O admirável Wilson das Neves

No mês que marca um ano da morte do grande baterista, recupero uma entrevista que fiz com ele em 2007

Para ser lido ao som de Wilson das Neves ao vivo no Instrumental Sesc Brasil
Foto: Rafael Silva/CC BY 2.0/Wikimedia Commons
Foto: Rafael Silva/CC BY 2.0/Wikimedia Commons

“Ô, sorte!”, saúda o baterista Wilson das Neves, usando um bordão – já conhecido entre os músicos do Rio de Janeiro – repleto de significados. Sorte dele de, aos 70 anos, estar plenamente realizado e ainda na ativa, com uma carreira musical das mais sólidas entre os instrumentistas brasileiros.

Sorte de Chico, que conta com esse artista múltiplo em seu grupo há mais de duas décadas.

Nascido em 1936, Das Neves é um carioca de Madureira, flamenguista e Império Serrano, filho de uma baiana da escola. “Já nasci Império Serrano. Quando era criança, eu ia ver o desfile na Praça Onze. Depois, ainda adolescente, comecei a tocar na bateria e nunca mais parei de desfilar”, explica o músico.

Um dos instrumentistas mais respeitados da MPB, a carreira de Das Neves começou cedo, aos 14 anos, quando ele passou a ter aulas com o percussionista Edgar Nunes Rocca, o Bituca. “Foi ele quem me levou para a escola Flor do Ritmo. Depois, aos 18 anos, comecei a frequentar o “ponto dos músicos”, na praça Tiradentes e fui conhecendo pessoas. Meu primeiro trabalho profissional foi no Dancing Brasil, na orquestra de Ubirajara Silva”.

A partir daí não parou mais. Participou de vários conjuntos, entre eles o de Steve Bernard em 1963, a Orquestra de Astor Silva em 1964, o Conjunto de Ed Lincoln em 1965, a orquestra da TV Globo no Rio e a orquestra da TV Excelsior de São Paulo, além de tocar com alguns dos maiores nomes da música brasileira. “Faz o teste aí: vai dizendo os nomes dos músicos e certamente eu terei tocado com eles”, desafia Das Neves.

Os cinco primeiros citados – Tom Jobim, Paulinho da Viola, Jorge Benjor, João Donato e Caetano Veloso – foram confirmados pelo baterista, que ainda acrescentou à lista Elizeth Cardoso, Elza Soares, Roberto Carlos, Elis Regina, Wilson Simonal, Baden Powell e Chico Buarque, que vem sendo seu parceiro mais frequente nos últimos anos. Paralelamente, Das Neves é integrante da Orquestra Imperial, big band que reúne 18 músicos fixos e vários agregados de peso, juntando nomes como Nelson Jacobina, Moreno Veloso, Rodrigo Amarante e Pedro Sá.

Na última década, a carreira do músico ganhou novos rumos. Depois de ter lançado vários discos como instrumentista – O Som Quente É o Das Neves (1969) e Samba-Tropi – Até aí Morreu Neves (1970) –, o baterista estreou como cantor em 1996, em O Som Sagrado de Wilson das Neves, abrindo seu baú de composições. O disco trazia um clássico instantâneo (O Samba É Meu Dom) e garantiu a ele um Prêmio Sharp. Por incrível que pareça, de músico-revelação. “Fui convidado para fazer um disco instrumental, mas não quis. Já tinha feito outros. Queria gravar minhas músicas, interpretá-las. Aliás, nem me considero um cantor. Sou apenas um intérprete das minhas músicas”, diz Das Neves, destacando que o sucesso do CD favoreceu o lançamento de um outro disco, Brasão de Orfeu.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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