Aaron Diehl e seus voos sonoros

Eduardo Osório Rodrigues* escreve sobre o ex-piloto que trocou os aviões pelas teclas do piano Yamaha

Para ser lido ao som de Aaron Diehl Trio
Foto: Ingrid Hertfelder
Foto: Ingrid Hertfelder

Refinement é a palavra da língua inglesa que melhor define a artesania musical do pianista Aaron Diehl. Músico talentoso e compositor sofisticado, Aaron é considerado um virtuose do instrumento, mas infenso a exibicionismos. Não faz do palco um circo nem das teclas malabares. Utiliza sua técnica impecável a serviço das músicas que compõe, arranja e interpreta.

Ex-aluno da Juilliard School, e dos pianistas Kenny Barron e Eric Reed, Aaron se destacou antes mesmo de estrear em disco. Em 2002, foi considerado solista excepcional na Essentially Ellington, competição promovida pela Jazz at Lincoln Center comandada por Wynton Marsalis. Em 2003, aos 17 anos, passou a integrar o septeto do trompetista. Seu toque sutil e elegante ao piano também chamou a atenção da crítica. Além de reconhecer seus méritos, jornalistas especializados viram no jovem um novo prodígio do instrumento. Amy Wilder, do Columbia Daily Tribune, chegou a dizer: “Aaron é um pianista que deixa a mão esquerda saber o que a direita está fazendo. Elas trabalham juntas em uma alquimia fluida que faz a cabeça balançar e os pés baterem no ritmo”.

O músico com approuch melódico, tanto na exposição temática, como nos solos improvisados, recebeu outras honrarias da cena jazzística norte-americana. Venceu em 2011 a Cole Porter Fellowship, da American Pianists Association, que lhe rendeu US$ 50 mil, e foi apontado como o músico em ascensão (“Up and coming artist of the year”) da temporada 2012-13 pela Jazz Journalist Association.

De férias em Paris, assisti em 2014 à apresentação de seu quarteto no Duc des Lombards, a casa de Jazz no Marais. Sentado a poucos metros do palco, pude comprovar a excelência do pianista-compositor e de seu quarteto: Aaron ao piano, David Wong no contrabaixo, Rodney Green na bateria e o extraordinário Warren Wolf no vibrafone – formação semelhante a do Modern Jazz Quartet, conjunto de Jazz “camerístico” de John Lewis e uma das influências do artista, que também cultua precursores do ragtime e do stride piano.

Cercados por ótimos coadjuvantes, Aaron e Warren se destacam como os principais solistas. Mas Aaron é generoso. Sublinha as invenções dos colegas com desenhos rítmico-melódicos de traços econômicos. Nada em seu estilo é fútil, gratuito.

Lançado em 2015 pelo mesmo selo independente, o novo disco Space Time Continuum registra uma colaboração artística entre gerações. O álbum tem como base o trio com o baixista David Wong e o baterista Quincy Davis, mas a concepção se abre para convidados especiais, como os emergentes Stephen Riley (sax tenor) e Bruce Harris (trompete); e os ilustres octogenários Benny Golson (sax tenor) e Joe Temperley (1929-2016, sax barítono). Temperley é aquele que substituiu, em 1974, o grande Harry Carney na orquestra de Duke Ellington. A música-título do CD é assinada pela cantora, amiga e parceira musical Cécile McLorin Salvant.

Além dos dois registros autorais, a pequena discografia do pianista contempla dois discos ao vivo e participação em compilações. Live at Caramoor, lançado em 2009, contém músicas próprias e temas de George Gershwin, Cole Porter e Bill Evans, gravados durante o festival realizado no ano anterior nesta propriedade a 80km de Nova York. Em Live at The Players, de 2011, Aaron está ao lado dos parceiros de sempre: os virtuosos David Wong (baixo) e Quincy Davis (bateria). Porém, em duas faixas é acompanhado pelo contrabaixista Paul Sikivie e pelo baterista Lawrence Leathers.

Piloto licenciado, Aaron voa no grand piano em busca de novos horizontes de liberdade artística.  “Gosto de voar. De lá vejo as coisas de uma perspectiva diferente”.

* Eduardo Osório Rodrigues é jornalista e autor do livro Negras Melodias – Músicas de Feiticeiras e Santos Pecadores

 

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