Tudo mais, pura rotina, jazz

O Caetano Veloso que hoje chega as 76 anos é o resultado de muitos

É a soma do Caetano que se apresentava nos anos 60  dizendo que “toda essa gente se engana ou então finge que não vê que eu nasci para ser o superbacana” com o outro Caetano que uma década depois acrescentaria que “sempre quis muito mesmo que parecesse ser modesto”. É ainda o Caetano que se aproximava dos 40 anos declarando que já tinha coragem de “de saber que é imortal” para pouco tempo depois se subestimar, autoclassificando-se como “apenas um velho baiano, um fulano, um caetano, um mano qualquer”. Esse mutante Caetano entraria no novo milênio mudando novamente o discurso, olhando para trás e reconhecendo que “o que eu herdei de minha gente nunca posso perder” e – ainda preocupado com a imortalidade – previa: “eu vou viver dez, eu vou viver cem, eu vou viver mil”.

Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

O certo é saber que o certo é o certo?

Certo. Caetano que sempre teve uma relação tão generosa com tempo (“ainda assim acredito, ser possível reunirmo-nos, tempo tempo tempo tempo, num outro nível de vínculo”, disse antes de chegar aos 40) aproxima-se dos 80 anos com sabedoria. Para quem já havia confessado que o “mero ato de compor era tão desesperadamente necessário”, Caetano há tempos se mostra tranquilo e sábio. E sabe que “por ser feliz, por sofrer, por esperar, eu canto”.

A seguir faço uma seleção caetanística bem idiossincrática, porém me explico:

  • Um Caetano que passa pelo Rio Grande do Sul e por Miles Davis em Prenda Minha
  • Um Caetano que homenageia a capital gaúcha e um de seus bairros mais conhecidos em Menino Deus
  • Um Caetano que interpreta o melhor do cancioneiro americano com Get out of Town, de Cole Porter
  • Um Caetano jazzístico homenageado pelo grande saxofonista Gato Barbieri em Odara
  • E por fim um Caetano interpretando “Blues, de Péricles Cavalcanti, amigo e parceiro do músico baiano, que, na sequência, conta a história da composição:
    • Como nasceu a canção Blues. O ano era 1979, quando eu e Lídia, casados há pouco e esperando nosso primeiro filho, fomos visitar o meu amigo Rogério Duarte, no templo Hare Krishna, em que ele morava, aqui em São Paulo. De lá voltamos com um belo pôster com essa divindade hinduísta estampada. Já em casa, o colocamos próximo de um outro pôster, do mesmo tamanho e igualmente bonito, com a imagem de Iemanjá, divindade do Candomblé. Foi a predominância das tonalidades de azul, nos dois, mais a minha felicidade com nosso casamento recente, que deu o ponto de partida para a composição de ‘Blues’. E esse nome surgiu, por um lado, pela semelhança harmônica e estrutural com os blues clássicos e, por outro, por uma espécie de analogia poética entre esse gênero de que sou fã e os azuis a que me refiro na letra. Depois, Caetano me deu ainda a alegria de me chamar pra tocar o violão na sua gravação!
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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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