Xamã psicodélico

Daniel Soares* homenageia Carlos Santana, que colocou em seu caldeirão uma inventiva mistura de rock, blues, jazz e ritmos latinos

Para ser lido ao som de Abraxas, de Carlos Santana
Foto: Magikman6386/Wikimedia Commons
Foto: Magikman6386/Wikimedia Commons

Os cabelos encaracolados, o espesso bigode, uma guitarra na mão e uma trajetória ímpar na música mundial. Já sabem quem é? É Carlos Alberto Santana Barragán, ou simplesmente Santana, que completou 71 anos no último dia 20, 52 desses dedicados a uma sonoridade toda própria, capaz de dialogar com extrema facilidade com o jazz, o blues-rock e, naturalmente, com a música latina.

O mexicano filho de um violinista conheceu a guitarra ainda jovem, com apenas oito anos e, desde cedo, já sabia que não iria seguir a tradição mariachi do pai. Quando passou a respirar a vanguarda de São Francisco, antes dos 20 anos, o blues foi sua primeira opção, formando a Santana Blues Band e, que logo depois, passou a se chamar apenas de Santana. Era 1966 e Santana frequentava o rol de bandas que tocavam no lendário Fillmore West Auditorium.

Com apenas um disco lançado, ele alcançava alguma notoriedade com a faixa Evil Ways. Depois, Santana foi uma das bandas convidadas a participar de Woodstock, numa das grandes jogadas do empresário Bill Graham, que também era manager de Jefferson Airplane e Greateful Dead. Santana se apresentou às 14h, do dia 16 de agosto, e o show durou 45 minutos. A canção Soul Sacrifice foi parar no filme sobre o festival e o músico mexicano foi alçado quase que imediatamente ao estrelato.

Naqueles anos de plena descoberta, da total liberdade pregada no amor, na convivência e também na música, Santana encontrou o terreno mais que apropriado para a sua fusão latina com a psicodelia, com fraseados do jazz e do blues. Suas apresentações pareciam como grandes cultos, despertando na plateia o contato com a ancestralidade. Entre batuques e longos solos, Santana era um xamã, um Hendrix que hablava, mas não cantava.

No início dos anos 70, após a banda se desfazer e o tecladista Gregg Rolie fundar o Journey, Santana se sentiu mais livre para poder colaborar com nomes que não eram ligados especificamente ao rock ou aquela safra pós-Woodstock. Mesmo emplacando sucessos como Oye Como VaEuropa,Black Magic Woman e Samba Pa Ti, Carlos Santana manteve colaborações com John McLaughlin, Weather Report, Buddy Miles (com quem gravou um álbum ao vivo em 1972), Herbie Hancock, Gato Barbieri, Tito Puente, Ron Carter e Wayne Shorter, este último com um recomendável disco gravado ao vivo no Festival de Montreux, em 1988. Em 1999, Santana voltou com tudo ao lançar Supernatural, onde divide as faixas com muitos convidados, entre eles, Rob Thomas, Maná, Eric Clapton, Eagle-Eye Cherry, Lauryn Hill e Dave Matthews.

Com 10 grammys, Santana revelou em entrevista em 2002 para a BBC Brasil que pouco ligava para os prêmios “Na minha casa, às vezes o telefone tocava e era o Miles Davis querendo falar comigo, outras vezes o B.B. King, Harry Belafonte, Desmond Tutu, Djavan”, elenca. “Por que eu ligaria para o Grammy? Sou amigo das pessoas mais maravilhosas do planeta e vou ficar ligando para troféus?”.

Santana só precisa de uma guitarra e de amigos, duas coisas que não faltam a ele.

* Daniel Soares é roqueiro, jornalista e guitarrista

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