: “Tudo o que se via era aquele rosto incrível num foco de luz que hipnotizava inteiramente a plateia, do momento em que ela entrava em cena até o momento em que saía. Via-se o mundo naquele rosto, tudo o que era humano, tudo o que era vivo, toda a beleza e desgraça da vida.”

Elijah Wald, biógrafo de Josh White, disse: “Quando Josh canta, você sente que está presenciando uma grande apresentação. Quando Billie canta, você sente que está ao pé da árvore”. Comenta Margolick: “A comparação traz à mente o que o clarinetista Tony Scott disse uma vez de Holiday e da outra primeira-dama do canto, Ella Fitzgerald: ‘Com uma cantora como Ella, quando ela canta ‘meu homem me deixou’, você pensa que o sujeito foi à rua comprar pão. Mas quando Lady canta, você vê as malas feitas, o carro partindo na rua, e você sabe que ele não vai voltar nunca mais!’”

Em 1999, a revista Time apontou Strange Fruit como “A Canção do Século”. Sessenta anos antes, quando saiu a gravação, a mesma revista a havia chamado de “uma peça de propaganda musical.” Quando Billie adotou Strange Fruit, sua mãe perguntou por que ela cantava aquilo. “Pode ajudar a melhorar as coisas,” respondeu Billie. “Mas você vai estar morta,” disse a mãe. Billie replicou: “Mas vou sentir quando acontecer. Vou saber no meu túmulo”. Billie tinha razão: desde sua morte, há 53 anos, vem recebendo no túmulo muitas notícias de mudanças no seu país, que hoje tem um negro na Casa Branca.

Strange Fruit

 “Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees.

 

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh.

 

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop”

(Texto cedido pelo autor e publicado originalmente pela Gazeta do Povo em 2012)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s