Só tinha de ser com você

De como Elis & Tom transformou-se num clássico instantâneo e a harmonia do resultado final fez com que o disco escondesse os diversos desentendimentos entre os dois

Para ser lido ao som de Elis & Tom
Foto: Reprodução/Instituto Antônio Carlos Jobim
Foto: Reprodução/Instituto Antônio Carlos Jobim

Há 44 anos, Elis Regina – já, aos 28 anos de idade, uma veterana na música brasileira – comemorava uma década como contratada da Philips. Como tinha direito a um presente da gravadora – um carro, uma casa, uma viagem… –, Elis resolveu inovar e fez um pedido inusitado: gravar um disco com Tom Jobim em Los Angeles. O resultado foi o disco que Elis & Tom, que, com Chega de Saudade, virou referência no Brasil e no exterior.

A Elis Regina de 1974 já era a maior cantora brasileira de sua geração. Até então havia lançado 12 discos, entre eles o Em Pleno Verão e os dois que levavam o seu nome e gravados respectivamente em 1972 e em 1973. Naquele ano, também, Elis passava a ser empresariada por Roberto de Oliveira, então com 26 anos, e à frente da Clak Produções Artísticas. Anos depois, Oliveira recordaria que Elis havia o procurado porque imaginava dar um novo rumo à carreira, que pudesse se aproximar de um público mais jovem e que não tivesse mais a imagem tão vinculada ao seu ex-marido, Ronaldo Bôscoli, “que a levou para um mundo global, apolítico e reacionário, bem diferente do que era vivido pelos cantores e compositores da geração dela, que estavam em franca oposição à situação política na época”. Para agravar a situação, Elis havia cantado nas Olimpíadas do Exército o que a fizera cair em desgraça. Henfil, no Pasquim, chegou a “enterrá-la”.

Já Tom Jobim gozava o status de maior compositor brasileiro, com sólida carreira aqui e no exterior, gravado por todos os principais intérpretes do mundo e ainda com a honra de ter dividido um disco com Frank Sinatra. Morava nos Estados Unidos mas nunca deixou de manter uma casa no Brasil. Era respeitado a admirado por todos.

A maior cantora chegava a Los Angeles para dividir um disco com o maior compositor do Brasil sem saber como seria recepcionada. Mesmo que Tom demonstrasse certa simpatia por Elis, a ponto de ter dado à ela a primazia de gravar Águas de Março dois anos antes, Elis ainda guardava ressentimentos da época de que chegou ao Rio, em 1964, e – reza a lenda – foi vetada por Tom para o elenco de Pobre Menina Rica por ser “uma cantora provinciana, ainda com cheiro de churrasco”.

O possível mal estar dissipou-se rapidamente. Fui testemunha da declaração de Mariano, na ocasião do lançamento do CD, em 2004, em que ele recordava que Tom foi receber o casal e os músicos (Paulinho Braga, Luizão Maia e Hélio Delmiro) no aeroporto. “Tom chegou de pijama e com uma rosa na mão, de guarda-chuva sob a garoa”. Já em casa, Tom gostou de saber que Elis e Mariano haviam pré-selecionado 40 músicas. Das conversas dos três – com palpites de Aloysio de Oliveira – saíram as 14 finais. Mais tarde, no relançamento de 2004, surgiram dois bônus: Bonita e uma versão alternativa de Fotografia. A primeira havia ficado de fora do álbum porque Elis não gostara de sua pronúncia em inglês. A outra é a versão original, gravada em Los Angeles. A que saiu no álbum original teria sido gravada posteriormente em São Paulo.

A harmonia do resultado final fez com que o disco escondesse os diversos desentendimentos entre Elis e Tom. Na época, antes do ensaio, Aloysio de Oliveira, produtor do LP, informou que os arranjos seriam de Mariano, o que contrariou Tom, que preferia entregar a tarefa a nomes mais tarimbados como Claus Ogerman ou Dave Grusin. Tom temia que Mariano utilizasse instrumentos elétricos, que eram tão ao gosto de Cesar.

Da temporada de 20 dias – entre 22 de fevereiro e 9 de março de 1974 – que Elis e Mariano passaram em Los Angeles, quatro foram dedicados às gravações nos estúdios MGM. Para evitar que o hoje produtor João Marcelo – na época com três anos – ficasse correndo pelo estúdio, Tom pediu que sua mulher e sua filha fossem com ele para a Disneylandia. Do que foi recuperado daquela temporada é possível ouvir algumas falas do violonista Oscar Castro Neves, alguns barulhos de estúdio (pés batendo no chão contando os tempos, por exemplo) e até diálogos como o de Elis confessando que já fumou um maço de cigarros. Tom não a repreende – apenas pede que ela use a piteira que ele lhe deu de presente.

 

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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